{"id":11396,"date":"2026-05-08T07:51:38","date_gmt":"2026-05-08T10:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11396"},"modified":"2026-05-08T07:55:00","modified_gmt":"2026-05-08T10:55:00","slug":"a-quimica-entre-lula-e-trump-na-casa-branca-funcionou-mais-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-quimica-entre-lula-e-trump-na-casa-branca-funcionou-mais-uma-vez\/","title":{"rendered":"A &#8220;qu\u00edmica&#8221; entre Lula e Trump na Casa Branca funcionou mais uma vez"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Nem a Casa Branca quis transformar o encontro numa cobran\u00e7a p\u00fablica, nem havia interesse brasileiro em abrir conflitos que comprometessem o simbolismo pol\u00edtico da aproxima\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio glamouroso da Casa Branca, o card\u00e1pio do almo\u00e7o entre o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o presidente Donald Trump foi quase um feij\u00e3o com arroz. Ap\u00f3s a conversa formal entre ambos, os dois almo\u00e7aram salada de alface-romana com jicama (uma esp\u00e9cie de nabo mexicano, antioxidante, rico em vitamina C, E, sel\u00eanio e betacaroteno), gomos de laranja, abacate com molho c\u00edtrico. O prato principal foi bife grelhado com pur\u00ea de feij\u00e3o preto, minipiment\u00f5es doces e relish de rabanete com abacaxi. De sobremesa, p\u00eassegos caramelizados e torta de panna cotta com mel, acompanhados de sorvete de cr\u00e8me fra\u00eeche. Trump dispensou a laranja, como fizera com os temas mais pol\u00eamicos das rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o serve de alegoria do encontro, que marcou uma inflex\u00e3o importante nas tensas rela\u00e7\u00f5es entre a Casa Branca e o governo brasileiro. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, depois de meses de fric\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, agravadas pelo tarifa\u00e7o de 50% sobre produtos brasileiros, pelas san\u00e7\u00f5es contra autoridades nacionais e pela aproxima\u00e7\u00e3o do trumpismo com o bolsonarismo. Com a reuni\u00e3o, por ora, a pol\u00edtica externa voltou ao terreno do pragmatismo. A qu\u00edmica pessoal entre os dois l\u00edderes funcionou melhor do que se imaginava: os temas mais explosivos foram cuidadosamente evitados ou empurrados com a barriga, e o resultado pol\u00edtico foi amplamente favor\u00e1vel ao Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Para Lula, o encontro representou um verdadeiro gol de placa diplom\u00e1tivo, num momento em que o governo enfrenta dificuldades internas, desgaste econ\u00f4mico e forte polariza\u00e7\u00e3o eleitoral. As imagens do presidente brasileiro sorrindo ao lado de Trump, circulando pela Casa Branca e sendo chamado pelo republicano de &#8220;din\u00e2mico&#8221; t\u00eam enorme valor simb\u00f3lico e, certamente, ser\u00e3o usadas durante a campanha eleitoral. O gesto sinaliza que as rela\u00e7\u00f5es entre Bras\u00edlia e Washington podem at\u00e9 melhorar, apesar das diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas evidentes entre os dois governos.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o durou quase tr\u00eas horas, ou seja, foi muito al\u00e9m do previsto, por causa do almo\u00e7o. Esse detalhe foi explorado politicamente por Lula. &#8220;A reuni\u00e3o demorou um pouco mais do que o previsto, certamente porque eu gostei e ele tamb\u00e9m gostou&#8221;, afirmou o presidente brasileiro. Houve descontra\u00e7\u00e3o, brincadeiras sobre a Copa do Mundo, refer\u00eancias \u00e0 &#8220;qu\u00edmica&#8221; entre ambos e at\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de Lula de que a rela\u00e7\u00e3o foi &#8220;amor \u00e0 primeira vista&#8221;. Trump, por sua vez, publicou mensagem elogiosa na Truth Social, destacando que a conversa foi &#8220;muito boa&#8221; e que novas reuni\u00f5es ocorrer\u00e3o nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/05\/7415008-tensao-sobre-tarifas-e-surpresa-em-terras-raras-os-bastidores-da-reuniao-entre-lula-e-trump-na-casa-branca.html\"><strong>\u00a0&#8216;Tens\u00e3o&#8217; sobre tarifas e surpresa em terras raras<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Essa atmosfera n\u00e3o foi casual. A experiente e pragm\u00e1tica diplomacia brasileira trabalhou para evitar armadilhas. O protocolo da Casa Branca, a pedido de Lula, foi alterado para que n\u00e3o houvesse a entrevista coletiva agendada antes do encontro, como \u00e9 de praxe na Casa Branca. Lula preferiu n\u00e3o falar com a imprensa antes da conversa reservada, evitou o risco de constrangimentos p\u00fablicos ou perguntas embara\u00e7osas diante das c\u00e2meras no Sal\u00e3o Oval. A decis\u00e3o impediu que a reuni\u00e3o fosse transformada num espet\u00e1culo de tens\u00e3o, como ocorreu em epis\u00f3dios recentes envolvendo Trump e outros l\u00edderes estrangeiros, em fun\u00e7\u00e3o de eventuais declara\u00e7\u00f5es descontextualizadas.<\/p>\n<p><strong>Fuga para a frente<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista objetivo, por\u00e9m, os temas mais delicados simplesmente n\u00e3o avan\u00e7aram. A classifica\u00e7\u00e3o do PCC e do Comando Vermelho como organiza\u00e7\u00f5es terroristas, assunto muito sens\u00edvel para o governo brasileiro, sequer entrou na pauta. O Pix, alvo de investiga\u00e7\u00e3o comercial americana, tamb\u00e9m foi deixado de lado. Lula admitiu que esperava tratar do tema, mas como Trump &#8220;n\u00e3o tocou no assunto&#8221;, tamb\u00e9m deixou a quest\u00e3o de lado. As elei\u00e7\u00f5es no Brasil foram igualmente escanteadas. Lula fez quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o discutiria apoio pol\u00edtico ou elei\u00e7\u00f5es com qualquer presidente estrangeiro.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados, os assuntos potencialmente explosivos ser\u00e3o administrados por canais diplom\u00e1ticos e t\u00e9cnicos, sem contamina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica direta entre os dois chefes de Estado. Foi uma esp\u00e9cie de acordo t\u00e1cito, pragm\u00e1tico. Nem Trump quis transformar o encontro numa cobran\u00e7a p\u00fablica, nem Lula tinha interesse em abrir conflitos que pudessem comprometer o simbolismo pol\u00edtico da aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Leia mais:<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2026\/05\/7414859-apos-reuniao-de-trump-e-lula-brasil-esta-de-portas-abertas-para-os-eua.html\"><strong>\u00a0Ap\u00f3s reuni\u00e3o de Trump e Lula, Brasil est\u00e1 de portas abertas para os EUA<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O eixo central da conversa acabou sendo com\u00e9rcio, investimentos e seguran\u00e7a. Lula insistiu que os Estados Unidos perderam espa\u00e7o econ\u00f4mico no Brasil para a China porque deixaram de investir na Am\u00e9rica Latina. Ou seja, se Washington quiser recuperar influ\u00eancia estrat\u00e9gica na regi\u00e3o, precisar\u00e1 voltar a disputar projetos, infraestrutura e investimentos reais. Foi uma forma h\u00e1bil de lembrar aos americanos que a presen\u00e7a chinesa no Brasil n\u00e3o decorre de alinhamento ideol\u00f3gico, mas de pragmatismo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>H\u00e1 interesses concretos dos EUA em jogo. O acesso aos minerais cr\u00edticos brasileiros, sobretudo terras raras, \u00e9 uma prioridade estrat\u00e9gica americana na disputa tecnol\u00f3gica e geopol\u00edtica com Pequim. Lula quer explorar isso politicamente, como o presidente Get\u00falio Vargas fez, durante a Segunda Guerra Mundial, ao negociar com americanos e alem\u00e3es, at\u00e9 decidir enviar a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) para a It\u00e1lia, para lutar ao lado dos Aliados, e receber em troca a Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN), em Volta Redonda. O Brasil tratar\u00e1 as terras raras como quest\u00e3o de soberania nacional, por\u00e9m os investidores americanos ser\u00e3o bem-vindos; Lula quer investimentos, tecnologia e agrega\u00e7\u00e3o de valor, sem alinhamentos autom\u00e1ticos nem exclusividade geopol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem a Casa Branca quis transformar o encontro numa cobran\u00e7a p\u00fablica, nem havia interesse brasileiro em abrir conflitos que comprometessem o simbolismo pol\u00edtico da aproxima\u00e7\u00e3o Apesar do cen\u00e1rio glamouroso da Casa Branca, o card\u00e1pio do almo\u00e7o entre o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o presidente Donald Trump foi quase um feij\u00e3o com arroz. 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