{"id":10842,"date":"2025-11-16T07:20:28","date_gmt":"2025-11-16T10:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10842"},"modified":"2025-11-16T07:20:28","modified_gmt":"2025-11-16T10:20:28","slug":"o-sonho-acabou-chilenos-vao-as-urnas-neste-domingo-sob-o-signo-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-sonho-acabou-chilenos-vao-as-urnas-neste-domingo-sob-o-signo-do-medo\/","title":{"rendered":"O sonho acabou: chilenos v\u00e3o \u00e0s urnas neste domingo sob o signo do medo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O governo Boric chega enfraquecido ao fim do mandato. Sua agenda de reformas \u2014 tribut\u00e1ria, previdenci\u00e1ria e trabalhista \u2014 esbarrou no Congresso conservador<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como aconteceu com as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia, no Equador e na Argentina, o Chile vota neste domingo polarizado entre a esquerda e a ultradireita. Jeannette Jara (Partido Comunista do Chile), apoiada pelo presidente Gabriel Boric, e Jos\u00e9 Antonio Kast (Partido Republicano, pinochetista), lideram a disputa.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, o pa\u00eds alternou presid\u00eancias de esquerda e de direita moderadas, tornando-se um \u201ccase\u201d de crescimento alto, estabilidade macroecon\u00f4mica, redu\u00e7\u00e3o da pobreza e institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas. Governos de centro-esquerda e centro-direita partilharam o mesmo \u201csonho chileno\u201d: transformar o pa\u00eds em desenvolvido at\u00e9 2020. Esse ciclo ruiu com o tsunami social de 2019, que exp\u00f4s os limites do modelo: desigualdade social, servi\u00e7os p\u00fablicos prec\u00e1rios, sistema de pens\u00f5es privatizado e endividamento das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A resposta institucional foi ousada: um acordo para redigir uma nova Constitui\u00e7\u00e3o, aprovado por 78% dos eleitores em 2020. Mas o processo terminou em frustra\u00e7\u00e3o. Em 2022, o texto progressista da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional foi rejeitado por 62%. Em 2023, caiu tamb\u00e9m o projeto conservador elaborado por um conselho dominado pela direita. O pa\u00eds permaneceu, assim, com a Constitui\u00e7\u00e3o herdada da ditadura de Pinochet, reformada, por\u00e9m incapaz de simbolizar um novo pacto social.<\/p>\n<p>O eleitorado chileno est\u00e1 cansado de promessas de \u201crefunda\u00e7\u00e3o\u201d, desconfiado das elites e preso ao que especialistas classificam como \u201ccrise de pa\u00edses de renda m\u00e9dia\u201d: expectativas muito altas, crescimento fraco e um sistema pol\u00edtico fragmentado, incapaz de produzir reformas estruturais. Nada muito diferente do que ocorre no Brasil. Nesse vazio, um tema ocupou o centro da campanha: seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com criminalidade, assaltos, roubos e crime organizado cresceu, sobretudo entre os mais pobres. A presen\u00e7a de gangues estrangeiras \u2013 com destaque para redes vinculadas \u00e0 migra\u00e7\u00e3o venezuelana \u2013 e casos de sequestro e homic\u00eddios violentos alimentaram a sensa\u00e7\u00e3o de que \u201co pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 esse Chile amedrontado que escuta Jos\u00e9 Antonio Kast, cuja campanha promete um \u201cgoverno de emerg\u00eancia\u201d, militariza\u00e7\u00e3o de fronteiras, barreiras f\u00edsicas no Norte e deporta\u00e7\u00f5es em massa. Kast inspira-se explicitamente em Trump, Bukele e Orb\u00e1n, combinando discurso de lei e ordem com conservadorismo moral. Ele \u00e9 o candidato mais competitivo em cen\u00e1rios de segundo turno. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u00c9 que o governo Boric chega enfraquecido ao fim do mandato. Sua agenda de reformas \u2013 tribut\u00e1ria, previdenci\u00e1ria e trabalhista \u2013 esbarrou no Congresso conservador e fortalecido ap\u00f3s o fracasso constitucional. A deteriora\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a e a percep\u00e7\u00e3o de avan\u00e7o do crime organizado reduziram sua popularidade para cerca de 30%. O pleito deste domingo funciona como um referendo informal sobre Boric.<\/p>\n<p><strong>Duas agendas<\/strong><\/p>\n<p>Kast explora isso de forma incessante: \u201cJara \u00e9 Boric e Boric \u00e9 Jara\u201d. Al\u00e9m disso, parte da antiga centro-esquerda da Concertaci\u00f3n nunca aceitou a hegemonia do novo eixo Frente Amplio-Partido Comunista, consolidado por Boric. A candidatura de uma militante comunista aprofundou essa divis\u00e3o e exp\u00f4s fissuras entre moderados e a nova esquerda.<\/p>\n<p>Pomo da disc\u00f3rdia, Jeanette Jara, 51 anos, advogada, ex-ministra do Trabalho e de origem popular, \u00e9 a primeira postulante comunista competitiva desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Respons\u00e1vel pelo aumento hist\u00f3rico do sal\u00e1rio-m\u00ednimo para 500 mil pesos, pela reforma das pens\u00f5es e pela jornada de 40 horas, construiu um discurso voltado aos trabalhadores de baixa e m\u00e9dia renda.<\/p>\n<p>Defende um \u201csal\u00e1rio vital\u201d de 750 mil pesos, controle de pre\u00e7os de medicamentos, creche universal, mais investimento em sa\u00fade e uma Empresa Nacional do L\u00edtio. Ao mesmo tempo, adotou tom pragm\u00e1tico: compromisso com responsabilidade fiscal, dist\u00e2ncia de regimes autorit\u00e1rios de esquerda e prioridade para a seguran\u00e7a com foco em investiga\u00e7\u00e3o financeira e policiamento de proximidade.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Antonio Kast, 59 anos, advogado, l\u00edder do Partido Republicano, disputa sua terceira elei\u00e7\u00e3o presidencial. Rejeita aborto em qualquer circunst\u00e2ncia, casamento igualit\u00e1rio, avan\u00e7os de g\u00eanero e defende pol\u00edticas migrat\u00f3rias e penais extremamente r\u00edgidas. N\u00e3o esconde sua admira\u00e7\u00e3o pelo ditador Augusto Pinochet.<\/p>\n<p>Na economia, prop\u00f5e cortes de gastos, redu\u00e7\u00e3o de impostos e amplia\u00e7\u00e3o de parcerias p\u00fablico-privadas. Seu n\u00facleo eleitoral \u00e9 composto por homens, jovens de baixa renda, moradores de \u00e1reas perif\u00e9ricas e segmentos evang\u00e9licos, todos impactados pela sensa\u00e7\u00e3o de desordem e perda de controle estatal.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/11\/7293163-a-batalha-entre-3-candidatos-de-direita-para-avancar-ao-2-turno-das-eleicoes-do-chile.html\"><strong>A batalha entre 3 candidatos de direita para avan\u00e7ar ao 2\u00ba turno das elei\u00e7\u00f5es do Chile<\/strong><\/a><\/p>\n<p>As \u00faltimas pesquisas (AtlasIntel) mostram Jara \u00e0 frente no primeiro turno, com 32,7%, seguida por Kast (20,1%), Evelyn Matthei (13,8%), Johannes Kaiser (13,4%) e Franco Parisi (13,2%). A proje\u00e7\u00e3o aponta um segundo turno entre Jara e Kast, no qual a candidata da esquerda perde em todos os cen\u00e1rios testados. No duelo direto, Kast venceria por 47% a 39%. A conferir.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo Boric chega enfraquecido ao fim do mandato. Sua agenda de reformas \u2014 tribut\u00e1ria, previdenci\u00e1ria e trabalhista \u2014 esbarrou no Congresso conservador Como aconteceu com as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia, no Equador e na Argentina, o Chile vota neste domingo polarizado entre a esquerda e a ultradireita. 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