{"id":1126,"date":"2016-12-14T06:30:37","date_gmt":"2016-12-14T08:30:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1126"},"modified":"2016-12-14T06:30:37","modified_gmt":"2016-12-14T08:30:37","slug":"nas-entrelinhas-crise-na-vida-banal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-crise-na-vida-banal\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A crise na vida banal"},"content":{"rendered":"<p><em>A crise fiscal n\u00e3o \u00e9 fruto somente da amplia\u00e7\u00e3o dos gastos sociais em consequ\u00eancia da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como muitos afirmam<\/em><\/p>\n<p>Um dos efeitos mais delet\u00e9rios da crise \u00e9tica s\u00e3o os seus efeitos sobre a vida banal. Nosso \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d, na sua face mais abjeta, foi desnudado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato: um pacto corrupto entre a elite pol\u00edtica e as grandes empreiteiras do pa\u00eds para saquear os cofres p\u00fablicos. Mas o fen\u00f4meno se reproduz tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas capturadas por grandes interesses privados na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a p\u00fablica e na mobilidade urbana \u2014 os setores dos quais depende o cotidiano dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que devemos examinar a aprova\u00e7\u00e3o da PEC do teto dos gastos sociais. A crise fiscal n\u00e3o \u00e9 fruto somente da amplia\u00e7\u00e3o dos gastos sociais em consequ\u00eancia da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como muitos afirmam. Al\u00e9m dos esc\u00e2ndalos investigados pela Lava-Jato, h\u00e1 que se examinar a qualidade desses gastos. At\u00e9 que ponto se consomem mais recursos com a pr\u00f3pria burocracia e com o superfaturamento de insumos e servi\u00e7os, para favorecer grandes grupos privados, em detrimento do atendimento direto ao cidad\u00e3o?<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos afirmam, o teto dos gastos n\u00e3o significar\u00e1 a redu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica dos recursos da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 uma narrativa falsa, pois a lei limitar\u00e1 os gastos em geral e impor\u00e1 escolhas mais racionais, ou seja, uma disputa pol\u00edtica no debate do Or\u00e7amento da Uni\u00e3o. A crise de financiamento do Estado de bem-estar social \u00e9 mundial, em raz\u00e3o das aceleradas mudan\u00e7as na estrutura produtiva e da globaliza\u00e7\u00e3o, e gera um grande desconforto social. No Brasil, por\u00e9m, esse desconforto foi exacerbado pela recess\u00e3o econ\u00f4mica e pela crise \u00e9tica.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas p\u00fablicas foram capturadas pelos grandes interesses econ\u00f4micos e a chamada vida banal foi ignorada pelo poder p\u00fablico, principalmente nas periferias das grandes cidades. Essa \u00e9 a verdade mais dolorosa. A mais forte rea\u00e7\u00e3o ao necess\u00e1rio ajuste fiscal parte das corpora\u00e7\u00f5es, embora n\u00e3o se possa ignorar a insatisfa\u00e7\u00e3o dos setores verdadeiramente prejudicados pela p\u00e9ssima qualidade dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o atribui ao presidente Temer a responsabilidade pela recess\u00e3o, como se nada tivesse a ver, por exemplo, com o corte de R$ 69 bilh\u00f5es no Or\u00e7amento de 2015, no governo Dilma Rousseff. Os maiores ajustes foram efetuados nos minist\u00e9rios das Cidades (R$ 17,2 bilh\u00f5es), da Sa\u00fade (R$ 1,7 bilh\u00e3o), da Educa\u00e7\u00e3o (R$ 9,4 bilh\u00f5es) e dos Transportes (R$ 5,7 bilh\u00f5es). Ou seja, o maior impacto foi na chamada vida banal.<\/p>\n<p>O outro lado da moeda da \u201cfocaliza\u00e7\u00e3o\u201d dos gastos sociais nos mais pobres, que se traduziu durante os governos Lula e Dilma na transfer\u00eancia direta de renda para aproximadamente 13 milh\u00f5es de fam\u00edlias, foi o sucateamento das pol\u00edticas \u201cuniversalistas\u201d. Sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transportes e seguran\u00e7a p\u00fablica ficaram em segundo plano; a prioridade foi expandir o consumo via endividamento do Estado e das fam\u00edlias. Resultado: a vida melhorou temporariamente dentro de casa, mas se degradou da porta para fora. As elei\u00e7\u00f5es municipais foram eloquentes quanto a isso.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se rediscutir a rela\u00e7\u00e3o entre o SUS e os estabelecimentos privados, a hegemonia do lobby rodovi\u00e1rio nas pol\u00edticas de transportes, o impacto da bolha imobili\u00e1ria na qualidade de vida das cidades e a expans\u00e3o do ensino em fun\u00e7\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o privada e n\u00e3o da necessidade de forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra. No andar de baixo, traficantes e mil\u00edcias controlam a vida banal, enquanto as gangues de colarinho branco cuidam do andar de cima. Com a recess\u00e3o e o desemprego, a press\u00e3o social sobre os servi\u00e7os e a viol\u00eancia aumentaram. A crise nas administra\u00e7\u00f5es locais agrava a situa\u00e7\u00e3o: s\u00e3o elas que arcam com a maior parte dessas demandas sociais.<\/p>\n<p><strong>Vandalismo<\/strong><\/p>\n<p>Em circunst\u00e2ncias normais, haveria um grande debate na sociedade sobre a necessidade de reinventar o Estado brasileiro, ajustando-o \u00e0 realidade da economia, e de trocar privil\u00e9gios por igualdade de oportunidades, com oferta de servi\u00e7os essenciais de qualidade. A recess\u00e3o e a crise \u00e9tica, por\u00e9m, turvam a discuss\u00e3o. O conflito em torno da distribui\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos \u00e9 mascarado e instrumentalizado. As cenas de vandalismo ocorridas ontem em Bras\u00edlia s\u00e3o um bom exemplo. De um lado, o reflexo inequ\u00edvoco da insatisfa\u00e7\u00e3o social; de outro, a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que a crise \u00e9tica favorece.<\/p>\n<p>O mesmo fen\u00f4meno tende a se reproduzir no debate sobre a Previd\u00eancia. A necessidade da reforma \u00e9 inequ\u00edvoca, para sobreviv\u00eancia do sistema, o que exige acabar com os privil\u00e9gios. Mas a mudan\u00e7a significa tamb\u00e9m lan\u00e7ar aos ombros dos segurados os custos de todos os desatinos e falcatruas, o que inevitavelmente gera revolta. Encontrar um ponto de equil\u00edbrio n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, ainda mais num cen\u00e1rio politicamente deteriorado como o atual, no qual a elite pol\u00edtica est\u00e1 mais preocupada com a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e impunidade.<\/p>\n<p>O ajuste fiscal e a reforma da Previd\u00eancia s\u00e3o agendas estruturantes. O presidente Temer disp\u00f5e ainda de base parlamentar para aprovar essas reformas, mas a press\u00e3o social tende a aumentar e, com ela, a instabilidade pol\u00edtica. Est\u00e1 nas m\u00e3os do Supremo Tribunal Federal, nesse cen\u00e1rio, manter o equil\u00edbrio institucional. Para isso, por\u00e9m, precisa come\u00e7ar a julgar os processos da Lava-Jato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise fiscal n\u00e3o \u00e9 fruto somente da amplia\u00e7\u00e3o dos gastos sociais em consequ\u00eancia da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como muitos afirmam Um dos efeitos mais delet\u00e9rios da crise \u00e9tica s\u00e3o os seus efeitos sobre a vida banal. 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