{"id":11067,"date":"2026-01-28T07:29:32","date_gmt":"2026-01-28T10:29:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11067"},"modified":"2026-01-28T07:29:32","modified_gmt":"2026-01-28T10:29:32","slug":"o-caso-master-fachin-e-a-transicao-juridica-inacabada-do-supremo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-caso-master-fachin-e-a-transicao-juridica-inacabada-do-supremo\/","title":{"rendered":"O caso Master, Fachin e a transi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica inacabada do Supremo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O presidente do Supremo tem insistido na necessidade de limites institucionais claros e na preserva\u00e7\u00e3o da autoridade da Corte por meio da autoconten\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante a Lava Jato, havia duas linhas de atua\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal (STF), a ponto de uma das Turmas ser chamada pelos advogados de Jardim do \u00c9den e a outra, de C\u00e2mara de G\u00e1s. Em algum momento essa divis\u00e3o entre garantistas e punitivistas, digamos assim, foi ultrapassada pela necessidade de defender a democracia e o devido processo legal, amea\u00e7ados pelo ent\u00e3o presidente Jair Bolsonaro. Tanto que essas amea\u00e7as se consumaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o Supremo vem sendo um grande protagonista da pol\u00edtica nacional, quando se sabe que a Corte s\u00f3 atua sob demanda. Seus ministros alargaram seus poderes em todas as dire\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 excepcionalidade do processo das fake news, a cargo do ministro Alexandre de Moraes, que virou guarda-chuva para julgar e condenar os golpistas, entre os quais Bolsonaro. Volta e meia, em casos de grande repercuss\u00e3o, um ministro d\u00e1 um drible a mais sem ser o Garrincha.<\/p>\n<p>No caso do Master, a Corte est\u00e1 sendo submetida a um forte desgaste junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, e seu presidente, ministro Edson Fachin, apresenta uma proposta de C\u00f3digo de Conduta para a atua\u00e7\u00e3o dos seus pares com amplo apoio na sociedade e, \u00e0 vera mesmo, quase nenhum dos colegas. Tanto que a discuss\u00e3o da proposta j\u00e1 foi adiada para depois das elei\u00e7\u00f5es, ou seja, pode ficar para as calendas. Na pr\u00e1tica, o que acontece na Corte que mais desgasta sua imagem pode ser resumido na frase &#8220;advogado n\u00e3o \u00e9 parente&#8221;.<\/p>\n<p>O Judici\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 eleito. Sua legitimidade n\u00e3o decorre do voto, mas do ingresso por concurso ou da indica\u00e7\u00e3o constitucional seguida de sabatina, no caso dos tribunais superiores. Essa \u00e9 a chamada legitimidade de entrada. Contudo, ela n\u00e3o se sustenta sozinha ao longo do tempo. H\u00e1 uma segunda dimens\u00e3o, mais exigente e permanente: a &#8220;legitimidade da caminhada&#8221;, constru\u00edda por decis\u00f5es fundamentadas, jurisprud\u00eancia est\u00e1vel, previsibilidade e conduta compat\u00edvel com a fun\u00e7\u00e3o constitucional de julgar.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa dimens\u00e3o que se concentra o desgaste recente do STF, agravado por casos de grande impacto pol\u00edtico e econ\u00f4mico, como o do Master. O problema n\u00e3o est\u00e1 apenas no conte\u00fado das decis\u00f5es. Cresce a percep\u00e7\u00e3o de que o Supremo passou a atuar como gestor de crises, e n\u00e3o apenas como guardi\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/01\/7342096-caso-master-tem-indicativos-de-crime-organizado-diz-vieira.html\"><strong>Caso Master tem indicativos de crime organizado, diz Vieira<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Segundo Fachin, o Judici\u00e1rio costuma ser alvo de ataques por tr\u00eas raz\u00f5es principais: o seu papel de controle sobre os demais Poderes, o que inevitavelmente incomoda governantes e maiorias com pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas; o fato de ser um Poder sem for\u00e7a material pr\u00f3pria, que n\u00e3o disp\u00f5e de armas nem de meios coercitivos diretos, dependendo da aceita\u00e7\u00e3o social e da coopera\u00e7\u00e3o institucional, por\u00e9m vulner\u00e1vel a campanhas de deslegitima\u00e7\u00e3o; e o papel assumido no p\u00f3s-guerra, especialmente no constitucionalismo contempor\u00e2neo, de proteger direitos fundamentais e minorias, o que provoca rea\u00e7\u00f5es de setores contr\u00e1rios a essa agenda.<\/p>\n<p><strong>Lideran\u00e7a moral<\/strong><\/p>\n<p>O presidente do STF tem insistido na necessidade de limites institucionais claros e na preserva\u00e7\u00e3o da autoridade da Corte por meio da autoconten\u00e7\u00e3o. Em uma de suas manifesta\u00e7\u00f5es mais diretas, afirmou que &#8220;o Supremo Tribunal Federal n\u00e3o \u00e9 poder moderador, nem substituto da pol\u00edtica&#8221;, advertindo que a Corte n\u00e3o pode ocupar o espa\u00e7o pr\u00f3prio do Executivo e do Legislativo. Em outra ocasi\u00e3o, ressaltou que &#8220;a legitimidade do Judici\u00e1rio n\u00e3o se constr\u00f3i pela for\u00e7a, mas pela fundamenta\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es e pela fidelidade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Para Fachin, a autoridade do Judici\u00e1rio depende da coer\u00eancia jurisprudencial, do respeito ao devido processo legal e da previsibilidade. Como sintetizou, &#8220;juiz n\u00e3o decide conforme a vontade do momento, decide conforme o direito&#8221;. Trata-se de uma defesa da estabilidade institucional sob press\u00e3o pol\u00edtica e judicializa\u00e7\u00e3o excessiva.<\/p>\n<p>Esse desgaste do Supremo, por\u00e9m, precisa ser compreendido \u00e0 luz de uma transi\u00e7\u00e3o inacabada do direito germ\u00e2nico-romano para o modelo anglo-sax\u00e3o. Tradicionalmente, o Brasil se filiou ao primeiro, baseado na centralidade da lei escrita e na exegese restritiva. Nesse modelo, o juiz aplica a lei; n\u00e3o a cria. Contudo, a partir da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o Supremo incorporou elementos t\u00edpicos do common law: precedentes vinculantes, repercuss\u00e3o geral, s\u00famulas vinculantes e uma interpreta\u00e7\u00e3o constitucional cada vez mais principiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O texto normativo deixou de ser um limite r\u00edgido para se tornar ponto de partida, sem um pacto institucional claro sobre seus limites. O resultado \u00e9 um Judici\u00e1rio poderoso, mas politicamente exposto; necess\u00e1rio \u00e0 defesa da Constitui\u00e7\u00e3o, mas frequentemente ativista. A advert\u00eancia de Fachin se insere nesse ponto sens\u00edvel ao lembrar que &#8220;a Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o autoriza solu\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o permanentes&#8221;.<\/p>\n<p>A Corte \u00e9 chamada a arbitrar conflitos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e institucionais de forma recorrente, tornou-se, muitas vezes, a primeira arena de disputa. O caso Master exp\u00f5e as fragilidades de um arranjo institucional em que a transi\u00e7\u00e3o incompleta entre dois modelos jur\u00eddicos amplia o espa\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o judicial sem consolidar, na mesma medida, os freios e contrapesos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/01\/7342091-edson-fachin-acredita-que-caso-master-nao-deve-ficar-no-stf.html\"><strong>Edson Fachin acredita que caso Master n\u00e3o deve ficar no STF<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Como alertou Fachin, &#8220;a confian\u00e7a p\u00fablica no Judici\u00e1rio \u00e9 constru\u00edda todos os dias, decis\u00e3o ap\u00f3s decis\u00e3o&#8221;. Ocorre que as decis\u00f5es judiciais se tornam cada vez mais heterodoxas. O custo disso \u00e9 o desgaste da lideran\u00e7a moral do Supremo na sociedade, mesmo que sua autoridade ainda seja a palavra final, como deve ser, ali\u00e1s, numa ordem democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente do Supremo tem insistido na necessidade de limites institucionais claros e na preserva\u00e7\u00e3o da autoridade da Corte por meio da autoconten\u00e7\u00e3o Durante a Lava Jato, havia duas linhas de atua\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal (STF), a ponto de uma das Turmas ser chamada pelos advogados de Jardim do \u00c9den e a outra, de C\u00e2mara de G\u00e1s. 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