{"id":1122,"date":"2016-12-13T07:18:00","date_gmt":"2016-12-13T09:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1122"},"modified":"2016-12-13T07:18:00","modified_gmt":"2016-12-13T09:18:00","slug":"nas-entrelinhas-o-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-que-fazer\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O que fazer?"},"content":{"rendered":"<p><em>O pa\u00eds andar\u00e1 na corda bamba (a pinguela j\u00e1 era) at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2018, com todos os grandes partidos sangrando, inclusive o PSDB<\/em><\/p>\n<p>O pa\u00eds vive a maior crise pol\u00edtica de sua hist\u00f3ria republicana, com a diferen\u00e7a de que ainda n\u00e3o ocorreu uma revolu\u00e7\u00e3o, como a de 1930, ou um golpe de Estado, como em 1964. Estamos enfrentando a situa\u00e7\u00e3o num ambiente democr\u00e1tico, embora uma parcela dos protagonistas da crise insistam na narrativa do golpe parlamentar para fugir \u00e0 pr\u00f3pria responsabilidade sobre o que est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o foi de uma hora para outra, mas a dela\u00e7\u00e3o premiada do executivo da Odebrecht Cl\u00e1udio Mello Filho, cujo teor vazou no fim de semana, desnudou um modelo de acumula\u00e7\u00e3o de capital e reprodu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que atenta contra o Estado de direito democr\u00e1tico. Esse \u00e9 o xis da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 das dela\u00e7\u00f5es \u2014 de 77 que ser\u00e3o feitas, as mais importantes de Em\u00edlio e Marcelo Odebrecht, os donos da maior empreiteira do pa\u00eds, n\u00e3o vieram \u00e0 luz \u2014 sistematizou o funcionamento do nosso \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d, com apoio da elite pol\u00edtica do pa\u00eds, para promover a maior transfer\u00eancia de renda poss\u00edvel do Estado para empresas que atuavam nos setores mais din\u00e2micos da nossa economia urbana \u2014 complexo petroqu\u00edmico, energia, ind\u00fastria automotiva e constru\u00e7\u00e3o pesada. Deixa claro tamb\u00e9m o mecanismo utilizado para emendar a Constitui\u00e7\u00e3o e modificar as leis com objetivo de favorecer e garantir privil\u00e9gios a essas empresas: a propina para os pol\u00edticos, que garantiria a reprodu\u00e7\u00e3o dos mandatos e o enriquecimento pessoal. Outro mecanismo de transfer\u00eancia de renda do Estado para os interesses privados, no caso os representantes de velhas e novas oligarquias. Segundo o relato de Cl\u00e1udio Mello, 52 pol\u00edticos receberam cerca de R$ 90 milh\u00f5es em pagamentos de propinas, caixa dois e doa\u00e7\u00f5es legais entre 2006 e 2014. \u00c9 muita grana.<\/p>\n<p>No v\u00e9rtice desse sistema de poder estava o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que governou o pa\u00eds de 2003 a 2010, cujo partido foi protagonista de uma esp\u00e9cie de divis\u00e3o de trabalho entre as empreiteiras e os pol\u00edticos, estabelecendo as regras do jogo. R$ 17 milh\u00f5es daquele montante foram pagos a parlamentares em troca da aprova\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias que favoreceram a Odebrecht, mas h\u00e1 que se considerar as outras empreiteiras, montadoras de autom\u00f3veis e empresas perif\u00e9ricas que atuavam no processo, inclusive do agroneg\u00f3cio. Seria m\u00e1-f\u00e9 ou ingenuidade acreditar que tudo come\u00e7ou no governo Lula, mas com certeza foi nele que o esquema atingiu a quase \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d, acabando com o cada um por si e Deus por todos no Congresso. Um grupo restrito de pol\u00edticos aliados, com controle da pauta de vota\u00e7\u00f5es e das maiores bancadas, comandava a farra.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m somente a ingenuidade ou a m\u00e1-f\u00e9 exclui a ex-presidente Dilma Rousseff, com sua caneta cheia de tinta, do processo. O modus operandi pol\u00edtico ap\u00f3s a sa\u00edda de Lula n\u00e3o funcionaria sem sua omiss\u00e3o; al\u00e9m disso, foi desse esquema que veio o dinheiro de suas campanhas milion\u00e1rias de 2010 e 2014. Dilma n\u00e3o foi citada na dela\u00e7\u00e3o do executivo, mas nas investiga\u00e7\u00f5es sobre sua campanha eleitoral j\u00e1 h\u00e1 elementos que comprovam a vincula\u00e7\u00e3o do esquema com seu projeto pol\u00edtico, haja vista as investiga\u00e7\u00f5es sobre a atua\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Santana e da mulher, M\u00f4nica Moura, nas elei\u00e7\u00f5es. As den\u00fancias contra o presidente Michel Temer e integrantes de seu estado-maior, de parte de Cl\u00e1udio Mello Filho, apenas corroboram que o esquema supostamente continuou funcionando, mesmo depois do governo Lula.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, vale destacar que a narrativa nacionalista da defesa do petr\u00f3leo e da engenharia nacional, utilizada para tentar barrar a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, era parte integrante de um projeto pol\u00edtico que, ideologicamente, apostou no \u201ccapitalismo de Estado\u201d como via de desenvolvimento e proje\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial. Um ambiente internacional favor\u00e1vel, do ponto de vista econ\u00f4mico, e as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do PT no plano internacional serviram para azeitar neg\u00f3cios no exterior, de onde parte da propina tamb\u00e9m saiu, gra\u00e7as a financiamentos do BNDES e rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com regimes autorit\u00e1rios ou corruptos. Entre 2003 e 2015, Lula realizou 150 viagens pela Am\u00e9rica Latina, quase sempre acompanhado um diretor da Odebrecht, hoje um dos delatores do esquema: Alexandrino Alencar. Mantinha rela\u00e7\u00f5es incestuosas com a Odebrecht e outras empreiteiras.<\/p>\n<p><strong>O colapso<\/strong><\/p>\n<p>O que fazer diante de tudo isso? Esse \u00e9 o dilema que o pa\u00eds vive. A cassa\u00e7\u00e3o do mandato de Dilma Rousseff pelo Congresso n\u00e3o arrefeceu a crise econ\u00f4mica, muito menos zerou a crise \u00e9tica. Foi a sa\u00edda encontrada pelo establishment e a oposi\u00e7\u00e3o para salvar o pa\u00eds da completa bancarrota. As novas den\u00fancias e as manobras para encerrar a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que fracassaram, desgastaram muito o Pal\u00e1cio do Planalto. Al\u00e9m disso, a crise econ\u00f4mica n\u00e3o arrefeceu, porque se trata do colapso de um modelo de acumula\u00e7\u00e3o perverso, tecido ao longo de d\u00e9cadas, sob o olhar c\u00famplice de uma alta burocracia federal acomodada em seus privil\u00e9gios. Temer n\u00e3o est\u00e1 livre de ter o mandato cassado no julgamento da campanha de Dilma, mas isso n\u00e3o resolveria a crise, pois haveria uma elei\u00e7\u00e3o indireta por um Congresso desmoralizado.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite a antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es nem a convoca\u00e7\u00e3o de uma Constituinte.\u00a0A fleuma de Temer e sua base pol\u00edtica \u00e9 que garantem a sobreviv\u00eancia do governo, t\u00e3o impopular quanto o de Dilma. O pa\u00eds andar\u00e1 na corda bamba (a pinguela j\u00e1 era) at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2018, com todos os grandes partidos sangrando, inclusive o PSDB. Que o seja, para garantir a democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pa\u00eds andar\u00e1 na corda bamba (a pinguela j\u00e1 era) at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2018, com todos os grandes partidos sangrando, inclusive o PSDB O pa\u00eds vive a maior crise pol\u00edtica de sua hist\u00f3ria republicana, com a diferen\u00e7a de que ainda n\u00e3o ocorreu uma revolu\u00e7\u00e3o, como a de 1930, ou um golpe de Estado, como em 1964. 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