{"id":11031,"date":"2026-01-18T07:21:03","date_gmt":"2026-01-18T10:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11031"},"modified":"2026-01-18T07:22:51","modified_gmt":"2026-01-18T10:22:51","slug":"morte-de-manoel-fiel-filho-escancarou-a-tortura-nos-quarteis-do-regime-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/morte-de-manoel-fiel-filho-escancarou-a-tortura-nos-quarteis-do-regime-militar\/","title":{"rendered":"Morte de Manoel Fiel Filho escancarou a tortura nos quart\u00e9is do regime militar"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia em S\u00e3o Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de \u00f4nibus antes de se tornar oper\u00e1rio metal\u00fargico<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 exatamente 50 anos, num s\u00e1bado, \u00e0s 22 horas, um Dodge Dart parou em frente \u00e0 casa do oper\u00e1rio metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato cont\u00ednuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: \u201cO Manoel suicidou-se. Aqui est\u00e3o suas roupas\u201d. Em seguida, jogou na cal\u00e7ada um saco de lixo azul com o macac\u00e3o do oper\u00e1rio morto. \u201cVoc\u00eas o mataram! Voc\u00eas o mataram!\u201d, gritou desesperada a esposa do oper\u00e1rio metal\u00fargico morto em 17 de janeiro de 1976.<\/p>\n<p>Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia na capital paulista desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de \u00f4nibus antes de se tornar oper\u00e1rio metal\u00fargico, era prensista na Metal Arte, no bairro da Mooca. Fora preso por dois agentes do DOI-Codi, o servi\u00e7o de intelig\u00eancia do II Ex\u00e9rcito, na pr\u00f3pria f\u00e1brica onde trabalhava, sob a acusa\u00e7\u00e3o de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte \u00e0 sua pris\u00e3o, os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a emitiram nota oficial afirmando que Manoel havia se enforcado em sua cela com as pr\u00f3prias meias. Por\u00e9m, de acordo com testemunhas, quando estava preso, usava chinelos sem meias.<\/p>\n<p>Quando Thereza e outros familiares conseguiram a libera\u00e7\u00e3o do corpo para ser enterrado, verificou-se que apresentava sinais evidentes de torturas, principalmente na regi\u00e3o da testa, nos pulsos e no pesco\u00e7o. No entanto, o exame necrosc\u00f3pico solicitado pelo delegado de pol\u00edcia Orlando D. Jer\u00f4nimo e assinado pelos legistas Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Mello e Jos\u00e9 Henrique da Fonseca simplesmente confirmava a vers\u00e3o oficial do suic\u00eddio. As circunst\u00e2ncias de sua morte s\u00e3o muito semelhantes \u00e0s de Alexandre Vannucchi Leme (17\/03\/1973) e Vladimir Herzog (25\/10\/1975). A morte de Fiel provocou o afastamento do general Ednardo d\u2019\u00c1vila Melo do comando do II Ex\u00e9rcito, tr\u00eas dias ap\u00f3s.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/memoria-da-ditadura-dificulta-reducao-das-penas-de-bolsonaro-e-generais\/\"><strong>\u00a0Mem\u00f3ria da ditadura dificulta redu\u00e7\u00e3o das penas de Bolsonaro e generais<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Em a\u00e7\u00e3o judicial movida pela fam\u00edlia, a Uni\u00e3o foi responsabilizada pela tortura e pelo assassinato. De acordo com um documento confidencial encontrado nos arquivos do antigo Dops de S\u00e3o Paulo, seu crime seria receber o jornal Voz Oper\u00e1ria. Durante seu trabalho investigativo para produ\u00e7\u00e3o do livro A Casa da Vov\u00f3 \u2013 Uma biografia do DOI-Codi (Alameda), o jornalista Marcelo Godoy, em 19 de abril de 2016, entrevistou um dos integrantes da equipe que sequestrou Fiel, o tenente Chico (nome fict\u00edcio) da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, que descreveu as circunst\u00e2ncias do assassinato:<\/p>\n<p>\u201cEle (Dem\u00e9trio, o delegado que matou Fiel Filho) trabalhava ali com o Calandra (Aparecido Laerte Calandra, delegado), quem me falou foi o Pedro Mira (Pedro Mira Grancieri, policial civil), um filho da puta. Entrou no interrogat\u00f3rio (Se\u00e7\u00e3o de Interrogat\u00f3rio), deu um soco na barriga do Fiel e matou o Fiel. N\u00e3o tinha nada a ver com nada, chegou l\u00e1 e: \u2018esse \u00e9 o cara?\u2019. E pohhh. E o Fiel come\u00e7ou a passar mal e morreu. Era um neg\u00f3cio que n\u00e3o tinha de acontecer (&#8230;.) E da\u00ed ficam cobrando o Fiel&#8230; \u2018Mataram o Fiel!\u2019 Mataram mesmo&#8230; Um bosta daquele l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>Em nova entrevista (25 de abril de 2016), tamb\u00e9m gravada por Godoy, o tenente Chico deu mais detalhes: \u201cEra um s\u00e1bado e quem estava l\u00e1 (no interrogat\u00f3rio) era o Mira, o Noburo (tenente da PM) e tinha mais um\u201d. Durante quase tr\u00eas anos Dem\u00e9trio atuou no DOI. A morte de Manoel Fiel Filho n\u00e3o foi apenas mais um crime pol\u00edtico cometido nos por\u00f5es da ditadura. Foi um acontecimento-limite: a brutalidade ostensiva, de conhecimento p\u00fablico, produziu rachaduras dentro do pr\u00f3prio regime.<\/p>\n<p><strong>Manter as apar\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>O assassinato de Fiel n\u00e3o provocou a mesma como\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do caso Herzog, por\u00e9m, consolidou a imagem da mentira institucionalizada, da tortura como rotina e do assassinato como m\u00e9todo do regime militar. Com o afastamento do comandante do II Ex\u00e9rcito, produzira um abalo no cora\u00e7\u00e3o do regime. O governo Geisel vivia, naquele per\u00edodo, a contradi\u00e7\u00e3o estrutural do autoritarismo \u201ccontrolado\u201d: uma parte do poder falava em distens\u00e3o \u201clenta, gradual e segura\u201d, enquanto a m\u00e1quina da repress\u00e3o \u2013 sobretudo os setores mais duros \u2013 insistia em operar como se a \u201cguerra interna\u201d fosse permanente e justificasse qualquer atrocidade.<\/p>\n<p><em>Leia ainda<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-nas-entrelinhas-recordacoes-da-distensao-estudante-desaparecidoo\/\"><strong>Recorda\u00e7\u00f5es da distens\u00e3o \u2014 o estudante desaparecido<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A linha dura n\u00e3o era um detalhe do sistema: era um n\u00facleo aut\u00f4nomo, capaz de comprometer a pr\u00f3pria estrat\u00e9gia do Planalto e de impor ao pa\u00eds uma l\u00f3gica de terror que escapava ao controle da c\u00fapula militar. Instalara-se um profundo racha entre o presidente Ernesto Geisel, que antes autorizara a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica (literalmente) de 11 membros do Comit\u00ea Central do PCB desaparecidos, e os militares da linha dura, expondo uma fissura que, com o tempo, seria um dos elementos da corros\u00e3o interna do regime.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora um gesto humanit\u00e1rio a demiss\u00e3o do comandante do II Ex\u00e9rcito. A morte de um trabalhador sob tortura escancarou o car\u00e1ter fascista do regime e tornou mais dif\u00edcil manter a apar\u00eancia de ordem, comprometendo o projeto de distens\u00e3o lenta e gradual de Geisel para absorver a espetacular vit\u00f3ria eleitoral do MDB (partido de oposi\u00e7\u00e3o) em 1974. Tratava-se de uma crise de legitimidade e sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nao-haveria-transicao-pacifica-a-democracia-no-brasil-sem-anistia\/\"><strong>N\u00e3o haveria transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica \u00e0 democracia no Brasil sem anistia<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Amanh\u00e3, 50 anos depois, em S\u00e3o Paulo, no Sindinap, antiga sede do Sindicato dos Metal\u00fargicos, na Rua do Carmo, 171, na S\u00e9, a partir das 18h, a Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira (FAP), diversas entidades de direitos humanos e nove centrais sindicais realizar\u00e3o uma grande homenagem a Manoel Fiel Filho, com o lan\u00e7amento da biografia Carrascos da Ditadura (Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira), de autoria do jornalista Jorge Oliveira, diretor do document\u00e1rio Perd\u00e3o, Mister Fiel!, que tamb\u00e9m ser\u00e1 exibido ao final do evento. A Medalha Manoel Fiel Filho ser\u00e1 entregue a veteranos sindicalistas e ativistas de direitos humanos pelo Coletivo de Mem\u00f3ria Democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia em S\u00e3o Paulo desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de \u00f4nibus antes de se tornar oper\u00e1rio metal\u00fargico H\u00e1 exatamente 50 anos, num s\u00e1bado, \u00e0s 22 horas, um Dodge Dart parou em frente \u00e0 casa do oper\u00e1rio metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. 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