{"id":10794,"date":"2025-11-02T07:32:37","date_gmt":"2025-11-02T10:32:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10794"},"modified":"2025-11-02T07:32:37","modified_gmt":"2025-11-02T10:32:37","slug":"de-onde-vem-a-malandragem-o-banditismo-e-a-truculencia-policial-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/de-onde-vem-a-malandragem-o-banditismo-e-a-truculencia-policial-do-rio\/","title":{"rendered":"De onde v\u00eam a malandragem, o banditismo e a trucul\u00eancia policial do Rio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O Estado nunca se fez presente de forma permanente e leg\u00edtima. A autoridade \u00e9 exercida por quem oferece prote\u00e7\u00e3o, energia, g\u00e1s, transporte ou simplesmente a paz imposta pela arma<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar por Manoel Ant\u00f4nio de Almeida, no folhetim \u201cMem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias\u201d (1854-1855), cl\u00e1ssico de nosso romantismo, que retrata a vida do Rio de Janeiro no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, na Corte de Jo\u00e3o VI, e desenvolve pela primeira vez a figura do malandro. Pouco antes da independ\u00eancia, como agora, a cidade era marcada por uma ordem social frouxa e negoci\u00e1vel, pelo compadrio, pela esperteza e pela aus\u00eancia de moral r\u00edgida, na qual emerge a figura de Leonardo, o anti-her\u00f3i que ascende pela malandragem e pela prote\u00e7\u00e3o dos poderosos.<\/p>\n<p>Est\u00e3o ali retratadas as ra\u00edzes profundas da cultura pol\u00edtica e policial brasileira, na qual a lei \u00e9 male\u00e1vel e a autoridade se confunde com o favor, desde a cria\u00e7\u00e3o daquela que viria a ser a Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro. O sargento Vidigal est\u00e1 viv\u00edssimo, \u00e9 o arqu\u00e9tipo da autoridade que oscila entre o arb\u00edtrio e a coniv\u00eancia, entre o Estado e o \u201cjeitinho\u201d, ao mesmo tempo repressor e corrupto, que encarna o poder de manter a disciplina, mas tamb\u00e9m de participar dos mecanismos informais de domina\u00e7\u00e3o e lucro. Mais atual imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Passemos aos prim\u00f3rdios da Rep\u00fablica, quando saiu do prelo \u201cOs sert\u00f5es\u201d (1902), de Euclides da Cunha, que descreve a Guerra de Canudos (1896-1987), a trag\u00e9dia que mostrou um pa\u00eds dividido entre o oficial e o real, cuja iniquidade social era desconhecida pela classe m\u00e9dia urbana e as suas elites de h\u00e1bitos europeus. A partir da\u00ed, o sertanejo, visto inicialmente como b\u00e1rbaro, m\u00edstico e cidad\u00e3o de segunda classe, se torna s\u00edmbolo da resist\u00eancia de uma popula\u00e7\u00e3o abandonada, esmagada pela for\u00e7a do Ex\u00e9rcito nacional, ap\u00f3s tr\u00eas campanhas militares desastrosas.<\/p>\n<p>Seus soldados viriam a ocupar o Morro da Previd\u00eancia, no Gamboa, Centro do Rio, e formar a primeira favela do pa\u00eds, deslocando o padr\u00e3o carioca de habita\u00e7\u00e3o popular dos corti\u00e7os para os barracos de madeira e zinco nas encostas. Na d\u00e9cada de 1970, \u00e9 a\u00ed que reinaria Jos\u00e9 Carlos dos Reis Encina, o \u201cEscadinha\u201d, traficante de drogas que fundou a Falange Vermelha, hoje denominada Comando Vermelho. Sua maior fa\u00e7anha foi fugir de helic\u00f3ptero do pres\u00eddio da Ilha Grande. Cumpriu pena, virou compositor de rap e acabou fuzilado na Avenida Brasil, ap\u00f3s sair do pres\u00eddio de Bangu para trabalhar, sem que se saiba at\u00e9 hoje quem o matou.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-territorializacao-do-crime-organizado-no-rio-e-uma-patologia-social-e-politica\/\"><strong>A territorializa\u00e7\u00e3o do crime organizado no Rio \u00e9 uma patologia social e politica<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O Estado s\u00f3 chega \u00e0s favelas e periferias pela via da truculenta for\u00e7a bruta, n\u00e3o pela cidadania. As opera\u00e7\u00f5es policiais nos \u201ccomplexos\u201d controlados por traficantes reeditam o que aconteceu em Canudos: s\u00e3o expedi\u00e7\u00f5es punitivas contra territ\u00f3rios estigmatizados, onde o Estado \u00e9 ausente na paz e onipresente na guerra, como aconteceu nesta semana no Alem\u00e3o e na Penha.<\/p>\n<p><strong>Classes perigosas<\/strong><\/p>\n<p>Na obra \u201cAs classes perigosas\u201d (1953), sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o da marginalidade urbana no Brasil industrial, Alberto Passos Guimar\u00e3es analisa como o capitalismo perif\u00e9rico gera ex\u00e9rcitos de reserva de miser\u00e1veis, vistos n\u00e3o como v\u00edtimas, mas como amea\u00e7as \u00e0 ordem. O pobre, o negro, o favelado tornam-se o inimigo interno. A repress\u00e3o \u00e9 naturalizada como \u201cdefesa da sociedade\u201d, e a viol\u00eancia estatal \u00e9 legitimada pela ideia de que h\u00e1 cidad\u00e3os de primeira e de segunda categoria.<br \/>\nDurante a ditadura, jovem pobre, preto ou pardo, n\u00e3o podia andar sem documento sob risco de ser preso para averigua\u00e7\u00e3o ou vadiagem, mesmo na porta de casa.<\/p>\n<p>J\u00e1 tive a oportunidade de dizer pessoalmente a Caco Barcelos: seu livro \u201cAbusado \u2013 O dono do Morro Dona Marta\u201d (2003), no qual documenta a ascens\u00e3o de Marcinho VP no Morro Santa Marta, tra\u00e7a um inevit\u00e1vel paralelo entre a iniquidade social que deu origem ao povoado de Canudos, no sert\u00e3o baiano, e a do Morro Dona Marta, na encosta de Botafogo, no Rio de Janeiro. A viol\u00eancia dos jagun\u00e7os e dos jovens traficantes \u00e9 a mesma, por\u00e9m, o misticismo foi substitu\u00eddo pela aliena\u00e7\u00e3o das drogas; a f\u00e9 no profeta, pela lideran\u00e7a brutal do chefe de fac\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o mudou foram a exclus\u00e3o social e a resili\u00eancia dos moradores.<\/p>\n<p>Surfista da praia do Leme (zona sul) na adolesc\u00eancia, M\u00e1rcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, personagem principal de \u201cAbusado\u201d, foi assassinado na unidade 3 do complexo penitenci\u00e1rio de Bangu em julho de 2003. Apontado pela pol\u00edcia como integrante do Comando Vermelho (CV), Marcinho VP foi gerente do tr\u00e1fico de drogas no morro Dona Marta, em Botafogo. O traficante ficou famoso em 1996, quando a equipe do cineasta norte-americano Spike Lee teve de pedir autoriza\u00e7\u00e3o sua para gravar um clipe de Michael Jackson no morro.<\/p>\n<p>Barcelos exp\u00f4s a sociologia viva do tr\u00e1fico: uma estrutura que mistura crime, car\u00eancia, religiosidade, cultura popular e brutalidade. Da\u00ed o paralelo com \u201cOs sert\u00f5es\u201d. \u201cAbusado\u201d antecipa o processo de territorializa\u00e7\u00e3o do crime \u2014 o dom\u00ednio armado sobre comunidades onde o Estado nunca se fez presente de forma leg\u00edtima. Nessas \u00e1reas, a autoridade \u00e9 exercida por quem oferece prote\u00e7\u00e3o, energia, g\u00e1s, transporte, ou simplesmente a paz imposta pela arma.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/11\/7283640-pesquisa-indica-que-aprovacao-de-castro-subiu-apos-megaoperacao-no-rj.html\"><strong>Pesquisa indica que aprova\u00e7\u00e3o de Castro subiu ap\u00f3s megaopera\u00e7\u00e3o no RJ<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 nesse terreno que traficantes e mil\u00edcias se enfrentam. As mil\u00edcias se apresentam como \u201csolu\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d locais, mas funcionam como bra\u00e7os paraestatais de controle e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, reproduzindo, sob outro nome, a l\u00f3gica de segrega\u00e7\u00e3o e medo. Um pacto perverso com policiais corruptos est\u00e1 na raiz dos grandes confrontos com os traficantes. Sempre que deixam de dar propina, descem para o asfalto e tomam territ\u00f3rios da milicia, a pol\u00edcia entra em a\u00e7\u00e3o para restabelecer a \u201cordem\u201d. A expans\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es e a militariza\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es policiais s\u00e3o uma consequ\u00eancia l\u00f3gica. Mas isso \u00e9 assunto para outra coluna.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Estado nunca se fez presente de forma permanente e leg\u00edtima. 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