{"id":11297,"date":"2026-04-08T07:55:41","date_gmt":"2026-04-08T10:55:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11297"},"modified":"2026-04-08T07:56:35","modified_gmt":"2026-04-08T10:56:35","slug":"noticias-distopicas-da-guerra-entre-donald-trump-e-os-aiatolas-do-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/noticias-distopicas-da-guerra-entre-donald-trump-e-os-aiatolas-do-ira\/","title":{"rendered":"Not\u00edcias dist\u00f3picas da guerra entre Donald Trump e os aiatol\u00e1s do Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Durante d\u00e9cadas, mesmo sob tens\u00f5es, o sistema internacional operou com previsibilidade, institui\u00e7\u00f5es, normas e media\u00e7\u00e3o. Esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8220;Distopia&#8221; \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma sociedade imagin\u00e1ria marcada por opress\u00e3o, caos ou degrada\u00e7\u00e3o extrema \u2014 um &#8220;lugar ruim&#8221;, no qual a viol\u00eancia, a perda de liberdade e a ruptura das normas civilizat\u00f3rias se tornam regra. Mais do que coisa da literatura ou do cinema, a distopia \u00e9 alerta: projeta no futuro tend\u00eancias j\u00e1 presentes no mundo real. \u00c9 a\u00ed que os acontecimentos no Oriente M\u00e9dio, com a escalada ret\u00f3rica e militar envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Ir\u00e3 assombram as chancelarias das grandes pot\u00eancias mundiais e impactam a vida das pessoas em todo mundo.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais recente no Conselho de Seguran\u00e7a da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2014 com o veto de R\u00fassia e China a uma resolu\u00e7\u00e3o sobre o Estreito de Ormuz \u2014 mostra o esgotamento das possibilidades de solu\u00e7\u00e3o do conflito pelas vias do direito internacional e da diplomacia. A ONU j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir consensos m\u00ednimos entre as pot\u00eancias nos momentos de crise como essa. Nesse v\u00e1cuo diplom\u00e1tico, a l\u00f3gica da for\u00e7a bruta ganha centralidade, sobretudo na pol\u00edtica externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tenta reverter o decl\u00ednio da hegemonia econ\u00f4mica norte-americana pela via da supremacia militar.<\/p>\n<p>No terreno das amea\u00e7as, at\u00e9 essa ter\u00e7a-feira \u00e0 noite, Trump havia posicionado os Estados Unidos num patamar raramente visto, mesmo em contextos de guerra: &#8220;Uma civiliza\u00e7\u00e3o inteira morrer\u00e1 esta noite, para nunca mais ser ressuscitada&#8221;, amea\u00e7ou. E advertiu que poderia &#8220;eliminar o Ir\u00e3 em uma noite&#8221;, caso suas exig\u00eancias n\u00e3o fossem atendidas. Era a noite dessa ter\u00e7a-feira, mas o Ir\u00e3 pagou para ver. Trump recuou e anunciou uma trefgua de duas semanas. Mesmo admitindo que tudo n\u00e3o passou de blefe, recurso que o presidente norte-americano utiliza com frequ\u00eancia, esse tipo de amea\u00e7a desloca o conflito para um terreno muito perigoso.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/04\/7392337-trump-anuncia-tregua-com-o-ira-e-exige-reabertura-de-ormuz.html\"><strong>Trump anuncia tr\u00e9gua com o Ir\u00e3 e exige reabertura de Ormuz<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A resposta do Ir\u00e3, controlado pelos aiatol\u00e1s xiitas e sua guarda revolucion\u00e1ria isl\u00e2mica, j\u00e1 demonstrou que as amea\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o surtindo efeito. Ataques iranianos com m\u00edsseis e drones atingiram ou foram direcionados a pa\u00edses do Golfo, como Catar, Bahrein e Emirados \u00c1rabes Unidos, al\u00e9m de instala\u00e7\u00f5es americanas no Iraque. Ao mesmo tempo, o Estreito de Ormuz \u2014 por onde transita cerca de um quinto do petr\u00f3leo mundial \u2014, epicentro estrat\u00e9gico da crise, continuou fechado, com impactos imediatos sobre o com\u00e9rcio global e os pre\u00e7os da energia.<\/p>\n<p>Mesmo com a reabertrura de Ormuz, o balan\u00e7o objetivo dos efeitos da guerra mostrar\u00e1 que os preju\u00edzos n\u00e3o ser\u00e3o apenas conjunturais, por causa dos danos \u00e0 infraestrutura. No plano econ\u00f4mico, houve oscila\u00e7\u00f5es do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, com picos recentes que pressionam a infla\u00e7\u00e3o global e afetam diretamente economias dependentes de combust\u00edveis f\u00f3sseis. No plano militar, a amplia\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 inclui ataques indiretos a aliados regionais e amea\u00e7as a outras rotas mar\u00edtimas, enquanto n\u00e3o houver um acordo de paz duradouro, o risco de o conflito recrudescer e atingir propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis permanece.<\/p>\n<p><strong>Uma nova ordem<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da fragmenta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, dois blocos de pa\u00edses se formam nessa guerra, cada qual com suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es: os Estados Unidos, as pot\u00eancias europeias e as monarquias \u00e1rabes de um lado; R\u00fassia, China e parte do chamado Sul Global de outro. Qual ser\u00e1 a arquitetura da nova ordem mundial que emergir\u00e1 dessa guerra? Aquela do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, inspirada na Paz de Westf\u00e1lia, est\u00e1 morrendo. Firmada em M\u00fcnster e Osnabr\u00fcck, em 1648, estabeleceu as bases da diplomacia moderna: o princ\u00edpio da soberania territorial, a n\u00e3o inger\u00eancia em assuntos internos e a igualdade jur\u00eddica entre na\u00e7\u00f5es, consolidando a separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Com suas amea\u00e7as, Trump trouxe \u00e0 crise uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica e existencial preocupante. Herdeiro de uma civiliza\u00e7\u00e3o milenar que remonta ao Imp\u00e9rio Persa, o Ir\u00e3 n\u00e3o \u00e9 apenas um ator geopol\u00edtico contempor\u00e2neo, mas um polo cultural cuja trajet\u00f3ria j\u00e1 foi marcada, em diferentes momentos, por estrat\u00e9gias de integra\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia. A evoca\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o de uma &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; nos remetes aos piores momentos da Hist\u00f3ria. Tais declara\u00e7\u00f5es podem ser enquadradas, ao menos em tese, como incita\u00e7\u00e3o a crimes de guerra.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de ruptura de paradigma. Durante d\u00e9cadas, mesmo sob tens\u00f5es, o sistema internacional operou com algum grau de previsibilidade, ancorado em institui\u00e7\u00f5es, normas e mecanismos de media\u00e7\u00e3o. Hoje, esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento. A incapacidade de o Conselho de Seguran\u00e7a produzir uma resposta efetiva n\u00e3o apenas reflete a divis\u00e3o entre as grandes pot\u00eancias, mas tamb\u00e9m a consolida\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar, no qual n\u00e3o h\u00e1 mais \u00e1rbitros inconteste.<\/p>\n<p><em>Leia mais<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/04\/7392715-cessar-fogo-com-o-ira-e-vitoria-temporaria-para-trump-mas-tem-um-custo.html\"><strong>Cessar-fogo com o Ir\u00e3 \u00e9 vit\u00f3ria tempor\u00e1ria para Trump \u2014 mas tem um custo<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de um sistema baseado em regras para um ambiente dominado pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 o tipo de inflex\u00e3o que sugere os cen\u00e1rios dist\u00f3picos, como em &#8220;Aqui n\u00e3o pode acontecer&#8221; (Editora Martin Claret, em ingl\u00eas It Can&#8217;t Happen Here), de Sinclair Lewis, que narra a ascens\u00e3o de um populista autorit\u00e1rio nos EUA, frequentemente associado ao estilo de governo de Trump. N\u00e3o se trata, por\u00e9m, de uma distopia liter\u00e1ria, h\u00e1 uma realidade que incorpora alguns de seus elementos centrais: a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, a eros\u00e3o das normas, a substitui\u00e7\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o pela imposi\u00e7\u00e3o e a crescente incerteza sobre o futuro.<\/p>\n<p>O risco maior, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 apenas a continuidade da guerra, mas a aus\u00eancia de limites claros para sua escalada. Quando as estruturas que organizam a vida coletiva colapsam, o que se imp\u00f5e n\u00e3o \u00e9 uma nova ordem est\u00e1vel, mas um per\u00edodo prolongado de instabilidade, no qual a for\u00e7a, e n\u00e3o a lei, passa a ditar os rumos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, mesmo sob tens\u00f5es, o sistema internacional operou com previsibilidade, institui\u00e7\u00f5es, normas e media\u00e7\u00e3o. Esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento &#8220;Distopia&#8221; \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma sociedade imagin\u00e1ria marcada por opress\u00e3o, caos ou degrada\u00e7\u00e3o extrema \u2014 um &#8220;lugar ruim&#8221;, no qual a viol\u00eancia, a perda de liberdade e a ruptura das normas civilizat\u00f3rias se tornam regra. 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