{"id":10885,"date":"2025-11-30T08:12:13","date_gmt":"2025-11-30T11:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10885"},"modified":"2025-11-30T08:12:13","modified_gmt":"2025-11-30T11:12:13","slug":"um-novo-ciclo-politico-se-abre-diante-de-uma-onda-reacionaria-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/um-novo-ciclo-politico-se-abre-diante-de-uma-onda-reacionaria-global\/","title":{"rendered":"Um novo ciclo pol\u00edtico se abre diante de uma onda reacion\u00e1ria global"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Mas falta dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Falta o movimento pol\u00edtico mais profundo do que a agita\u00e7\u00e3o radical, que permita avan\u00e7ar na moderniza\u00e7\u00e3o em bases democr\u00e1ticas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma corrida mundial para reinventar o Estado n\u00e3o \u00e9 nova, mas nunca foi t\u00e3o flagrante e urgente. As muta\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, a reconfigura\u00e7\u00e3o das subjetividades na chamada \u201csociedade l\u00edquida\u201d e a crise dos mecanismos tradicionais de representa\u00e7\u00e3o, como os partidos, o parlamento e a imprensa, colocaram os pa\u00edses diante de escolhas dram\u00e1ticas. No turbilh\u00e3o, democracias representativas parecem correr atr\u00e1s dos acontecimentos, enquanto regimes autorit\u00e1rios, por concentrarem poder, reprimir dissensos e eliminar freios e contrapesos, conseguem produzir respostas mais r\u00e1pidas e, em certos casos, mais eficazes \u00e0 necessidade de moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita talvez seja o exemplo mais eloquente dessa contradi\u00e7\u00e3o: moderniza sua economia com velocidade quase futurista, mas \u00e0 custa de liberdades civis, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e direitos humanos. J\u00e1 no Ocidente, democracias centrais como a Fran\u00e7a se contorcem diante da press\u00e3o das ruas, da polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, da eros\u00e3o de partidos tradicionais e da incapacidade de produzir reformas que mobilizem consenso.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a ascens\u00e3o vertiginosa da China redefine o tabuleiro global. O pa\u00eds saltou etapas decisivas das revolu\u00e7\u00f5es industriais e se imp\u00f4s como pot\u00eancia tecnol\u00f3gica, comercial e militar sem realizar a abertura liberal-democr\u00e1tica que muitos analistas consideravam inevit\u00e1vel. Ao contr\u00e1rio: Xi Jinping consolidou um regime mais fechado, nacionalista e vigilante.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/11\/7303355-a-onda-de-investimentos-da-china-no-ocidente-que-inclui-a-compra-de-uma-seguradora-para-agentes-do-servico-secreto-dos-eua.html\"><strong>A onda de investimentos da China no Ocidente<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Poucos anteciparam que, simultaneamente, o pr\u00f3prio Ocidente caminharia para uma guinada reacion\u00e1ria. A volta de Donald Trump ao poder, que consolidou o trumpismo como fen\u00f4meno pol\u00edtico-cultural, transformou as big techs em eixo de poder equivalente, ou at\u00e9 superior, ao velho complexo militar-industrial do p\u00f3s-guerra. A democracia mais influente do planeta tornou-se o centro difusor de um tipo de populismo autorit\u00e1rio que inspira l\u00edderes na Europa, na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1sia. Para perplexidade geral, a maior democracia do Ocidente passou a liderar uma onda reacion\u00e1ria global.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que o Brasil atravessa o esgotamento de um ciclo pol\u00edtico. Nosso Estado democr\u00e1tico foi submetido ao teste mais duro desde 1988, culminando na condena\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro e de oficiais-generais por tentativa de golpe \u2013 um fato in\u00e9dito, que rompeu o tabu do pacto t\u00e1cito entre civis e militares desde a transi\u00e7\u00e3o. Parecia ali o fim de uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na qual um ex-l\u00edder oper\u00e1rio e um capit\u00e3o indisciplinado que se alternaram como polos de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desde o in\u00edcio do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Acontece que um vazio geracional e o esgar\u00e7amento institucional impedem que o ciclo se encerre. A nova gera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o viveu nem a ditadura nem a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, carece de mem\u00f3ria hist\u00f3rica e se forma num ambiente global em que o mundo parece marchar para tr\u00e1s, na dire\u00e7\u00e3o das autocracias orientais e dos populismos reacion\u00e1rios ocidentais.<\/p>\n<p><strong>Duas rota\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Como ressaltou o cientista pol\u00edtico Marco Aur\u00e9lio Nogueira, ontem, no artigo publicado no Estado de S\u00e3o Paulo, o pa\u00eds gira em falso, como no diagn\u00f3stico de Joaquim Nabuco sobre os \u201cdois movimentos\u201d pol\u00edticos: aquele que fazemos parte sem perceber e aquele que parte de n\u00f3s mesmos, por\u00e9m, confundido com pura agita\u00e7\u00e3o improdutiva. No Brasil, predomina o segundo: hiperatividade sem dire\u00e7\u00e3o, energia pol\u00edtica desperdi\u00e7ada em conflitos est\u00e9reis, incapacidade de produzir consensos estruturantes.<\/p>\n<p>O Congresso \u00e9 a express\u00e3o mais amb\u00edgua desse momento. Salvou a democracia em 8 de janeiro, talvez mais por instinto de sobreviv\u00eancia da maioria de seus l\u00edderes, diante da experi\u00eancia de 1964, do que por convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Entretanto, foi tomado por uma l\u00f3gica perversa de poder, baseada na manipula\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, na chantagem e num pragmatismo sem limites. No Senado, ainda resiste algum freio republicano; na C\u00e2mara, bancadas inteiras operam desconectadas da sociedade, blindando seus pr\u00f3prios interesses \u2013 inclusive de parlamentares envolvidos em esc\u00e2ndalos ou atores ostensivos de aventuras golpistas.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-fabula-darwinista-a-crise-com-o-congresso-e-os-riscos-que-lula-corre\/\"><strong>A f\u00e1bula darwinista, a crise com o Congresso e os riscos que Lula corre<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Como bem lembrou Nogueira, nada disso significa que o Brasil esteja em regress\u00e3o. Ao contr\u00e1rio: mant\u00e9m uma democracia resiliente, avan\u00e7os cient\u00edficos e sociais importantes, setores econ\u00f4micos din\u00e2micos e uma cultura vibrante. Mas falta dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Falta o movimento pol\u00edtico profundo \u2013 e n\u00e3o a agita\u00e7\u00e3o superficial \u2013 que permita abrir um novo ciclo hist\u00f3rico, protagonizado por uma nova gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos. Como na passagem b\u00edblica da travessia do deserto, os hebreus que haviam sido escravos n\u00e3o tinham cabe\u00e7a para construir uma sociedade livre, era preciso que outra gera\u00e7\u00e3o o fizesse, como disse Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>O pa\u00eds se move lentamente, mesmo dispondo de vastos recursos materiais e humanos, o que aumenta a defasagem em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece no mundo. O problema fiscal permanece cr\u00f4nico; a desigualdade estrutural, intacta; a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, atrasada; a viol\u00eancia urbana, explosiva; e os servi\u00e7os p\u00fablicos, apesar de avan\u00e7os not\u00e1veis como o SUS, demandam inova\u00e7\u00e3o e mais efici\u00eancia. Os Poderes vivem em conflito permanente, a pol\u00edtica perdeu apelo e criatividade, e a sociedade civil patina em capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras de 2026, o vazio \u00e9 vis\u00edvel. Falta um projeto que organize expectativas e convoque a popula\u00e7\u00e3o para algo que n\u00e3o seja o confronto destrutivo e t\u00f3xico. \u00c9 preciso construir uma ampla frente democr\u00e1tica, com uma agenda progressista, de car\u00e1ter social-liberal e exequ\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas falta dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. 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