{"id":11010,"date":"2026-01-13T06:47:05","date_gmt":"2026-01-13T09:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11010"},"modified":"2026-01-13T09:18:07","modified_gmt":"2026-01-13T12:18:07","slug":"memoria-e-esquecimento-o-agente-secreto-mostra-a-vida-banal-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/memoria-e-esquecimento-o-agente-secreto-mostra-a-vida-banal-na-ditadura\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria e esquecimento: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Kleber Mendon\u00e7a Filho recusou solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e o mito cl\u00e1ssico do her\u00f3i grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendon\u00e7a Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em l\u00edngua n\u00e3o-inglesa, n\u00e3o est\u00e1 na reconstitui\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da repress\u00e3o do regime militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande geografo, chamou de &#8220;vida banal&#8221;. \u00c9 justamente nesse territ\u00f3rio do dia a dia \u2014 feito de gestos m\u00ednimos, sil\u00eancios, ru\u00eddos e deslocamentos \u2014 que o filme constr\u00f3i sua cr\u00edtica pol\u00edtica mais profunda.<\/p>\n<p>A vida banal \u00e9 o ch\u00e3o real da hist\u00f3ria. O cotidiano \u00e9 o espa\u00e7o vivido onde as grandes estruturas \u2014 o Estado, o mercado, a globaliza\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia institucional \u2014 se materializam no corpo, na circula\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es humanas. Ao escolher o Recife de 1977 como cen\u00e1rio, O Agente Secreto transforma a cidade em laborat\u00f3rio dessa experi\u00eancia: ruas, postos de gasolina, cabines de proje\u00e7\u00e3o, apartamentos e corredores n\u00e3o s\u00e3o meros cen\u00e1rios, mas dispositivos de poder, vigil\u00e2ncia e mem\u00f3ria. O regime militar, \u00e0 \u00e9poca, ditava a atmosfera do cotidiano.<\/p>\n<p>No filme, a ditadura n\u00e3o se imp\u00f5e apenas por pris\u00f5es, torturas ou discursos oficiais. Ela aparece na sua rela\u00e7\u00e3o com a atmosfera do espa\u00e7o do cotidiano. Telefones podem estar grampeados, documentos desaparecem, identidades que precisam ser ocultadas, hist\u00f3rias familiares que n\u00e3o podem ser contadas. Trata-se de um regime que opera n\u00e3o apenas pela exce\u00e7\u00e3o espetacular, por\u00e9m, pela normaliza\u00e7\u00e3o do medo. \u00c9 a penetra\u00e7\u00e3o das normas, do controle e da burocracia na vida comum.<\/p>\n<p>Talvez seja essa a melhor explica\u00e7\u00e3o pela carreira bem-sucedida do filme de Kleber Mendon\u00e7a, o que n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a compet\u00eancia minimalista do diretor, a for\u00e7a de um elenco que cresce nas pequenas coisas e nos pequenos gestos, e a atua\u00e7\u00e3o marcante de Wagner Moura, que atua como um &#8220;spalla&#8221;, o primeiro violino, bra\u00e7o direito do maestro. A escolha do Recife como loca\u00e7\u00e3o do filme foi uma escolha est\u00e9tica decisiva: o autoritarismo deixa de ser um evento distante e ganha a for\u00e7a do ordin\u00e1rio. Viver sob a ditadura era aprender a conviver com a incompletude da informa\u00e7\u00e3o, com a d\u00favida permanente, com o apagamento lento das refer\u00eancias, um exerc\u00edcio constante de adapta\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cy09j50w5weo?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Bcorreiobraziliense.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\"><strong>Globo de Ouro de melhor filme de l\u00edngua n\u00e3o inglesa e melhor ator de drama<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A for\u00e7a da atua\u00e7\u00e3o de Wagner Moura, vencedor do Globo de Ouro de melhor ator dram\u00e1tico, tece essa narrativa. Seu personagem, Marcelo, carrega a ditadura no corpo antes mesmo de compreend\u00ea-la racionalmente. O andar hesitante, os sil\u00eancios prolongados, o olhar sempre atento traduzem aquilo que Milton Santos chamava de corporeidade no espa\u00e7o: o corpo como primeiro lugar onde o poder se inscreve. Sim, h\u00e1 linhas de contato com a repress\u00e3o mais brutal \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. O figurino de Wagner Moura lembra muito uma das fotos de Fernando Santa Cruz, pernambucano de Olinda, aluno da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niter\u00f3i (RJ), sequestrado em 1974, cujo corpo n\u00e3o foi devolvido \u00e0 fam\u00edlia. A historiadora e muse\u00f3loga Eneida Quadros Queiroz, em um post nas redes sociais, tra\u00e7a um paralelo com seu pai, Ayrton Albuquerque Queiroz, professor de economia da UFF, sequestrado e torturado em 1976, tamb\u00e9m pernambucano, obrigado a deixar o Recife por causa das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Vazios de mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>O Agente Secreto \u00e9 um filme sobre mem\u00f3ria, a falta dela e o trauma geracional. &#8220;Eu acho que, se traumas podem ser passados por gera\u00e7\u00f5es, valores tamb\u00e9m podem&#8221;, disse Wagner ao discursar na premia\u00e7\u00e3o. De fato, a mem\u00f3ria, no filme, n\u00e3o aparece como narrativa organizada, mas como fragmentos. Fotografias, fitas, relatos truncados, rumores. H\u00e1 sempre algo que falta \u2014 e essa falta \u00e9 pol\u00edtica. A ditadura n\u00e3o apenas produziu traumas. Produziu tamb\u00e9m n\u00e3o-mem\u00f3ria, zonas de sil\u00eancio e esquecimento for\u00e7ado. A fala de Wagner na cerim\u00f4nia do Globo de Ouro ilumina o sentido mais profundo do filme.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2026\/01\/7326803-globo-de-ouro-wagner-moura-faz-historia-e-e-o-melhor-ator-em-filme-de-drama.html\"><strong>Wagner Moura faz hist\u00f3ria e \u00e9 o Melhor Ator em Filme de Drama<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Na cerim\u00f4nia, Wagner foi ao xis da quest\u00e3o: o trauma se transmite no cotidiano, nos medos herdados, nos sil\u00eancios familiares, nas hist\u00f3rias interrompidas. \u00c9 nesse mesmo cotidiano que valores como solidariedade, dignidade e resist\u00eancia podem sobreviver e se renovar. A mem\u00f3ria \u00e9 um espa\u00e7o de resist\u00eancia. Milton Santos via nas periferias e nos espa\u00e7os marginalizados n\u00e3o apenas o lugar da exclus\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, da inven\u00e7\u00e3o, com brechas para outra forma de viver e pensar o mundo.<\/p>\n<p>O Agente Secreto recusa solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis ou o mito cl\u00e1ssico do her\u00f3i grego, o homem comum que faz coisas incomuns. Essa escolha \u00e9 muito dif\u00edcil, mas a\u00ed est\u00e1 o grande \u00eaxito de Kleber Mendon\u00e7a: a resist\u00eancia \u00e9 discreta, quase invis\u00edvel, por\u00e9m, persiste. A simples mem\u00f3ria do cotidiano dos anos chumbo \u00e9 um ato pol\u00edtico. Sobreviver ao esquecimento \u00e9, em si, uma forma de resist\u00eancia. O som ambiente, os rituais urbanos, as pequenas intera\u00e7\u00f5es, Kleber Mendon\u00e7a Filho aposta na pot\u00eancia \u00e9tica do detalhe.<\/p>\n<p>O Agente Secreto n\u00e3o \u00e9 apenas um filme sobre a ditadura, mas sobre o modo como sociedades lidam com seus vazios de mem\u00f3ria. Ao tornar vis\u00edvel esse processo no cotidiano, o filme faz uma leitura das estruturas de poder. De certa forma, tamb\u00e9m \u00e9 uma alegoria do que hoje se passa na sociedade norte-americana.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kleber Mendon\u00e7a Filho recusou solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e o mito cl\u00e1ssico do her\u00f3i grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendon\u00e7a Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em l\u00edngua n\u00e3o-inglesa, n\u00e3o est\u00e1 na reconstitui\u00e7\u00e3o expl\u00edcita [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":11015,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,169,589,1950,7,972,113,3,9,80,68],"tags":[2081,101,351,2080,973,2067],"class_list":["post-11010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-cinema","category-eua","category-geografia","category-justica","category-memoria","category-militares","category-politica","category-politica-2","category-seguranca","category-violencia","tag-agente-secreto","tag-cinema","tag-ditadura","tag-globodeouro","tag-mendonca","tag-moura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11010"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11020,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11010\/revisions\/11020"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}