{"id":10893,"date":"2025-12-03T07:02:29","date_gmt":"2025-12-03T10:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10893"},"modified":"2025-12-03T07:02:29","modified_gmt":"2025-12-03T10:02:29","slug":"vidas-secas-o-elo-perdido-entre-o-craque-reinaldo-e-o-ator-wagner-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/vidas-secas-o-elo-perdido-entre-o-craque-reinaldo-e-o-ator-wagner-moura\/","title":{"rendered":"&#8216;Vidas Secas&#8217;, o elo perdido entre o craque Reinaldo e o ator Wagner Moura"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O craque n\u00e3o participava de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, era apenas um dos maiores atacantes de sua gera\u00e7\u00e3o e comemorava seus gols com o punho cerrado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A decis\u00e3o da Comiss\u00e3o de Anistia de reconhecer o ex-jogador Jos\u00e9 Reinaldo de Lima, \u00eddolo do Atl\u00e9tico Mineiro e da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, como v\u00edtima da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ditadura militar ilumina uma faceta menos lembrada, por\u00e9m decisiva, da repress\u00e3o brasileira: a viol\u00eancia cotidiana, difusa, que atingia n\u00e3o apenas militantes clandestinos, mas qualquer cidad\u00e3o que ousasse romper o enquadramento simb\u00f3lico e disciplinador imposto pelo regime.<\/p>\n<p>Reinaldo n\u00e3o conspirava, n\u00e3o participava de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Era apenas um dos maiores atacantes de sua gera\u00e7\u00e3o, um jovem negro, carism\u00e1tico, que comemorava seus gols com o punho cerrado, marca dos movimentos de direitos civis norte-americanos, que simbolizava autoestima, dignidade e autonomia. Para os generais e para a c\u00fapula da antiga Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos, aquele gesto era uma mensagem perigosa para os torcedores e demais jogadores.<\/p>\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o sofrida pelo atacante, agora reconhecida como viola\u00e7\u00e3o de direitos pelo Estado brasileiro, revela como a repress\u00e3o atuava para al\u00e9m dos por\u00f5es. Ela se exercia tamb\u00e9m nos est\u00e1dios, convoca\u00e7\u00f5es para a Sele\u00e7\u00e3o, clubes e imprensa esportiva. O atleta foi observado, advertido, prejudicado, enquadrado. Reinaldo insistiu no gesto, contrariando o grau de controle social que o regime desejava impor. Para al\u00e9m do sil\u00eancio pol\u00edtico, o regime promovia a domestica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de figuras p\u00fablicas capazes de influenciar multid\u00f5es.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/esportes\/2025\/12\/7305180-reinaldo-idolo-do-atletico-mg-ganha-indenizacao-do-governo.html\"><strong>Reinaldo, \u00eddolo do Atl\u00e9tico-MG, ganha indeniza\u00e7\u00e3o do governo<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Essa mesma dimens\u00e3o da repress\u00e3o, que escapava \u00e0s pris\u00f5es e torturas clandestinas, tamb\u00e9m \u00e9 revisitada com for\u00e7a pelo vitorioso filme O agente secreto, de Kleber Mendon\u00e7a Filho, que, ontem, foi proclamado vencedor do New York Film Critics Circle Awards, sendo o seu protagonista, Wagner Moura, premiado como melhor ator.<\/p>\n<p>Depois de Ainda estou aqui, de Walter Salles Junior, com Fernanda Torres no papel principal, O agente secreto reinscreve o Brasil no debate global sobre as cicatrizes do autoritarismo, resgatando a atmosfera de vigil\u00e2ncia e viol\u00eancia institucional que atravessava o cotidiano. Ao lado de Pixote, Cidade de Deus e Bacurau, tamb\u00e9m premiados anteriormente, o longa expressa uma cinematografia que denuncia a perman\u00eancia da brutalidade de Estado no cotidiano dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma chave para a compreens\u00e3o do pa\u00eds e, tamb\u00e9m, da viol\u00eancia instalada ainda hoje na sociedade brasileira, dos grandes centros urbanos aos grot\u00f5es. Um exemplo dessa viol\u00eancia foi a atua\u00e7\u00e3o da Scuderie Le Cocq, o chamado &#8220;esquadr\u00e3o da morte&#8221;. Formado por policiais, o grupo encarnou a mentalidade do &#8220;justi\u00e7amento&#8221; que deu origem \u00e0 frase &#8220;bandido bom \u00e9 bandido morto&#8221;, mais tarde popularizada como esp\u00e9cie de mantra da barb\u00e1rie urbana, e que est\u00e1 a\u00ed, viv\u00edssima, no debate sobre a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia difusa<\/strong><\/p>\n<p>A Scuderie n\u00e3o atuava \u00e0 margem do Estado, era fruto de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a que legitimava execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias, apoiada por parcelas da imprensa e celebrada por segmentos da popula\u00e7\u00e3o. Era o bra\u00e7o vis\u00edvel de um ecossistema violento que convivia com o bra\u00e7o invis\u00edvel: o desaparecimento for\u00e7ado de opositores pol\u00edticos, pr\u00e1tica que marcou profundamente a repress\u00e3o da d\u00e9cada de 1970. Para compreender esse sistema, \u00e9 necess\u00e1rio enxergar sua raiz profunda: uma tradi\u00e7\u00e3o secular de viol\u00eancia estatal no Brasil.<\/p>\n<p>Essa tradi\u00e7\u00e3o foi magistralmente sintetizada por Graciliano Ramos em Vidas Secas (Jos\u00e9 Olympio), na cena em que Fabiano, homem pobre, trabalhador e analfabeto, \u00e9 espancado pelo Soldado Amarelo sem motivo, sem explica\u00e7\u00e3o e sem possibilidade de defesa. O protagonista, que mal domina as palavras, tenta compreender a l\u00f3gica do acontecido, mas tudo que encontra \u00e9 a arbitrariedade da autoridade, o peso brutal da farda e a certeza silenciosa de que n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a para gente como ele.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra Fabiano \u00e9 estrutural, cotidiana, uma engrenagem do poder. Seu espancamento \u00e9 a met\u00e1fora perfeita da rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre Estado e povo \u2014 sobretudo negros, pobres e trabalhadores \u2014 muito antes da ditadura militar. Esse \u00e9 o elo perdido entre a anistia de Reinaldo e a magistral atua\u00e7\u00e3o de Wagner Moura.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2025\/12\/7304950-wagner-moura-e-eleito-melhor-ator-pela-associacao-de-criticos-de-nova-york.html\"><strong>Wagner Moura \u00e9 eleito melhor ator pela associa\u00e7\u00e3o de cr\u00edticos de Nova York<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Essa heran\u00e7a atravessou regimes, atravessou institui\u00e7\u00f5es e se transformou nos anos de chumbo em uma dupla m\u00e1quina de repress\u00e3o: de um lado, os esquadr\u00f5es da morte que matavam a c\u00e9u aberto; de outro, os aparelhos clandestinos que assassinavam no escuro, sequestrando corpos e mem\u00f3rias. A ditadura n\u00e3o inventou essa viol\u00eancia, aperfei\u00e7oou, institucionalizou, usou-a a seu favor no combate aos inimigos declarados e aos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Reinaldo foi um desses &#8220;inimigos imagin\u00e1rios&#8221;, fabricados por uma l\u00f3gica que confundia dignidade com subvers\u00e3o. O caso do atacante refor\u00e7a que a repress\u00e3o n\u00e3o foi apenas pol\u00edtica: foi tamb\u00e9m cultural, simb\u00f3lica, pedag\u00f3gica. O Estado buscava moldar comportamentos, sufocar gestos, controlar a express\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>No futebol, objeto principal do ufanismo oficial, isso era evidente. Jogadores eram pressionados a encarnar o mito da &#8220;p\u00e1tria ordeira&#8221;. Reinaldo recusou o papel. E pagou por isso. Somente agora, d\u00e9cadas depois, veio a repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O craque n\u00e3o participava de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, era apenas um dos maiores atacantes de sua gera\u00e7\u00e3o e comemorava seus gols com o punho cerrado A decis\u00e3o da Comiss\u00e3o de Anistia de reconhecer o ex-jogador Jos\u00e9 Reinaldo de Lima, \u00eddolo do Atl\u00e9tico Mineiro e da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, como v\u00edtima da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ditadura militar ilumina uma faceta menos lembrada, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":10903,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,169,677,28,199,4,7,92,972,113,9,3,80,68],"tags":[1350,101,351,206,2067,2066,150,69],"class_list":["post-10893","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-cinema","category-comunicacao","category-cultura","category-futebol","category-governo","category-justica","category-literatura","category-memoria","category-militares","category-politica-2","category-politica","category-seguranca","category-violencia","tag-anistia","tag-cinema","tag-ditadura","tag-futebol","tag-moura","tag-reinaldo","tag-seguranca","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10893"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10893\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10904,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10893\/revisions\/10904"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}