{"id":11382,"date":"2026-05-05T11:28:54","date_gmt":"2026-05-05T14:28:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11382"},"modified":"2026-05-05T11:31:15","modified_gmt":"2026-05-05T14:31:15","slug":"as-licoes-do-governo-allende-as-eleicoes-abertas-e-a-solidao-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/as-licoes-do-governo-allende-as-eleicoes-abertas-e-a-solidao-do-poder\/","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es do governo Allende, as elei\u00e7\u00f5es abertas e a solid\u00e3o do poder"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Com a derrota da indica\u00e7\u00e3o de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma s\u00f3 vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, tamb\u00e9m, no Supremo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus Romo, \u00e9 uma obra singular no campo da reflex\u00e3o sobre governo e poder na Am\u00e9rica Latina. Mais do que um manual de gest\u00e3o, \u00e9 um di\u00e1logo dram\u00e1tico entre um presidente fict\u00edcio e seu assessor, no crep\u00fasculo de um governo. Matus nasceu no Chile em 1931. Formou-se, em 1955, na Escola de Economia da Universidade do Chile. Fora assessor do ministro da Fazenda e ministro da Economia do governo de Salvador Allende, de 1971 a 1973, antes de se tornar o maior estudioso latino-americano sobre planejamento de governo e governabilidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sangrento golpe do general Augusto Pinochet, no Chile, em 11 de setembro de 1973, Matus passou dois anos preso nos campos de concentra\u00e7\u00e3o de Isla Dawson e Ritoque. Durante esse per\u00edodo, com base na experi\u00eancia do governo Allende, desenvolveu suas teorias e conceitos sobre planejamento estrat\u00e9gico e gest\u00e3o p\u00fablica. Libertado em 1975, partiu para o ex\u00edlio na Venezuela e buscou responder \u00e0 seguinte pergunta: &#8220;Por que um governo com tanta popularidade e com t\u00e3o boas inten\u00e7\u00f5es caiu de forma t\u00e3o fragorosa, diante de um golpe militar?&#8221;<\/p>\n<p>Matus faleceu em 21 de dezembro de 1998, em Caracas. Sonhava regressar ao Chile. Suas cinzas foram espalhadas em sua casa em Isla Negra, diante do mesmo mar sobre o qual o poeta Pablo Neruda teceu seus poemas e passou seus \u00faltimos dias. O L\u00edder sem estado-maior e Estrat\u00e9gias pol\u00edticas: chimpanz\u00e9, Maquiavel e Gandhi s\u00e3o outras obras do economista chileno conhecidas no Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 um paralelo entre Adeus, senhor presidente e a situa\u00e7\u00e3o do governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. A obra de Matus \u00e9 um balan\u00e7o tardio do poder, feito quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para ilus\u00f5es. O presidente fict\u00edcio descobre, no fim do mandato, que governar n\u00e3o \u00e9 executar um programa, mas administrar conflitos, limita\u00e7\u00f5es e, sobretudo, a perda progressiva de controle sobre a pr\u00f3pria agenda.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos o que acontece com o presidente Lula. Na disputa eleitoral na qual busca a reelei\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o l\u00edder absoluto, mobilizador, capaz de representar grandes esperan\u00e7as, dono da expectativa de poder. \u00c9 um governante em apuros, pressionado por conting\u00eancias que n\u00e3o controla, como a crise do mercado de petr\u00f3leo, provocada pela guerra do Ir\u00e3, e uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as adversa no Congresso e na sociedade, que agora o obrigam a operar no &#8220;modo sobreviv\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/05\/7412423-flavio-bolsonaro-tem-44-e-lula-43-no-2-turno-diz-real-time-big-data.html\"><strong>Fl\u00e1vio Bolsonaro tem 44% e Lula 43% no 2\u00ba turno, diz Real Time Big Data<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Governabilidade depende da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da capacidade administrativa, dizia Matus. Quando essa integra\u00e7\u00e3o falha, o governante passa a ser ref\u00e9m de estruturas que n\u00e3o controla e da avalia\u00e7\u00e3o negativa do governo. No caso de Lula, a rejei\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de um indicado ao Supremo Tribunal Federal, fato sem precedentes desde o s\u00e9culo XIX, sinaliza exatamente isto: o presidente perdeu capacidade de coordena\u00e7\u00e3o sobre a engrenagem central do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Sem respostas<\/strong><\/p>\n<p>Na linguagem de Matus, a agenda governamental est\u00e1 sendo capturada por outros atores. \u00c9 o caso da seguran\u00e7a p\u00fablica e das terras raras, por exemplo. \u00c9 o que tamb\u00e9m pode acontecer com outras bandeiras do governo, como o fim da escala 6 x 1. O presidente fict\u00edcio de Matus percebeu tarde demais que sua a\u00e7\u00e3o foi condicionada por for\u00e7as que subestimou. \u00c9 a situa\u00e7\u00e3o de Lula, principalmente no Congresso. O Senado, sob lideran\u00e7a de Davi Alcolumbre, afirmou-se como poder aut\u00f4nomo e imp\u00f5e limites claros ao Executivo.<\/p>\n<p>Com a derrota da indica\u00e7\u00e3o de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma s\u00f3 vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, tamb\u00e9m, no Supremo Tribunal Federal (STF), devido ao envolvimento de alguns magistrados na disputa. O fato novo n\u00e3o \u00e9 mais a din\u00e2mica das sucessivas pesquisas eleitorais, mas a mudan\u00e7a de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no &#8220;poder instalado&#8221;, a perda de capacidade de coordena\u00e7\u00e3o sobre uma engrenagem central do sistema pol\u00edtico, com a entrada em cena de um Corte cuja din\u00e2mica interna cada vez mais se entrela\u00e7a com interesses pol\u00edticos.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/05\/7412013-gilmar-mendes-cita-crise-de-confianca-e-defende-reforma-no-judiciario.html\"><strong>Gilmar Mendes cita crise de confian\u00e7a e defende reforma no judici\u00e1rio<\/strong><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o componente da solid\u00e3o do poder. Em Adeus, senhor presidente, o governante se v\u00ea isolado no momento decisivo, cercado por assessores, mas sem um verdadeiro &#8220;estado-maior&#8221; capaz de formular e executar estrat\u00e9gias consistentes. \u00c9 prisioneiro de uma &#8220;jaula de cristal&#8221;, na qual s\u00f3 escuta quem est\u00e1 dentro dela, enquanto os que est\u00e3o fora observam o que acontece na sua cozinha, como a &#8220;paparica\u00e7\u00e3o&#8221; dos puxa-sacos e a redu\u00e7\u00e3o do c\u00edrculo decis\u00f3rio. No Pal\u00e1cio do Planalto, hoje, o fen\u00f4meno se repete: quanto mais a crise avan\u00e7a, mais o poder se concentra e, ao mesmo tempo, mais vulner\u00e1vel se torna.<\/p>\n<p>O governo precisa responder a perguntas inc\u00f4modas sobre o que deixou de fazer e o que n\u00e3o deu certo. Quais compromissos foram preservados ou abandonados? Esse balan\u00e7o come\u00e7a a ser antecipado pela conjuntura eleitoral. O elevado endividamento das fam\u00edlias, a press\u00e3o inflacion\u00e1ria recente e a dificuldade de transformar pol\u00edticas p\u00fablicas em percep\u00e7\u00e3o positiva indicam que os resultados concretos n\u00e3o produziram o retorno pol\u00edtico esperado.<\/p>\n<p>E as pesquisas mostram um pa\u00eds fragmentado, com forte tend\u00eancia ao posicionamento &#8220;independente&#8221; dos candidatos nos principais estados, que tangenciam o empate t\u00e9cnico entre Lula e Fl\u00e1vio Bolsonaro no plano nacional. A polariza\u00e7\u00e3o persiste, mas perdeu capacidade de organizar plenamente o sistema pol\u00edtico. \u00c9 como se o eleitorado tivesse abandonado as ilus\u00f5es simplificadoras em rela\u00e7\u00e3o aos dois l\u00edderes da disputa. Nesse sentido, as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o um &#8220;jogo aberto&#8221;, que n\u00e3o segue necessariamente as regras previs\u00edveis do confronto cl\u00e1ssico governo e oposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um terreno muito pantanoso a ser atravessado.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a derrota da indica\u00e7\u00e3o de Jorge Messias ao STF, na semana passada, de uma s\u00f3 vez, o presidente Lula perdeu a blindagem que tinha no Senado e, tamb\u00e9m, no Supremo Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus Romo, \u00e9 uma obra singular no campo da reflex\u00e3o sobre governo e poder na Am\u00e9rica Latina. 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