{"id":11005,"date":"2026-01-11T07:39:37","date_gmt":"2026-01-11T10:39:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11005"},"modified":"2026-01-11T07:39:37","modified_gmt":"2026-01-11T10:39:37","slug":"acordo-mercosul-uniao-europeia-amplia-margem-de-manobra-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/acordo-mercosul-uniao-europeia-amplia-margem-de-manobra-do-brasil\/","title":{"rendered":"Acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia amplia margem de manobra do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Do ponto de vista da rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e a China, o acordo com a UE funciona como contrapeso oportuno. Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais muito assim\u00e9tricos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O acordo de livre com\u00e9rcio entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia reposiciona o Brasil no tabuleiro internacional num momento de forte turbul\u00eancia geopol\u00edtica mundial. A combina\u00e7\u00e3o entre o unilateralismo norte-americano, a crescente centralidade da China na economia globalizada e a crise de governan\u00e7a regional na Am\u00e9rica do Sul exige do governo Lula que evite o alinhamento autom\u00e1tico a qualquer polo de poder. Nesse aspecto, o acordo com a UE amplia a margem de manobra estrat\u00e9gica do Brasil tanto diante dos Estados Unidos quanto da China. H\u00e1 que se destacar o m\u00e9rito do Itamaraty, que persistiu na constru\u00e7\u00e3o das bases do acordo com muita resili\u00eancia, durante 26 anos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica externa dos EUA sob a lideran\u00e7a de Donald Trump tem se caracterizado por a\u00e7\u00f5es unilaterais, rompimento de acordos internacionais e uso expl\u00edcito de instrumentos econ\u00f4micos e do seu poderio militar como alavancas de proje\u00e7\u00e3o de poder no mundo. A interven\u00e7\u00e3o na Venezuela e a tentativa de reordenar o mercado global de energia sob tutela norte-americana s\u00e3o prova disso. Para pa\u00edses como o Brasil, isso cria um ambiente de press\u00e3o permanente: aceitar as regras impostas por Washington ou arcar com custos comerciais, financeiros e pol\u00edticos. O mais dif\u00edcil \u00e9 encontrar um ponto de equil\u00edbrio entre uma coisa e outra.<\/p>\n<p>O novo ciclo na pol\u00edtica mundial frustra a esperan\u00e7a de que a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e o advento das redes sociais representariam um avan\u00e7o irrevers\u00edvel da ordem democr\u00e1tica; ao contr\u00e1rio, constata-se forte press\u00e3o autorit\u00e1ria sobre as democracias representativas em raz\u00e3o da velocidade da moderniza\u00e7\u00e3o, ainda mais acelerada pela intelig\u00eancia artificial, em contradi\u00e7\u00e3o com lentid\u00e3o da tomada de decis\u00f5es nos Estados democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>S\u00e3o linhas de for\u00e7a estruturalmente estrat\u00e9gicas dessas mudan\u00e7as, mas com uma l\u00f3gica regressiva: o uso da tecnologia e do poderio militar para impor escolhas estrat\u00e9gicas aos demais pa\u00edses, o que j\u00e1 resultou em duas guerras mundiais no s\u00e9culo passado. \u00c9 nesse contexto, por exemplo, que as rela\u00e7\u00f5es do Brasil com o mundo ser\u00e3o redesenhadas.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/01\/7329995-mercosul-e-uniao-europeia-assinam-acordo-historico-no-dia-17.html\"><strong>Mercosul e Uni\u00e3o Europeia assinam acordo hist\u00f3rico no dia 17<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A China consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil, absorvendo grande parte das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, sobretudo de commodities agr\u00edcolas e minerais. Essa rela\u00e7\u00e3o tornou-se t\u00e3o intensa que gerou depend\u00eancias e aprofundou contradi\u00e7\u00f5es entre os interesses do nosso agroneg\u00f3cio e da nossa ind\u00fastria, cujo principal mercado s\u00e3o os Estados Unidos, agora fechado devido \u00e0s tarifas imposta por Trump aos nossos produtos de maior valor agregado. A concentra\u00e7\u00e3o excessiva das exporta\u00e7\u00f5es em um \u00fanico mercado limita a capacidade de barganha do pa\u00eds e aumenta sua exposi\u00e7\u00e3o a choques externos, disputas comerciais ou mudan\u00e7as de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse ponto que o acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia se torna um ativo geopol\u00edtico novo e estrat\u00e9gico. Ao abrir acesso preferencial a um mercado de mais de 700 milh\u00f5es de consumidores, o Brasil diversifica destinos de exporta\u00e7\u00e3o, reduz vulnerabilidades e fortalece sua posi\u00e7\u00e3o negociadora; embora haja muitas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s commodities agr\u00edcolas brasileiras por parte da Fran\u00e7a, Holanda e Pol\u00f4nia, que votaram contra a aprova\u00e7\u00e3o do acordo, ser\u00e3o grandes os benef\u00edcios para a agricultura e a ind\u00fastria brasileiras.<\/p>\n<p><strong>Liga\u00e7\u00f5es profundas<\/strong><\/p>\n<p>Sem depender excessivamente de um \u00fanico parceiro \u2014 seja Washington ou Pequim \u2014, o pa\u00eds passa a operar com um leque mais amplo de op\u00e7\u00f5es, condi\u00e7\u00e3o essencial para preservar autonomia em um mundo que caminha para a divis\u00e3o em \u00e1reas de influ\u00eancia. Os EUA querem controlar todo o Hemisf\u00e9rio Ocidental, a China avan\u00e7ou pelos Mares do Sul em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica e \u00e0 Am\u00e9rica Latina; a R\u00fassia continua sendo o fiel da balan\u00e7a estrat\u00e9gico-militar na Eur\u00e1sia. A Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN), fundamental para a defesa da Ucr\u00e2nia na guerra com a R\u00fassia, est\u00e1 sendo desprestigiada por Trump.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, o acordo com a UE funciona como contrapeso oportuno e muito importante. Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais assim\u00e9tricos, sob press\u00e3o pol\u00edtica ou econ\u00f4mica, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o aos produtos industrializados. A inser\u00e7\u00e3o em um grande bloco econ\u00f4mico baseado em regras, previsibilidade e institui\u00e7\u00f5es, aumenta nossa capacidade de resist\u00eancia em temas comerciais, ambientais ou regulat\u00f3rios. N\u00e3o se trata de confronto, mas de equil\u00edbrio: quanto maior a capacidade de diversifica\u00e7\u00e3o, menor a vulnerabilidade \u00e0 coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O acordo com a UE n\u00e3o substitui a parceria sino-brasileira, mas tamb\u00e9m recalibra a rela\u00e7\u00e3o com a China. Ao ampliar o acesso a mercados europeus, o Brasil reduz a concentra\u00e7\u00e3o de suas exporta\u00e7\u00f5es e ganha maior capacidade de negociar termos, investimentos e coopera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica com Pequim. A diversifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o enfraquece a rela\u00e7\u00e3o com a China; abre a possibilidade de torn\u00e1-la mais sustent\u00e1vel e menos assim\u00e9trica.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/01\/7330037-acordo-mercosul-ue-exportacoes-brasileiras-podem-crescer-uss-7-bilhoes.html\"><strong>Acordo Mercosul-UE: exporta\u00e7\u00f5es brasileiras podem crescer US$ 7 bilh\u00f5es<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Para o Brasil, um Mercosul mais integrado e com acesso privilegiado \u00e0 Europa refor\u00e7a sua condi\u00e7\u00e3o de ator relevante e dificulta as tentativas de fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica da regi\u00e3o. Sem d\u00favida, o governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva colhe uma grande vit\u00f3ria ao enfatizar o car\u00e1ter multilateral do acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia como resposta ao protecionismo e ao unilateralismo. N\u00e3o se trata de uma escolha ideol\u00f3gica, \u00e9 uma aposta pragm\u00e1tica. Do ponto de vista cultural, o Brasil est\u00e1 profundamente ligado \u00e0 Europa, apesar da forte influ\u00eancia &#8220;americanista&#8221; na nossa economia e nos padr\u00f5es de consumo.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do ponto de vista da rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e a China, o acordo com a UE funciona como contrapeso oportuno. Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais muito assim\u00e9tricos O acordo de livre com\u00e9rcio entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia reposiciona o Brasil no tabuleiro internacional num momento de forte turbul\u00eancia geopol\u00edtica mundial. 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