{"id":10806,"date":"2025-11-06T07:31:54","date_gmt":"2025-11-06T10:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10806"},"modified":"2025-11-06T07:54:03","modified_gmt":"2025-11-06T10:54:03","slug":"nova-york-da-diaspora-judaica-a-eleicao-de-um-prefeito-muculmano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nova-york-da-diaspora-judaica-a-eleicao-de-um-prefeito-muculmano\/","title":{"rendered":"Nova York, da di\u00e1spora judaica \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de um prefeito mu\u00e7ulmano"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Mamdani representa uma s\u00edntese do mundo globalizado \u2014 africano, asi\u00e1tico, mu\u00e7ulmano e nova-iorquino \u2014, em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o alimentada por Trump<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mais do que qualquer outra metr\u00f3pole ocidental, Nova York \u00e9 a mais cosmopolita cidade do mundo, gra\u00e7as a sucessivas ondas migrat\u00f3rias que, a cada gera\u00e7\u00e3o, redefiniram seu perfil econ\u00f4mico, social e cultural. Essa voca\u00e7\u00e3o cosmopolita remonta ao epis\u00f3dio quase lend\u00e1rio de 1654, quando 23 judeus \u2014 expulsos do Recife ap\u00f3s a derrota holandesa para os portugueses \u2014 desembarcaram na ent\u00e3o col\u00f4nia de Nova Amsterd\u00e3, que deu origem \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Vindos de Pernambuco a bordo do navio Valk, depois de escaparem de piratas, de pris\u00f5es e da Inquisi\u00e7\u00e3o, encontraram abrigo prec\u00e1rio na cidade governada pelo calvinista Peter Stuyvesant. Mesmo assim, fundaram a primeira comunidade judaica est\u00e1vel das Am\u00e9ricas, g\u00eanese do pluralismo que seria o germe da identidade nova-iorquina moderna: a conviv\u00eancia tensa, mas f\u00e9rtil, de culturas, cren\u00e7as e etnias em permanente metamorfose.<\/p>\n<p>Nosso elo perdido com Nova York \u00e9 a presen\u00e7a judaica em Pernambuco sob o dom\u00ednio de Maur\u00edcio de Nassau, que n\u00e3o foi apenas um epis\u00f3dio colonial. Foi antecipa\u00e7\u00e3o da modernidade cosmopolita que, dois s\u00e9culos depois, faria de Nova York a grande metr\u00f3pole global. Nassau enxergava na toler\u00e2ncia religiosa uma vantagem pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Recife dos anos 1630 e 1640 era uma cidade aberta, onde se falava holand\u00eas, portugu\u00eas, hebraico e tupi; onde sinagogas e igrejas coexistiam e o com\u00e9rcio internacional florescia.<\/p>\n<p>Quando a ocupa\u00e7\u00e3o holandesa terminou e a Inquisi\u00e7\u00e3o voltou com for\u00e7a, os judeus do Recife foram for\u00e7ados a partir. Essa di\u00e1spora atl\u00e2ntica \u2014 dos engenhos de a\u00e7\u00facar ao porto holand\u00eas e da\u00ed \u00e0 Am\u00e9rica do Norte, mais do que o pr\u00f3logo de uma saga religiosa, \u00e9 o in\u00edcio da ideia de cidade como ref\u00fagio e reinven\u00e7\u00e3o. Ao se estabelecerem em Nova Amsterd\u00e3, os exilados de Pernambuco introduziram no Novo Mundo o princ\u00edpio da pluralidade urbana: a no\u00e7\u00e3o de que a cidade pode ser espa\u00e7o de encontro, e n\u00e3o de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Marshall Berman, em Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar e, principalmente, Um s\u00e9culo em Nova York, descreveu essa voca\u00e7\u00e3o universal da cidade. Para ele, a cidade \u00e9 o palco das contradi\u00e7\u00f5es da modernidade, entre mis\u00e9ria e esplendor, e tradi\u00e7\u00e3o e vanguarda. Berman via nas ruas, especialmente na Times Square, uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio da experi\u00eancia humana moderna, &#8220;porque nela se cruzam os sonhos e os destro\u00e7os do progresso&#8221;.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/11\/7285784-os-desafios-do-socialista-zohran-mamdani-primeiro-muculmano-eleito-prefeito-de-nova-york.html\"><strong>Os desafios do socialista Zohran Mamdani, primeiro mu\u00e7ulmano eleito prefeito de Nova York<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O her\u00f3i de Berman \u00e9 o homem an\u00f4nimo que se dissolve na multid\u00e3o, mas encontra nela sua identidade. O imigrante, o artista, o trabalhador, o sem-teto e o executivo coexistem como express\u00f5es de um mesmo drama: o de construir um sentido de exist\u00eancia num espa\u00e7o em constante muta\u00e7\u00e3o. Multi\u00e9tnica, pluralista e culturalmente aberta, Nova York do s\u00e9culo XXI \u00e9 o produto direto da mesti\u00e7agem espiritual e social. N\u00e3o \u00e0 toa influencia o comportamento do Ocidente.<\/p>\n<p><strong>Cidade aberta<\/strong><\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York em 2025 \u00e9 a continuidade dessa heran\u00e7a cosmopolita, num momento em que o governo Trump fecha a porta para o &#8220;sonho americano&#8221; e persegue os imigrantes. Filho de indianos nascido em Uganda e criado no Queens, Mamdani representa uma s\u00edntese do mundo globalizado \u2014 africano, asi\u00e1tico, mu\u00e7ulmano e nova-iorquino. Seu triunfo eleitoral, em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o alimentada por Trump, confirma que Nova York permanece como sendo um farol pol\u00edtico da sociedade norte-americana: uma cidade capaz de transformar a diferen\u00e7a em for\u00e7a.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/11\/7286579-o-que-a-vitoria-de-mamdani-e-outros-democratas-significa-para-trump.html\"><strong>O que a vit\u00f3ria de Mamdani e outros democratas significa para Trump<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Os judeus que chegaram do Recife em 1654 eram exilados de uma f\u00e9 perseguida. O novo prefeito \u00e9 um mu\u00e7ulmano num pa\u00eds onde o islamismo ainda enfrenta estigmas. Ambos encontraram em Nova York um espa\u00e7o de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o. Mamdani expressa o amadurecimento dessa luta: a passagem do &#8220;direito de ser tolerado&#8221; para o &#8220;direito de governar&#8221;.<\/p>\n<p>Como Berman descreveu, Nova York \u00e9 uma arena de conflitos e reconcilia\u00e7\u00f5es. Mamdani emerge desse caldeir\u00e3o urbano como express\u00e3o da capacidade de acolher, contradizer e transformar. Ele fala a linguagem das redes sociais e das ruas, mistura ativismo pol\u00edtico com performance p\u00fablica, e reinterpreta o ideal democr\u00e1tico \u00e0 luz das novas identidades.<\/p>\n<p>Berman via nas avenidas de Nova York os palcos de cidadania. O verdadeiro sujeito da elei\u00e7\u00e3o de Zohran Mamdani, cuja campanha foi iniciada com uma caminhada perform\u00e1tica de ponta a ponta de Manhattan. Eis um pol\u00edtico que se funde \u00e0 cidade e faz da rua o seu verdadeiro habitat, do Harlem cultural ao Occupy Wall Street.<\/p>\n<p>Transporte gratuito, moradia acess\u00edvel e tributa\u00e7\u00e3o progressiva, as propostas de Mamdani, o social-democrata nova-iorquino, o bem-estar coletivo \u00e9 sin\u00f4nimo da vitalidade das ruas. Num momento em que Trump e seus seguidores reacendem discursos nacionalistas e xen\u00f3fobos, a vit\u00f3ria de um mu\u00e7ulmano socialista na capital financeira do mundo \u00e9 um gesto civilizat\u00f3rio de uma cidade de vanguarda da p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mamdani representa uma s\u00edntese do mundo globalizado \u2014 africano, asi\u00e1tico, mu\u00e7ulmano e nova-iorquino \u2014, em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o alimentada por Trump Mais do que qualquer outra metr\u00f3pole ocidental, Nova York \u00e9 a mais cosmopolita cidade do mundo, gra\u00e7as a sucessivas ondas migrat\u00f3rias que, a cada gera\u00e7\u00e3o, redefiniram seu perfil econ\u00f4mico, social e cultural. 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