{"id":1164,"date":"2016-12-27T07:55:04","date_gmt":"2016-12-27T09:55:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1164"},"modified":"2016-12-27T07:55:04","modified_gmt":"2016-12-27T09:55:04","slug":"nas-entrelinhas-o-democraticidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-democraticidio\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O democratic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><em>Os setores que adotam a narrativa do golpe n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para os riscos de um colapso institucional. Querem apenas desestabilizar o processo<\/em><\/p>\n<p>Um assunto mal resolvido pela esquerda brasileira \u00e9 a quest\u00e3o democr\u00e1tica. Mesmo o falecido Carlos N\u00e9lson Coutinho, autor de a Democracia como valor universal, um dos fundadores do PSol, ficou no meio do caminho quando p\u00f4s um p\u00e9 atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia representativa. \u201cNada disso impede, contudo, que na teoria liberal moderna (que foi inteiramente assimilada pela hodierna social-democracia) se continue a afirmar que democracia \u00e9 sin\u00f4nimo de pluralismo e que a defesa da hegemonia de uma classe ou conjunto de classes \u00e9, por sua pr\u00f3pria natureza, sin\u00f4nimo de totalitarismo e de despotismo. A teoria socialista deve criticar a mistifica\u00e7\u00e3o que se oculta por tr\u00e1s dessa formula\u00e7\u00e3o liberal: deve colocar claramente a quest\u00e3o da hegemonia como quest\u00e3o central de todo poder de Estado.\u201d<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a ess\u00eancia do pensamento dos setores de esquerda que insistem em classificar o impeachment da presidente Dilma Rousseff como um golpe de Estado e, a partir disso, buscam ref\u00fagio pol\u00edtico junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. Pouco importa o que houve de errado, seja na condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica ou nas pol\u00edticas sociais dos governos Lula e Dilma, seja quanto \u00e0 roubalheira inacredit\u00e1vel que se instalou na Petrobras, nos fundos de pens\u00e3o e na administra\u00e7\u00e3o direta. A quest\u00e3o central \u00e9 a luta pelo poder. Fazer autocr\u00edtica dos erros seria \u201cdar muni\u00e7\u00e3o aos golpistas\u201d, ou seja, \u00e0queles que apoiaram o impeachment. Assumir os crimes contra o patrim\u00f4nio p\u00fablico, ent\u00e3o, nem pensar. O que importa \u00e9 passar uma borracha no passado e transformar essa linha divis\u00f3ria numa retinida da boia salva-vidas.<\/p>\n<p>Eis a teoria: \u00e0 democracia liberal, na qual a burguesia disfar\u00e7a sua domina\u00e7\u00e3o por meio do \u201cisolamento\u201d e da \u201cneutralidade\u201d da burocracia estatal, deve se contrapor \u00e0 \u201cdemocracia de massas\u201d, na qual uma nova burocracia, de baixo para cima, exerceria a hegemonia dos trabalhadores, para supera\u00e7\u00e3o efetiva da domina\u00e7\u00e3o de uma restrita oligarquia monopolista. Como se deu na pr\u00e1tica: confer\u00eancias, conselhos e outros instrumentos de participa\u00e7\u00e3o foram instrumentalizados para cooptar os movimentos sociais e legitimar a alian\u00e7a da \u201cnova burocracia\u201d, formada por militantes pol\u00edticos e sindicalistas, com as oligarquias pol\u00edticas e empresas monopolistas, que tomou de assalto as estatais e fundos de pens\u00e3o e construiu um pacto perverso para superfaturar contratos de obras e servi\u00e7os e financiar a reprodu\u00e7\u00e3o da sua hegemonia. Em nenhum lugar do mundo a esquerda praticou uma pol\u00edtica t\u00e3o monopolista, muito menos entregou na bandeja as pol\u00edticas sociais universalistas aos grandes interesses privados, para se locupletar com dinheiro p\u00fablico e sedimentar sua base eleitoral junto aos mais pobres e desorganizados, numa esp\u00e9cie de neopopulismo.<\/p>\n<p><strong>Impeachment<\/strong><br \/>\n\u201cNessa democracia de massas, a dial\u00e9tica do pluralismo \u2014 a autonomia dos sujeitos pol\u00edticos coletivos \u2014 n\u00e3o anula, antes imp\u00f5e, a busca constante da unidade pol\u00edtica, a ser constru\u00edda de baixo para cima, atrav\u00e9s da obten\u00e7\u00e3o do consenso majorit\u00e1rio; e essa unidade democraticamente conquistada ser\u00e1 o ve\u00edculo de express\u00e3o da hegemonia dos trabalhadores\u201d, propugnava Coutinho. Aconteceu o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ocorre, por\u00e9m, que o Brasil j\u00e1 \u00e9 uma democracia de massas, com todos os defeitos que possam existir no nosso sistema eleitoral e partid\u00e1rio. Nosso sistema eleitoral \u00e9 o mais eficiente do mundo, com elei\u00e7\u00f5es livres e \u00e0 prova de fraude, cujos resultados s\u00e3o apurados no mesmo dia da vota\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que os eleitos tenham poderes imperiais, acima da lei. H\u00e1 mecanismos constitucionais para coibir os abusos e apear do poder aqueles que n\u00e3o se conduziram de acordo com as regras do jogo, ou seja, com responsabilidade. O que houve com a presidente Dilma Rousseff em nada foi diferente do que ocorreu com o presidente Collor de Mello. Utilizaram-se os mesmos mecanismos para afast\u00e1-la do poder, por decis\u00e3o do Congresso homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>Michel Temer assumiu o poder porque eleito pelas for\u00e7as que hoje se arrependem de t\u00ea-lo escolhido para vice-presidente da Rep\u00fablica. Era o substituto legal da presidente afastada do poder. N\u00e3o foi a antiga oposi\u00e7\u00e3o que o escolheu, embora agora tenha a obriga\u00e7\u00e3o moral de apoi\u00e1-lo at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2018. Temer assumiu um pa\u00eds arruinado por uma pol\u00edtica econ\u00f4mica desastrosa, comandada por governantes e empres\u00e1rios temer\u00e1rios, que se achavam acima do bem e do mal.<\/p>\n<p>Mas onde est\u00e1 o democratic\u00eddio? Em primeiro lugar, no fato de que o governo Temer responde aos mesmos questionamentos que o governo anterior quanto \u00e0 recess\u00e3o e ao desemprego, embora n\u00e3o seja respons\u00e1vel por isso. Em segundo, porque tamb\u00e9m sofre as consequ\u00eancias da crise \u00e9tica, na medida em que avan\u00e7a a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Terceiro, porque essa situa\u00e7\u00e3o estressa as rela\u00e7\u00f5es entre Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio, que precisam tomar decis\u00f5es complexas e duras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s duas vari\u00e1veis anteriores. Finalmente, porque os setores que adotam a narrativa do golpe n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para os riscos de um colapso institucional. Querem apenas desestabilizar o processo, para n\u00e3o ter que explicar seus pr\u00f3prios erros; em alguns casos, nem pagar pelos crimes que cometeram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os setores que adotam a narrativa do golpe n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para os riscos de um colapso institucional. Querem apenas desestabilizar o processo Um assunto mal resolvido pela esquerda brasileira \u00e9 a quest\u00e3o democr\u00e1tica. 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