{"id":11376,"date":"2026-05-03T08:34:38","date_gmt":"2026-05-03T11:34:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11376"},"modified":"2026-05-03T08:34:59","modified_gmt":"2026-05-03T11:34:59","slug":"o-senado-as-derrotas-de-lula-e-o-fantasma-da-republica-velha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-senado-as-derrotas-de-lula-e-o-fantasma-da-republica-velha\/","title":{"rendered":"O Senado, as derrotas de Lula e o fantasma da Rep\u00fablica Velha"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A rejei\u00e7\u00e3o da indica\u00e7\u00e3o de um indicado de Lula ao Supremo n\u00e3o ocorria desde Floriano. A ideia de que foi fruto de escolha errada e falta de capacidade de articula\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica tudo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A crise do florianismo, que p\u00f4s fim \u00e0 chamada Rep\u00fablica da Espada, e a consolida\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Olig\u00e1rquica ajudam a iluminar, por contraste hist\u00f3rico, o momento atual da pol\u00edtica brasileira. A dificuldade do marechal Floriano Peixoto em exercer plenamente sua autoridade sobre o sistema pol\u00edtico \u2014 inclusive no que diz respeito \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o de ministros do Supremo Tribunal Federal \u2014, n\u00e3o foi um acidente institucional, mas o sintoma de uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em muta\u00e7\u00e3o, na qual as oligarquias agr\u00e1rias emergiam como poder decisivo em rela\u00e7\u00e3o aos militares e outros setores da sociedade.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/05\/7411009-derrotas-poem-governo-a-reboque-do-congresso.html\">Derrotas p\u00f5em governo a reboque do Congresso<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Ao assumir a Presid\u00eancia ap\u00f3s a ren\u00fancia de Deodoro da Fonseca, Floriano governou sob estado de exce\u00e7\u00e3o permanente, enfrentando a Revolta da Armada e a Revolu\u00e7\u00e3o Federalista. Sua lideran\u00e7a, de car\u00e1ter militar e centralizador, apoiava-se mais na for\u00e7a do que na media\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Isso enfraqueceu sua capacidade de construir uma base civil duradoura. Nesse contexto, houve o bloqueio \u00e0s suas indica\u00e7\u00f5es para o Supremo. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1891 previa a participa\u00e7\u00e3o do Senado na aprova\u00e7\u00e3o dos ministros, mas o que se observou foi a crescente capacidade de veto das oligarquias regionais, sobretudo aquelas ligadas \u00e0 economia cafeeira paulista e \u00e0s elites agr\u00e1rias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A elite agr\u00e1ria, organizada em torno de interesses econ\u00f4micos e redes clientelistas, imp\u00f4s limites concretos \u00e0 autoridade presidencial. Ao n\u00e3o conseguir emplacar ministros no Supremo, Floriano viu-se constrangido \u00e0 l\u00f3gica da negocia\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica. A elei\u00e7\u00e3o de Prudente de Moraes consolidou essa mudan\u00e7a. Primeiro presidente civil, Prudente representava a vit\u00f3ria do pacto entre as oligarquias regionais, que estruturariam a chamada &#8220;pol\u00edtica dos governadores&#8221; e o sistema de altern\u00e2ncia entre S\u00e3o Paulo e Minas \u2014 a &#8220;pol\u00edtica do caf\u00e9 com leite&#8221;.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica deixava de ser um projeto militar e passara a ser um arranjo olig\u00e1rquico, baseado no controle do voto, no mandonismo local e na captura das institui\u00e7\u00f5es. Os fundamentos da Rep\u00fablica Velha estavam assentados tamb\u00e9m na media\u00e7\u00e3o do Congresso como espa\u00e7o de barganha entre elites e a subordina\u00e7\u00e3o do Executivo a essas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a. O presidente continuava formalmente poderoso, mas sua autoridade dependia da capacidade de articular interesses dispersos, o que Floriano n\u00e3o sabia fazer.<\/p>\n<p>A crise de 1929 devastou a economia brasileira, baseada no caf\u00e9, ao derrubar os pre\u00e7os internacionais e as exporta\u00e7\u00f5es para os Estados Unidos. Contribuiu para a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que p\u00f4s fim \u00e0 Rep\u00fablica Velha. Com forte apoio militar, Get\u00falio Vargas, ex-ministro da Fazenda e governador do Rio do Grande do Sul, derrubou o governo Washinton Luiz e assumiu o poder.<\/p>\n<p><strong>Correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o da indica\u00e7\u00e3o de um indicado do presidente da Rep\u00fablica ao Supremo n\u00e3o ocorria desde Floriano. A ideia de que \u00e9 fruto de escolha errada e falta de capacidade de articula\u00e7\u00e3o at\u00e9 seria suficiente para explicar os 42 votos contr\u00e1rios, 34 favor\u00e1veis e uma absten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao wx-advogado-geral da Uni\u00e3o Jorge Messias. Mas o que ocorreu vai al\u00e9m da insatisfa\u00e7\u00e3o do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (Uni\u00e3o-AP), que havia sugerido o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para cargo. Lula preferiria que o senador mineiro fosse seu candidato a governador em Minas Gerais, por\u00e9m, agora, n\u00e3o ser\u00e1 nem uma coisa nem outra, at\u00e9 porque n\u00e3o quer.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/05\/7410478-veto-do-senado-a-messias-no-stf-poe-pacheco-na-berlinda.html\"><strong>Veto do Senado a Messias no STF p\u00f5e Pacheco na berlinda<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, a derrubada pelo Congresso, sob comando de Alcolumbre, dos vetos presidenciais ao projeto de lei que diminui as penas de pessoas condenadas pelos atos antidemocr\u00e1ticos de 8 de janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, mostra que h\u00e1 algo mais profundo, assim como ocorreu com Floriano. Na C\u00e2mara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto e 144 a favor, com cinco absten\u00e7\u00f5es. No Senado, foram 49 votos pela rejei\u00e7\u00e3o do veto e 24 contra.<\/p>\n<p>Qualquer nome que seja indicado por Lula antes das elei\u00e7\u00f5es, sem acordo com o Centr\u00e3o, tamb\u00e9m ser\u00e1 derrubado. Se insistir, o presidente passar\u00e1 pelas agruras de Floriano, que teve cinco indicados barrados pelos senadores: o m\u00e9dico C\u00e2ndido Barata Ribeiro, os generais Ewerton Quadros e Dem\u00f3stenes Lobo e os advogados Innoc\u00eancio Galv\u00e3o de Queiroz e Ant\u00f4nio S\u00e8ve Navarro. Guardadas as propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, as duas vota\u00e7\u00f5es revelam uma mudan\u00e7a de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Qualquer iniciativa que n\u00e3o leve isso em conta estar\u00e1 fadada ao fracasso. O chamado &#8220;Centr\u00e3o ampliado&#8221; cumpre, hoje, papel semelhante ao das oligarquias da Primeira Rep\u00fablica: n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a ideologicamente coesa, mas um bloco pragm\u00e1tico, orientado pela l\u00f3gica da sobreviv\u00eancia pol\u00edtica e da maximiza\u00e7\u00e3o de recursos. Apoia o governo enquanto isso lhe for conveniente, mas n\u00e3o hesita em se alinhar \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o quando a expectativa de poder se desloca. Esse deslocamento est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>O Congresso se move n\u00e3o apenas em fun\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio do Planalto, mas das elei\u00e7\u00f5es de 2026. H\u00e1, contudo, uma diferen\u00e7a importante. Na Rep\u00fablica Velha, o poder olig\u00e1rquico se exercia de forma relativamente est\u00e1vel, baseado em estruturas sociais r\u00edgidas e no controle do voto. No Brasil atual, a din\u00e2mica \u00e9 mais fluida, mediada por pesquisas de opini\u00e3o, redes sociais e ciclos eleitorais mais curtos, al\u00e9m de uma derrama de emendas parlamentares impositivas. Ainda assim, o padr\u00e3o se repete: a captura do sistema pol\u00edtico por interesses regionais organizados, em detrimento de projetos nacionais mais amplos.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rejei\u00e7\u00e3o da indica\u00e7\u00e3o de um indicado de Lula ao Supremo n\u00e3o ocorria desde Floriano. 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