{"id":11219,"date":"2026-03-18T05:45:34","date_gmt":"2026-03-18T08:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11219"},"modified":"2026-03-18T05:46:37","modified_gmt":"2026-03-18T08:46:37","slug":"pra-nao-dizer-que-nao-falei-de-habermas-e-a-democracia-na-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/pra-nao-dizer-que-nao-falei-de-habermas-e-a-democracia-na-real\/","title":{"rendered":"Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de Habermas e a democracia na real"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Estamos acostumados a debater os problemas da economia, da seguran\u00e7a p\u00fablica e da Justi\u00e7a, por\u00e9m, a quest\u00e3o central que emerge na conjuntura brasileira \u00e9 a sua legitima\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00fcrgen Habermas, que morreu no \u00faltimo s\u00e1bado, aos 96 anos, foi o expoente da segunda gera\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt. Doutor em filosofia pela Universidade de Bonn, professor em Heidelberg e Frankfurt, tornou-se refer\u00eancia mundial por duas ideias centrais: a da esfera p\u00fablica e a da a\u00e7\u00e3o comunicativa. Por isso mesmo, o eixo de seu pensamento \u00e9 pol\u00edtico, no contexto do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, focado na ideia de que a democracia s\u00f3 se sustenta quando decis\u00f5es de poder podem ser justificadas publicamente, em linguagem compreens\u00edvel e sob regras minimamente compartilhadas.<\/p>\n<p>Essa sua contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica ajuda a compreens\u00e3o da conjuntura brasileira e das adversidades da nossa democracia. Estamos acostumados a debater os problemas da economia, da seguran\u00e7a p\u00fablica e da Justi\u00e7a, por\u00e9m, a quest\u00e3o central que emerge na conjuntura brasileira \u00e9 a sua legitima\u00e7\u00e3o. O sistema pol\u00edtico continua funcionando, as institui\u00e7\u00f5es seguem em p\u00e9, a economia entrega alguns indicadores positivos, mas a sociedade n\u00e3o reconhece automaticamente nesses resultados uma raz\u00e3o suficiente para confiar no governo, no Congresso ou no Supremo Tribunal Federal (STF)<\/p>\n<p>Quando isso acontece, h\u00e1 uma fratura entre o funcionamento formal das institui\u00e7\u00f5es e a cren\u00e7a social em sua legitimidade. Instala-se uma crise entre o sistema e a vida banal: o Estado opera, mas deixa de convencer. A elei\u00e7\u00e3o de 2026 ser\u00e1 disputada nesse terreno. At\u00e9 4 de outubro de 2026, restam sete meses. O governo n\u00e3o pode se dar ao luxo de supor que a in\u00e9rcia da m\u00e1quina p\u00fablica ou a mem\u00f3ria negativa do bolsonarismo v\u00e3o reconduzir o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, como fez a Executiva Nacional do PT no documento divulgado ontem.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m erra ao apostar no quanto pior melhor e imaginar que isso automaticamente favorecer\u00e1 a elei\u00e7\u00e3o do senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL-RJ). Pesquisa Datafolha publicada em 7 de mar\u00e7o mostrou Lula com 46% e Fl\u00e1vio com 43% num eventual segundo turno. Dias depois, a Genial\/Quaest registrou 41% a 41% entre os dois. H\u00e1 um favorito, mas seu principal advers\u00e1rio \u00e9 competitivo. A elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/03\/7377354-maioria-dos-brasileiros-ja-definiu-voto-para-presidente-diz-quaest.html\"><strong>Maioria dos brasileiros j\u00e1 definiu voto para presidente, diz Quaest<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Mas onde \u00e9 que Habermas entra nisso? Na compreens\u00e3o de que a pol\u00edtica na democracia n\u00e3o \u00e9 apenas a disputa de m\u00e1quinas, anabolizada pelo fundo eleitoral e emendas parlamentares. Ningu\u00e9m leva os eleitores \u00e0s urnas puxados pelos narizes. O que decide \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos. Nesse aspecto, eles mostram que a esfera p\u00fablica brasileira est\u00e1 se degenerando. A economia oferece sinais que, em tese, favoreceriam a reelei\u00e7\u00e3o de Lula: a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, o menor n\u00edvel da s\u00e9rie compar\u00e1vel iniciada em 2012; o IPCA mensal de fevereiro foi de 0,70%; e o PIB acumulado em quatro trimestres est\u00e1 em 2,3%. Mas, na experi\u00eancia concreta das fam\u00edlias, o custo de vida continua a falar mais alto do que as estat\u00edsticas. A linguagem t\u00e9cnica do governo n\u00e3o consegue se converter em convic\u00e7\u00e3o social. Ou seja, falta a\u00e7\u00e3o comunicativa.<\/p>\n<p><strong>Massa cr\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Vejamos o impacto da guerra do Ir\u00e3 no pre\u00e7o dos combust\u00edveis. O governo anunciou, em 12 de mar\u00e7o, a zeragem de PIS\/Cofins sobre o diesel e uma subven\u00e7\u00e3o para produtores e importadores, numa conta total de R$ 30 bilh\u00f5es, a ser compensada por imposto de exporta\u00e7\u00e3o sobre o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma resposta de emerg\u00eancia a um choque externo, mas, tamb\u00e9m, uma decis\u00e3o politicamente arriscada: mexe com pre\u00e7os relativos, subsidia combust\u00edvel f\u00f3ssil e transfere para o governo o \u00f4nus de provar que a interven\u00e7\u00e3o chegar\u00e1 de fato \u00e0 bomba. Se n\u00e3o chegar, a percep\u00e7\u00e3o popular de descontrole vencer\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica. Quando o poder administrativo substitui a persuas\u00e3o por medidas de exce\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cresce o risco de eros\u00e3o da confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso vale para a seguran\u00e7a p\u00fablica e para o debate sobre classificar fac\u00e7\u00f5es brasileiras como organiza\u00e7\u00f5es terroristas. O Congresso aprovou, no fim de fevereiro, o chamado PL Antifac\u00e7\u00e3o, que cria a figura da fac\u00e7\u00e3o criminosa, endurece penas e amplia instrumentos de sufocamento financeiro dessas organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 falso dizer que o Estado brasileiro est\u00e1 parado diante do Primeiro COmando da Capital (PCC), do Comando Vermelho ou das mil\u00edcias.<\/p>\n<p>O problema real \u00e9 outro: numa esfera p\u00fablica degradada, um tema t\u00e9cnico e diplom\u00e1tico complexo pode ser reduzido a um slogan: &#8220;ou est\u00e1 com a nova lei ou est\u00e1 com os bandidos&#8221;. O debate deixa de ser racional e passa a ser plebiscit\u00e1rio. A democracia seria um ant\u00eddoto a isso. Por\u00e9m, depende da circula\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel de ideias entre a imprensa, a sociedade civil, a academia, ou seja, a esfera p\u00fablica informal, e o Parlamento, os tribunais e governo, a esfera institucional. Essa circula\u00e7\u00e3o est\u00e1 obstru\u00edda.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/03\/7377846-dino-critica-atacadistas-de-emendas-e-stf-forma-4-a-0-para-condenar-cupula-do-pl.html\"><strong>Dino critica &#8220;atacadistas de emendas&#8221; e STF forma 4 a 0 para condenar deputados do PL<\/strong><\/a><\/p>\n<p>No Brasil, a opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o est\u00e1 organizada em torno de argumentos, mas de identidades hostis. Saem de cena os programas, entra o medo. Pesquisa Meio\/Ideia mostrou que 54% dos brasileiros n\u00e3o acreditam que Bolsonaro tentou um golpe em 2022. A narrativa democr\u00e1tica, embora juridicamente robusta, n\u00e3o se consolidou como verdade compartilhada na sociedade. A esfera p\u00fablica est\u00e1 capturada. O que os partidos pol\u00edticos e o Congresso fazem em rela\u00e7\u00e3o a isso? Quase nada. Falta massa cr\u00edtica \u00e0 elite pol\u00edtica para debater e construir um projeto de pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos acostumados a debater os problemas da economia, da seguran\u00e7a p\u00fablica e da Justi\u00e7a, por\u00e9m, a quest\u00e3o central que emerge na conjuntura brasileira \u00e9 a sua legitima\u00e7\u00e3o \u00fcrgen Habermas, que morreu no \u00faltimo s\u00e1bado, aos 96 anos, foi o expoente da segunda gera\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt. 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