{"id":1093,"date":"2016-12-04T06:32:13","date_gmt":"2016-12-04T08:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1093"},"modified":"2016-12-04T11:27:23","modified_gmt":"2016-12-04T13:27:23","slug":"nas-entrelinhas-o-brasil-como-interrogacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-brasil-como-interrogacao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O Brasil como interroga\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>O modelo nacional desenvolvimentista n\u00e3o deu conta do recado, seja com a direita ou com a esquerda no poder<\/em><\/p>\n<p>Obra do modernista Cassiano Ricardo, \u2018Martim Cerer\u00ea\u2019, da Editorial Record, \u00e9 um longo poema indigenista e nacionalista, no qual o \u00edndio, o negro e o branco tomam posse e inventam um novo pa\u00eds. Publicado pela primeira vez em 1928, integra a trilogia de textos antropol\u00f3gicos do modernismo, com \u2018Manifesto Antrop\u00f3fago\u2019, de Oswald de Andrade, e \u2018Macuna\u00edma\u2019, de M\u00e1rio de Andrade. Retrata as origens do Brasil desde seus prim\u00f3rdios, passando pelo processo de interioriza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e seu desenvolvimento, com criaturas fant\u00e1sticas, gigantes, lendas brasileiras. Nossa rica mitologia \u00e9 utilizada na poesia de Cassiano, um precursor, digamos, de nossa \u201chibridiza\u00e7\u00e3o\u201d cultural.<\/p>\n<p>Tudo isso teria se perdido no tempo e ficado restrito aos estudiosos das Letras se a Imperatriz Leopoldinense, no carnaval de 1972, n\u00e3o houvesse revisitado a sua obra com um enredo que incendiou a avenida, gra\u00e7as aos versos curtos e ao refr\u00e3o magistral de Z\u00e9 Catimba: \u201cVem c\u00e1 Brasil\/Deixa eu ler a sua m\u00e3o menino\/Que grande destino\/Reservaram pra voc\u00ea\/Fala Martim Cerer\u00ea\/L\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 lau\u00ea\/Fala Martim Cerer\u00ea\/L\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 lau\u00ea\/Fala Martim Cerer\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Era o auge do regime militar e o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d abafava as cr\u00edticas da oposi\u00e7\u00e3o. O samba fazia uma s\u00edntese do programa de integra\u00e7\u00e3o nacional e desenvolvimentista da ditadura: \u201cTudo era dia\/O \u00edndio deu a terra grande\/O negro trouxe a noite na cor\/O branco a galhardia\/E todos traziam amor\/Tinham encontro marcado\/Pra fazer uma na\u00e7\u00e3o\/E o Brasil cresceu tanto\/Que virou interjei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Alguns anos depois, o cen\u00e1rio havia mudado, veio a crise do petr\u00f3leo, o partido do governo come\u00e7ou a sofrer derrotas acachapantes e a economia desandou de vez. O projeto dos militares foi por \u00e1gua abaixo, n\u00e3o tinha sustentabilidade, do ponto de vista da situa\u00e7\u00e3o internacional, da legitimidade pol\u00edtica e pelo fato de que n\u00e3o produzia riquezas suficientes para financiar o setor p\u00fablico e redistribuir renda. A interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia se esgotou e entrou em colapso. O oba-oba do \u201cPra frente Brasil!\u201d se apoiava em um modelo econ\u00f4mico ufanista e perdul\u00e1rio, mais ou menos como aconteceu recentemente, no segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma.<\/p>\n<p>Nos idos de 2010, ano da consagra\u00e7\u00e3o de Lula e da elei\u00e7\u00e3o de Dilma, um poste de saias, um repeteco do samba da Imperatriz, teria tudo a ver: \u201c L\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 lau\u00ea\/Fala Martim Cerer\u00ea\/L\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 l\u00e1 lau\u00ea\/Fala Martim Cerer\u00ea\/Gigante pra frente a evoluir\/Lai\u00e1 lai\u00e1\/Milh\u00f5es de gigantes a construir\/Lai\u00e1 lai\u00e1 lai\u00e1\/Gigante pra frente e a evoluir\/Lai\u00e1 lai\u00e1\/Milh\u00f5es de gigantes a construir.\u201d Mas deu tudo errado novamente.<\/p>\n<p>O modelo nacional desenvolvimentista n\u00e3o deu conta do recado, seja com a direita ou com a esquerda no poder. O Brasil n\u00e3o consegue crescer com sustentabilidade, muito menos oferecer um padr\u00e3o de classe m\u00e9dia \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o. Como chegar nesse patamar se n\u00e3o tem servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a e na mobilidade urbana? Fez do consumo um fetiche, sustentado \u00e0 custa do endividamento de idosos, servidores p\u00fablicos e assalariados.<\/p>\n<p>No ufanismo de Z\u00e9 Catimba, por\u00e9m, o Brasil era uma interjei\u00e7\u00e3o positiva, ou seja, com a express\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es, estados de esp\u00edrito, sem necessidades de estruturas lingu\u00edsticas mais elaboradas, em um patamar que buscava par\u00e2metro nos pa\u00edses mais ricos. O Brasil era apelo e exclama\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo, o que os torcedores costumam escutar nas transmiss\u00f5es dos jogos da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, desde a Copa do Mundo de 1970, no M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>Perplexidade<\/strong><\/p>\n<p>Por que falar de samba-enredo ainda longe do carnaval? Ora, porque o Brasil hoje \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o, que enseja emo\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es e os estados de esp\u00edrito de natureza completamente diferentes. O pa\u00eds est\u00e1 uma droga, para n\u00e3o dizer outra coisa. Parece que os pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e3o percebendo a mudan\u00e7a de humor da popula\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o desandou e quase nada acontece para reverter o quadro.<\/p>\n<p>O governo Temer est\u00e1 meio perplexo e paralisado diante da crise \u00e9tica, para n\u00e3o dizer, em p\u00e2nico; a recess\u00e3o se aprofundou, as reformas n\u00e3o andam e as previs\u00f5es de sa\u00edda da crise, por parte da equipe econ\u00f4mica, s\u00e3o cada vez mais a longo prazo. Finalmente, parece que a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato enlouqueceu os pol\u00edticos e subiu \u00e0 cabe\u00e7a dos procuradores da Rep\u00fablica. As manifesta\u00e7\u00f5es de hoje s\u00e3o um sinal de que o presidente Temer corre s\u00e9rio risco de desestabiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso, por\u00e9m, fazer alguma coisa para chegarmos a 2018 sem uma ruptura institucional, sem colapso total da economia. As alternativas que se apresentam, \u00e0 direita e\/ou \u00e0 esquerda, tendem a repetir os erros hist\u00f3ricos de ambas. Urge um novo projeto de Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1CW0o4oJZD0\">http:\/\/https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1CW0o4oJZD0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modelo nacional desenvolvimentista n\u00e3o deu conta do recado, seja com a direita ou com a esquerda no poder Obra do modernista Cassiano Ricardo, \u2018Martim Cerer\u00ea\u2019, da Editorial Record, \u00e9 um longo poema indigenista e nacionalista, no qual o \u00edndio, o negro e o branco tomam posse e inventam um novo pa\u00eds. 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