{"id":10877,"date":"2025-11-27T06:29:25","date_gmt":"2025-11-27T09:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10877"},"modified":"2025-11-27T06:29:25","modified_gmt":"2025-11-27T09:29:25","slug":"a-fabula-darwinista-a-crise-com-o-congresso-e-os-riscos-que-lula-corre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-fabula-darwinista-a-crise-com-o-congresso-e-os-riscos-que-lula-corre\/","title":{"rendered":"A f\u00e1bula darwinista, a crise com o Congresso e os riscos que Lula corre"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O semipresidencialismo informal, no qual o Executivo \u00e9 empurrado para a irrelev\u00e2ncia operacional, tenta transformar o presidente da Rep\u00fablica em rainha da Inglaterra<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Richard Dawkins, em <em>O Gene Ego\u00edsta<\/em> (Companhia das Letras) \u2014 ao qual recorri ao falar sobre a &#8220;sombra de futuro&#8221; dos presidenci\u00e1veis no domingo passado \u2014, apresenta uma met\u00e1fora poderosa para entender a din\u00e2mica da coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: a f\u00e1bula dos p\u00e1ssaros infestados por um parasita perigoso. Sozinhos, eles conseguem limpar parte de suas penas, mas h\u00e1 regi\u00f5es inacess\u00edveis ao pr\u00f3prio bico, de modo que a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie depende de um pacto t\u00e1cito de coopera\u00e7\u00e3o: um p\u00e1ssaro dedica tempo a remover o piolho do outro, esperando ser ajudado depois.<\/p>\n<p>No entanto, em toda comunidade, sempre existe a tenta\u00e7\u00e3o de trapacear: receber o favor sem retribuir. A comunidade prospera quando a reciprocidade funciona; entra em colapso quando o n\u00famero de trapaceiros supera o de cooperadores. Esse dilema, que Dawkins utiliza para explicar a evolu\u00e7\u00e3o do comportamento social, aplica-se com precis\u00e3o ao funcionamento do sistema pol\u00edtico brasileiro, em que coaliz\u00f5es, lideran\u00e7as partid\u00e1rias e o Executivo operam segundo um delicado equil\u00edbrio entre benef\u00edcio m\u00fatuo e oportunismo. Na f\u00e1bula darwinista, o sistema s\u00f3 funciona quando existe um terceiro grupo de p\u00e1ssaros, que promove uma coopera\u00e7\u00e3o seletiva: n\u00e3o catam piolhos dos trapaceiros.<\/p>\n<p>O governo Lula, em sua terceira gest\u00e3o, vive justamente um momento em que o ecossistema da coopera\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser tensionado pelo avan\u00e7o dos &#8220;p\u00e1ssaros trapaceiros&#8221;. A indica\u00e7\u00e3o de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, contrariando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, rompeu uma expectativa de reciprocidade constru\u00edda ao longo de meses. Na l\u00f3gica do Congresso, em que cada gesto tem conte\u00fado acumulativo, a recusa a um acordo \u00e9 interpretada como convite ao aumento do custo da coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alcolumbre e parte do Senado reagiram elevando o pre\u00e7o pol\u00edtico do alinhamento, enquanto a C\u00e2mara dos Deputados, liderada por Hugo Motta, aproveitou a fragilidade moment\u00e2nea do Planalto para ampliar sua agenda pr\u00f3pria, especialmente no campo da seguran\u00e7a p\u00fablica, que se tornou o principal eixo de disputa com o Executivo. Essa \u00e9 uma forma de atua\u00e7\u00e3o bem conhecida do Centr\u00e3o, que contingencia a sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo ao trocar apoio por mais e mais cargos, por mais e mais emendas, por mais e mais benesses.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/11\/7301311-motta-e-alcolumbre-nao-participam-de-cerimonia-de-sancao-da-isencao-do-ir.html\"><strong>Motta e Alcolumbre n\u00e3o participam de cerim\u00f4nia de san\u00e7\u00e3o da isen\u00e7\u00e3o do IR<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 uma regra de jogo de alto risco para a democracia, no contexto da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es de 2026. O fato \u00e9 que a pris\u00e3o de Jair Bolsonaro, comemorada pelos governistas, mudou abruptamente o ambiente pol\u00edtico, numa tensa contraposi\u00e7\u00e3o entre a oposi\u00e7\u00e3o mobilizada emocionalmente e um governo obrigado a reagir com cautela para evitar a narrativa de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Semipresidencialismo<\/strong><\/p>\n<p>O Planalto n\u00e3o \u00e9 o respons\u00e1vel direto pela condena\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o do ex-presidente da Rep\u00fablica, bem como dos demais r\u00e9us no julgamento da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, entre os quais tr\u00eas generais de quatro estrelas e um almirante de esquadra. Entretanto, a oposi\u00e7\u00e3o tenta capitalizar o fato para impor suas pautas ao Congresso, pressionar os parlamentares do Centr\u00e3o e reabrir discuss\u00f5es como a proposta de anistia e projetos que limitam a atua\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/bolsonaro-e-generais-presos-em-regime-fechado-sao-novo-paradigma\/\"><strong>Bolsonaro e aliados ainda t\u00eam contas a acertar com Justi\u00e7a e Congresso\u00a0<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Diante da vulnerabilidade do Executivo, o Congresso \u00e9 seduzido por comportamentos de trapa\u00e7a estrat\u00e9gica, com atores que querem receber benef\u00edcios institucionais sem oferecer estabilidade pol\u00edtica e que passam a impor derrotas simb\u00f3licas como forma de testar os limites do governo.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dita na hist\u00f3ria brasileira. Remete-nos \u00e0 crise vivida pelo governo Jo\u00e3o Goulart entre 1962 e 1964. Jango perdeu o Congresso antes de perder o poder, e esse \u00e9 o aspecto mais instrutivo para compreender o momento atual. Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, dois presidentes perderam sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e foram apeados do poder pelo Congresso: Fernando Collor e Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>No governo Jango, havia um ambiente altamente polarizado, dividido entre for\u00e7as conservadoras, setores reformistas, grupos militares e interesses econ\u00f4micos em choque. \u00c0 medida que o governo avan\u00e7ava suas propostas de reformas de base, o Congresso se fragmentava, aumentando custos para o Executivo e promovendo obstru\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas. A eros\u00e3o da governabilidade n\u00e3o come\u00e7ou com tanques nas ruas, mas com a progressiva recusa parlamentar em cooperar, mesmo em temas de funcionamento m\u00ednimo do Estado.<\/p>\n<p>O ambiente de 1964 era radicalizado, com tens\u00f5es militares, crise econ\u00f4mica, disputa ideol\u00f3gica global (a guerra fria) e mobiliza\u00e7\u00e3o social crescente, mas a li\u00e7\u00e3o institucional permanece: quando o Congresso percebe que o Executivo perdeu capacidade de disciplinar sua base, o sistema migra para o comportamento oportunista. No caso de hoje, n\u00e3o h\u00e1 um cen\u00e1rio de ruptura militar cl\u00e1ssica, muito pelo contr\u00e1rio, nem h\u00e1 consenso internacional para desestabiliza\u00e7\u00e3o, mas existe um risco sutil: o semipresidencialismo informal empurra o Executivo para a irrelev\u00e2ncia decis\u00f3ria e tenta transformar o presidente da Rep\u00fablica em rainha da Inglaterra, ao controlar sua agenda e seu or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Disputas pela bandeira da seguran\u00e7a, tens\u00f5es em torno do STF, ofensivas sobre o or\u00e7amento, CPIs amea\u00e7adoras e mobiliza\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o fazem parte da democracia, por\u00e9m t\u00eam tamb\u00e9m o poder de desestabilizar a governabilidade, a partir de uma crise disruptiva entre Executivo e Congresso. Essa eros\u00e3o se d\u00e1 sem tanques, mas com regras regimentais, bloqueios pol\u00edticos, aumento de custos de barganha, tentativas de impor pautas-bombas e de instalar o caos.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O semipresidencialismo informal, no qual o Executivo \u00e9 empurrado para a irrelev\u00e2ncia operacional, tenta transformar o presidente da Rep\u00fablica em rainha da Inglaterra Richard Dawkins, em O Gene Ego\u00edsta (Companhia das Letras) \u2014 ao qual recorri ao falar sobre a &#8220;sombra de futuro&#8221; dos presidenci\u00e1veis no domingo passado \u2014, apresenta uma met\u00e1fora poderosa para entender a din\u00e2mica da coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":10882,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,722,677,6,36,980,371,4,22,92,972,113,8,9,3,80,68],"tags":[130,681,77,374,150,10],"class_list":["post-10877","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-ciencia","category-comunicacao","category-congresso","category-economia","category-eleicoes-2","category-etica","category-governo","category-impeachment","category-literatura","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-seguranca","category-violencia","tag-bolsonaro","tag-centrao","tag-congresso","tag-orcamento","tag-seguranca","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10877","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10877"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10877\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10883,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10877\/revisions\/10883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}