{"id":1168,"date":"2016-12-28T07:34:47","date_gmt":"2016-12-28T09:34:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1168"},"modified":"2016-12-28T07:34:47","modified_gmt":"2016-12-28T09:34:47","slug":"nas-entrelinhas-refugios-ideologicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-refugios-ideologicos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Ref\u00fagios ideol\u00f3gicos"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o \u00e9 verdade que lutavam pela democracia. Lutavam para tomar o poder e implantar uma ditadura \u00e0 moda cubana<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 somente a narrativa do golpe que serve de ref\u00fagio para os setores da esquerda ultrapassada que meteu os p\u00e9s pelas m\u00e3os e se lambuzou durante os governos Lula e Dilma. H\u00e1 outros ref\u00fagios ideol\u00f3gicos, como a bandeira do nacionalismo, embora um tanto desmoralizada pelo assalto \u00e0 Petrobras. Curiosamente, essa foi a trincheira da direita mais xen\u00f3foba na Europa desde o fim da Guerra Fria e, agora, mais recentemente, a ess\u00eancia de acontecimentos que colocam em xeque a esquerda mundial. Principalmente dois: a vit\u00f3ria do Brexit na Inglaterra, que est\u00e1 abandonando o projeto da Comunidade Europeia, e a de Donald Trump, nos Estados Unidos, que acaba de anunciar uma nova corrida nuclear.<\/p>\n<p>No Brasil, chegou-se a dizer, no governo Dutra (PSD), que o pa\u00eds n\u00e3o se industrializaria sem a nacionaliza\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro e a reforma agr\u00e1ria. No governo de Juscelino Kubitschek (PSD), eleito a partir de uma alian\u00e7a com trabalhistas e comunistas, aconteceu exatamente o contr\u00e1rio. Anos mais tarde, durante a crise que resultou no golpe militar de 1964, a grande amea\u00e7a \u00e0 hegemonia da esquerda na sucess\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart (PTB), prevista para 1965, n\u00e3o era a candidatura do ent\u00e3o governador da antiga Guanabara, Carlos Lacerda (UDN), mas a volta de Juscelino. Por essa raz\u00e3o, o l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes articulava a reelei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do golpe, as for\u00e7as pol\u00edticas que davam sustenta\u00e7\u00e3o ao governo de Jo\u00e3o Goulart estavam profundamente divididas: de um lado, as que defendiam a \u201cpol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o\u201d do ex-primeiro ministro San Thiago Dantas, deslocadas do eixo do governo desde o plebiscito que p\u00f4s fim ao parlamentarismo; de outro, a chamada \u201cfrente nacionalista\u201d, na qual pontificavam Leonel Brizola (PTB), que defendia a nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas estrangeiras e pleiteava a candidatura \u00e0 Presid\u00eancia \u2014 \u201cCunhado n\u00e3o \u00e9 parente!\u201d \u2014, e Francisco Juli\u00e3o, criador e l\u00edder das Ligas Camponesas, com sua \u201creforma agr\u00e1ria na lei ou na marra.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 meia-verdade a afirma\u00e7\u00e3o de que o golpe militar foi obra do imperialismo ianque, cuja frota estava ao largo da costa brasileira. Sim, em plena Guerra Fria, os Estados Unidos estavam \u00e0 espreita e seus agentes atuaram intensamente ao lado dos golpistas. Mas o marechal Castelo Branco n\u00e3o era um entreguista, era legalista e patriota. \u201cDeu o golpe na nossa frente, porque a posi\u00e7\u00e3o da esquerda era golpista\u201d, disse o \u00faltimo secret\u00e1rio-geral do PCB, Salom\u00e3o Malina. O erro da esquerda em 1964 foi acreditar que a grande amea\u00e7a era Juscelino. E subordinar a quest\u00e3o democr\u00e1tica \u00e0s bandeiras nacionalistas, porque acreditava que a revolu\u00e7\u00e3o era nacional libertadora como nos pa\u00edses que lutavam pela independ\u00eancia do colonialismo.<br \/>\nEsse debate \u00e9 mais atual do que muitos imaginam. Foi ele que dividiu a esquerda ap\u00f3s o golpe de 1964, levando seus setores mais radicais \u00e0 op\u00e7\u00e3o pela guerrilha urbana e rural, uma tr\u00e1gica tolice. Os mesmos setores que viam um agente imperialista em cada esquina acreditavam que seria poss\u00edvel resistir ao golpe militar, caso Jango n\u00e3o tivesse deixado o pa\u00eds. Jamais aceitaram que a derrota estava anunciada, porque a maioria da sociedade j\u00e1 havia derivado para a solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. E subestimaram o fato de que o Ex\u00e9rcito brasileiro foi constitu\u00eddo a partir da defesa da integridade territorial, contra dezenas de rebeli\u00f5es e movimentos insurrecionais.<\/p>\n<p>Sa\u00edda liberal<br \/>\nMesmo assim, anos depois, esses setores optaram pela aventura da luta armada. N\u00e3o \u00e9 verdade que lutavam pela democracia. Lutavam para tomar o poder e implantar uma ditadura \u00e0 moda cubana, a come\u00e7ar pela A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. O que deu certo na luta contra o regime militar foi a defesa das reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, dos direitos sociais e das liberdades pol\u00edticas. As bandeiras da anistia, da liberdade de imprensa e da convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Nacional Constituinte. As Diretas J\u00e1 foram uma inven\u00e7\u00e3o liberal, \u00e0 qual a esquerda aderiu com gosto. Mesmo assim, muitos acreditavam que a queda da ditadura se confundiria com uma revolu\u00e7\u00e3o. A derrota dos militares, por\u00e9m, s\u00f3 veio mesmo com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves (PMDB) no col\u00e9gio eleitoral. Ou seja, a hegemonia da transi\u00e7\u00e3o foi dos pol\u00edticos liberais. Da\u00ed decorre a democracia que temos e na qual precisamos resolver os nossos problemas.<br \/>\nFeliz ano-novo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 verdade que lutavam pela democracia. 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