{"id":1079,"date":"2016-11-30T09:48:07","date_gmt":"2016-11-30T11:48:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1079"},"modified":"2016-11-30T10:04:53","modified_gmt":"2016-11-30T12:04:53","slug":"nas-entrelinhas-os-mortos-permanecem-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-mortos-permanecem-jovens\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Os mortos  permanecem jovens"},"content":{"rendered":"<p><em>Num mundo de pernas para o ar por causa das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e das guerras, esses jovens est\u00e3o em busca de protagonismo<\/em><\/p>\n<p>\u201cDesde que recebera o panfleto, morrer passou a ter outro sentido, como se estivesse mais ligado \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de continuar a viver do que \u00e0 morte propriamente. Antes, a vida pesava-lhe como um fardo; somente em raras noites de domingo sentia algum prazer. O panfleto foi o primeiro apelo humano que lhe fora endere\u00e7ado. Pela primeira vez, sentiu que algu\u00e9m o solicitava com sofreguid\u00e3o, precisava dele com urg\u00eancia, de corpo e alma, algu\u00e9m que n\u00e3o poderia viver sem ele. (&#8230;) Quando guardou o panfleto num bolso do uniforme, sabia ter encontrado, afinal, aquilo que procurava com inquietude e inconscientemente.\u201d<\/p>\n<p>Esse extrato do romance Os mortos permanecem jovens, de 1949, da escritora judia alem\u00e3 Ana Seghers, ilustra o momento de tomada de consci\u00eancia de um jovem soldado alem\u00e3o sobre a viol\u00eancia do Estado e a guerra em plena trincheira da I Guerra Mundial. O livro \u00e9 um manifesto pela paz, que correu o mundo durante a Guerra Fria. N\u00e3o existe um her\u00f3i no romance, apenas a necessidade do hero\u00edsmo para seguir vivendo, mesmo no isolamento dos que tentaram na Alemanha evitar a trag\u00e9dia do nazifascismo em plena II Guerra Mundial. \u201cMinha m\u00e3e, quantas vezes desejei voltar a esconder-me em teu ventre!\u201d, exclama em outra est\u00f3ria, o jovem Hans, que tenta organizar um grupo dissidente dentro da Juventude Hitlerista.<\/p>\n<p>As ex\u00e9quias de Fidel est\u00e3o pleno curso em Havana. \u00c9 inevit\u00e1vel a compara\u00e7\u00e3o com Che Guevara, morto precocemente nas serras da Bol\u00edvia, o grande mito do her\u00f3i revolucion\u00e1rio e \u00edcone da juventude, n\u00e3o importa os erros ou at\u00e9 mesmo os crimes que tenha cometido. Nem de longe a imagem de Fidel, que morreu de morte morrida, tem o mesmo simbolismo. O julgamento de Che pela hist\u00f3ria foi feito com base na luta contra as ditaduras da Am\u00e9rica Latina; o de Fidel, ao contr\u00e1rio, ser\u00e1 \u00e0 luz do regime socialista \u00e0 moda sovi\u00e9tica que implantou em Cuba, a ferro e fogo. Che permaneceu jovem; Fidel morreu como um anci\u00e3o.<\/p>\n<p>Invoco a obra de Ana Seghers em raz\u00e3o dos incidentes de ontem na Esplanada dos Minist\u00e9rios. Estudantes entraram em conflito com policiais militares durante protesto contra a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 55, que limita os gastos do governo pelos pr\u00f3ximos 20 anos. Jogaram coquet\u00e9is molotov, viraram carros, fizeram barricadas com sanit\u00e1rios qu\u00edmicos, quebraram orelh\u00f5es, depedraram pr\u00e9dios p\u00fablicos, enquanto a pol\u00edcia usava spray de pimenta e jogava bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio e de efeito moral num confronto que durou horas. Foi uma situa\u00e7\u00e3o parecida com as de 2013, no Rio de Janeiro, nas proximidades do Maracan\u00e3, e em S\u00e3o Paulo, perto da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica. Em ambos os casos, eram jovens estudantes que protestavam, a maioria secundaristas.<\/p>\n<p>O protesto de ontem foi motivado pela vota\u00e7\u00e3o da chamada PEC do teto dos gastos no Senado; o quebra-quebra come\u00e7ou quando o senador Eun\u00edcio de Oliveira (PMDB-CE) lia o seu parecer em plen\u00e1rio. A proposta em an\u00e1lise no Senado estabelece que as despesas da Uni\u00e3o (Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio) s\u00f3 poder\u00e3o crescer conforme a infla\u00e7\u00e3o do ano anterior. O texto \u00e9 considerado pelo governo um dos principais mecanismos para garantir o reequil\u00edbrio das contas p\u00fablicas. Enfrenta, por\u00e9m, oposi\u00e7\u00e3o de estudantes e professores, principalmente. Pelo texto da PEC, se um Poder desrespeitar o limite de gastos, sofrer\u00e1, no ano seguinte, algumas san\u00e7\u00f5es, como ficar proibido de fazer concurso p\u00fablico ou conceder reajuste a servidores.<\/p>\n<p><strong>Qual futuro?<\/strong><\/p>\n<p>Durante a sess\u00e3o, Gl\u00e1ucia Moreli, presidente da Confedera\u00e7\u00e3o das Mulheres do Brasil, invadiu o plen\u00e1rio, protestou contra o texto e foi retirada por agentes de seguran\u00e7a, mas recebeu apoio dos senadores petistas Lindbergh Farias (RJ), Regina Sousa (PI) e Paulo Paim (RS). \u201cN\u00f3s queremos as verbas da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o. O or\u00e7amento da Uni\u00e3o ano passado foi destinado a banqueiros e s\u00f3 5% para a sa\u00fade. Como vai ficar quem precisa de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas? Ainda mais agora, com 13 milh\u00f5es de desempregados\u201d, disse Gl\u00e1ucia, ap\u00f3s ser retirada do plen\u00e1rio. Essa narrativa \u00e9 falsa, o teto n\u00e3o reduz os gastos com a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade, pois os recursos destinados \u00e0s duas \u00e1reas ser\u00e3o estabelecidos na discuss\u00e3o do Or\u00e7amento. Mas h\u00e1 uma grande verdade no que ela falou: o desemprego, que j\u00e1 atinge 30% dos jovens.<\/p>\n<p>Talvez a imagem de Che Guevara motive muito mais os jovens radicais do que a PEC propriamente dita. Mesmo sem ditadura, nem guerra fria, qual o futuro que est\u00e1 sendo oferecido a essa gera\u00e7\u00e3o? Em crise de identidade, sem representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 altura, num mundo que est\u00e1 de pernas para o ar por causa das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e das guerras, esses jovens est\u00e3o em busca do seu pr\u00f3prio protagonismo na hist\u00f3ria. Como o jovem m\u00e9dico argentino que virou guerrilheiro em Cuba. A pol\u00edtica brasileira, infelizmente, tem muito pouco a oferecer a eles, em meio \u00e0 crise \u00e9tica e \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o de suas principais lideran\u00e7as. Com toda certeza, os incidentes de ontem alimentar\u00e3o mais protestos. E n\u00e3o faltar\u00e3o, entre os jovens que protestam, aqueles que, sem outra perspectiva, talvez desejem permanecer eternamente jovens. \u00c9 esse o perigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num mundo de pernas para o ar por causa das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e das guerras, esses jovens est\u00e3o em busca de protagonismo \u201cDesde que recebera o panfleto, morrer passou a ter outro sentido, como se estivesse mais ligado \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de continuar a viver do que \u00e0 morte propriamente. 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