{"id":10980,"date":"2025-12-28T06:34:47","date_gmt":"2025-12-28T09:34:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10980"},"modified":"2025-12-28T06:34:47","modified_gmt":"2025-12-28T09:34:47","slug":"o-lirismo-cult-de-o-que-sera-e-a-esperanca-que-renasce-a-cada-ano-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-lirismo-cult-de-o-que-sera-e-a-esperanca-que-renasce-a-cada-ano-novo\/","title":{"rendered":"O lirismo cult de &#8216;O que ser\u00e1?&#8217; e a esperan\u00e7a que renasce a cada ano-novo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A can\u00e7\u00e3o descreve algo que move a vida e vem do corpo, do desejo, da folia e da ang\u00fastia, presente em todos os lugares: do sagrado ao profano, do \u00edntimo ao coletivo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um dos momentos mais sublimes da cultura brasileira foi a grava\u00e7\u00e3o ao vivo de O que ser\u00e1? (\u00c0 flor da pele) por Milton Nascimento e Chico Buarque, no programa Chico &amp; Caetano, exibido em 14 de mar\u00e7o de 1987. O encontro hist\u00f3rico cristalizou um instante raro da m\u00fasica brasileira: dois artistas em sintonia plena, interpretando a can\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada no \u00e1lbum Meus caros amigos. A abertura vocal profunda e comovente do artista, que Elis Regina resumiu na frase &#8220;Se Deus cantasse, seria com a voz do Milton&#8221;, e o olhar marejado de Chico ao iniciar o dueto comp\u00f5em uma cena antol\u00f3gica, dessas que eternizam os artistas e suas obras.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1? foi composta em 1976 para o filme Dona Flor e seus dois maridos, dirigido por Bruno Barreto e inspirado no romance hom\u00f4nimo de Jorge Amado. A can\u00e7\u00e3o tem tr\u00eas vers\u00f5es \u2014 Abertura, \u00c0 flor da pele e \u00c0 flor da terra \u2014 que marcam passagens distintas da narrativa. Segundo Chico Buarque, talvez para driblar a censura pr\u00e9via vigente \u00e0 \u00e9poca, as letras n\u00e3o guardam rela\u00e7\u00e3o direta com o pa\u00eds. A for\u00e7a da obra est\u00e1 na universalidade do texto e na qualidade mel\u00f3dica.<\/p>\n<p>O dueto com Milton n\u00e3o estava nos planos iniciais. Ap\u00f3s ouvir Francis Hime tocar a can\u00e7\u00e3o ao piano, nos est\u00fadios da gravadora, Milton se encantou e sugeriu a interpreta\u00e7\u00e3o em duo. Chico e Francis acolheram a ideia e finalizaram os arranjos j\u00e1 considerando a voz de Milton. O que ser\u00e1? saiu no \u00e1lbum Meus caros amigos, enquanto Milton a gravou em Geraes. Na vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica, a can\u00e7\u00e3o foi interpretada por Simone.<\/p>\n<p>Em 1992, ao acessar sua ficha no DOPS, Chico se surpreendeu com a leitura feita pelos censores. Em declara\u00e7\u00e3o ao Jornal do Brasil, comentou: &#8220;acho que eu mesmo n\u00e3o sei o que existe por tr\u00e1s dessa letra e, se soubesse, n\u00e3o teria cabimento explicar&#8221;. Desde ent\u00e3o, a m\u00fasica se consolidou como \u00edcone do nosso lirismo cult \u2014 um amor avassalador, uma paix\u00e3o que brota \u00e0 flor da pele e escapa a qualquer controle ou explica\u00e7\u00e3o racional.<\/p>\n<p>H\u00e1 50 anos, versos como &#8220;n\u00e3o tem governo, nem nunca ter\u00e1&#8221;, &#8220;n\u00e3o tem ju\u00edzo&#8221;, &#8220;n\u00e3o tem vergonha&#8221; foram lidos como cr\u00edtica sutil \u00e0 ditadura militar, um hino \u00e0 liberdade que driblava a censura. A can\u00e7\u00e3o descreve uma for\u00e7a que move a vida \u2014 corporal e espiritual \u2014, atravessando o sagrado e o profano, o privado e o coletivo.<\/p>\n<p><strong>Esperan\u00e7a ut\u00f3pica<\/strong><\/p>\n<p>Muito elogiada pela cr\u00edtica por sua densidade e pelo jogo preciso com as palavras, a obra captura a ess\u00eancia do amor e do mist\u00e9rio humano. A melodia e as vozes de Milton e de Simone, em especial, ampliam a sensa\u00e7\u00e3o de entrega. O que ser\u00e1? tornou-se um cl\u00e1ssico do cancioneiro porque permite que cada ouvinte projete suas paix\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es, sendo, ao mesmo tempo, celebra\u00e7\u00e3o do desejo, met\u00e1fora da resist\u00eancia e reflex\u00e3o sobre for\u00e7as indom\u00e1veis da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Escrita sob a ditadura, a interpreta\u00e7\u00e3o antol\u00f3gica de Chico e Milton permanece perturbadora. Enviei o v\u00eddeo dessa grava\u00e7\u00e3o ic\u00f4nica como votos de feliz ano-novo a amigos. Em um grupo de vizinhan\u00e7a supostamente apol\u00edtico, o v\u00eddeo foi censurado e removido pelo administrador \u2014 talvez por antipatias pessoais, talvez por evocar os anos sombrios dos 1970, quem sabe por ser visto como amea\u00e7a aos bons costumes. A rea\u00e7\u00e3o, ainda que trivial, diz muito sobre o nosso tempo: o desejo, quando se expressa com for\u00e7a e beleza, continua perturbando. A m\u00fasica fala do desejo em sua forma mais profunda:<\/p>\n<p>&#8220;O que ser\u00e1 que me d\u00e1\/ Que me bole por dentro, ser\u00e1 que me d\u00e1\/ Que brota \u00e0 flor da pele, ser\u00e1 que me d\u00e1 (\u2026)\/ O que n\u00e3o tem rem\u00e9dio, nem nunca ter\u00e1\/ O que n\u00e3o tem receita (\u2026)\/ Que \u00e9 feito estar doente de uma folia\/ Que nem dez mandamentos v\u00e3o conciliar\/ Nem todos os unguentos v\u00e3o aliviar\/ Nem todos os quebrantos, toda alquimia\/ E nem todos os santos, ser\u00e1 que ser\u00e1(\u2026)\/ Que me queima por dentro, ser\u00e1 que me d\u00e1\/ Que me perturba o sono, ser\u00e1 que me d\u00e1\/ Que todos os tremores me v\u00eam agitar\/ Que todos os ardores me v\u00eam ati\u00e7ar\/ Que todos os suores me v\u00eam encharcar\/ Que todos os meus nervos est\u00e3o a rogar\/ Que todos os meus \u00f3rg\u00e3os est\u00e3o a clamar\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Em que momento Chico Buarque ultrapassou os limites da MPB e passou a integrar o repert\u00f3rio da poesia brasileira? Estudiosa da sua obra, Ad\u00e9lia Bezerra de Meneses, professora de Literatura da USP, destaca que sua poesia sempre foi reconhecida por Ant\u00f4nio C\u00e2ndido e Carlos Drummond de Andrade. &#8220;O que ser\u00e1&#8221; representa de forma paradigm\u00e1tica a variante ut\u00f3pica do compositor. Para Ad\u00e9lia, \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o &#8220;vision\u00e1ria e \u00e9pica, um canto libert\u00e1rio, er\u00f3tico e pol\u00edtico&#8221;.<\/p>\n<p>Ao fim de um ano dif\u00edcil, o dueto de Chico e Milton nos chega aos sentidos como um lembrete poderoso. Ali h\u00e1 algo que insiste em brotar, apesar de tudo. Algo que n\u00e3o tem governo, nem receita, nem rem\u00e9dio \u2014 mas que mant\u00e9m vivos os afetos, a imagina\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a. Que esse canto nos acompanhe na nova travessia. O que ser\u00e1? representa uma ode \u00e0 esperan\u00e7a. Feliz ano-novo!<\/p>\n<p>Estarei de volta em 6 de janeiro de 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A can\u00e7\u00e3o descreve algo que move a vida e vem do corpo, do desejo, da folia e da ang\u00fastia, presente em todos os lugares: do sagrado ao profano, do \u00edntimo ao coletivo Um dos momentos mais sublimes da cultura brasileira foi a grava\u00e7\u00e3o ao vivo de O que ser\u00e1? 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