{"id":1180,"date":"2017-01-04T06:47:25","date_gmt":"2017-01-04T08:47:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1180"},"modified":"2017-01-04T10:40:17","modified_gmt":"2017-01-04T12:40:17","slug":"nas-entrelinhas-os-decapitados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-os-decapitados\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Os decapitados"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma cultura de viol\u00eancia rege a vida do andar de baixo nas favelas e periferias e, de forma concentrada, nos pres\u00eddios<\/em><\/p>\n<p>Cortar cabe\u00e7as e esquartejar advers\u00e1rios no Brasil foi uma pr\u00e1tica corrente nos conflitos sociais e pol\u00edticos. Na Hist\u00f3ria do Brasil, s\u00e3o in\u00fameros os exemplos, a come\u00e7ar pelo massacre dos paulistas por portugueses e baianos no Cap\u00e3o da Trai\u00e7\u00e3o, nas proximidades de Tiradentes (MG), na Guerra dos Emboabas (1707-1709). O pr\u00f3prio alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, nosso m\u00e1rtir da Independ\u00eancia, foi enforcado e esquartejado (21\/4\/1792). Muitas cabe\u00e7as rolaram na Balaiada (1838-1841), no Maranh\u00e3o, e na Cabanagem (1835-1840), no Par\u00e1. Ningu\u00e9m sabe direito o que aconteceu a Solano Lopes e seus \u00faltimos combatentes em Cerro Cor\u00e1. A ira do Conde D\u2019Eu foi implac\u00e1vel no fim da Guerra do Paraguai (1864-1870).<\/p>\n<p>Em Canudos (1896-1897), o coronel Moreira Cesar, her\u00f3i da guerra do Paraguai, foi esquartejado pelos jagun\u00e7os e seus peda\u00e7os pendurados nos galhos. Euclides da Cunha relata no Os Sert\u00f5es o destino dado a Ant\u00f4nio Conselheiro e aos que o acompanharam at\u00e9 a liquida\u00e7\u00e3o do arraial baiano. \u201cAo entardecer, quando ca\u00edram os \u00faltimos defensores, que todos morreram. Eram apenas quatro: um velho, dois homens feitos e uma crian\u00e7a, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.\u201d<\/p>\n<p>Destino n\u00e3o muito diferente teve o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampi\u00e3o, cuja cabe\u00e7a foi cortada, como a de Maria Bonita, sua companheira, e outros cangaceiros do bando, em Angicos, no Sert\u00e3o de Sergipe, em 1938. Acusado de atacar pequenas fazendas e cidades em sete estados al\u00e9m de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, mutila\u00e7\u00f5es, estupros e saques, foi tratado por muitos como uma esp\u00e9cie de Robin Hood do sert\u00e3o brasileiro.<\/p>\n<p>Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulh\u00e3o, que tamb\u00e9m tiveram as cabe\u00e7as arrancadas em vida. Lu\u00eds Pedro, El\u00e9trico, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela foram os demais decapitados. Os corpos mutilados e ensanguentados foram deixados a c\u00e9u aberto, atraindo urubus. As cabe\u00e7as, arrumadas cuidadosamente na escadaria da Prefeitura de Piranhas, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografadas.<\/p>\n<p>Depois, foram levados a Macei\u00f3 e ao Sudeste do Brasil, de onde seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA e, depois, por tr\u00eas d\u00e9cadas, no Museu Antropol\u00f3gico Est\u00e1cio de Lima localizado no pr\u00e9dio do Instituto M\u00e9dico Legal Nina Rodrigues. O enterro dos restos mortais dos cangaceiros s\u00f3 ocorreu depois do Projeto de Lei n\u00ba 2.867, de 24 de maio de 1965, que teve origem nos meios universit\u00e1rios de Bras\u00edlia. As cabe\u00e7as de Lampi\u00e3o e Maria Bonita foram sepultadas em 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram o enterro uma semana depois.<\/p>\n<p><strong>Bandidos<\/strong><br \/>\nA glamouriza\u00e7\u00e3o de Lampi\u00e3o e bando n\u00e3o foi apenas obra da cultura popular. C\u00e2mara Cascudo atribui a ele a autoria de Mulher Rendeira. Foi gra\u00e7as ao premiado filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953, com di\u00e1logos de Raquel de Queiroz, que a fama correu mundo. Chegou \u00e0 academia como um dos personagens estudados pelo historiador brit\u00e2nico Eric Hobsbawn, autor do pol\u00eamico conceito de \u201cbandido social\u201d, claramente inspirado no mito de Robin Hood, ao lado de Salvatore Giuliano (It\u00e1lia), Pancho Vila (M\u00e9xico), Jesse James (Estados Unidos). O estudo foi publicado em livro na d\u00e9cada de 1950, com o t\u00edtulo acima, e j\u00e1 est\u00e1 na quinta edi\u00e7\u00e3o aqui no Brasil (Editora Paz e Terra).<\/p>\n<p>Talvez venha da\u00ed a glamouriza\u00e7\u00e3o da malandragem e de marginais como L\u00facio Fl\u00e1vio, que n\u00e3o se misturava com policiais corruptos: \u201cBandido \u00e9 bandido; pol\u00edcia \u00e9 pol\u00edcia\u201d. \u00c9 nessa categoria romanesca que poderia ser enquadrado Marcinho VP, que inspirou o jornalista Caco Barcellos a escrever o livro Abusado, a hist\u00f3ria do tr\u00e1fico de drogas no Morro Dona Marta, da qual o traficante \u00e9 personagem principal. Uma cultura de viol\u00eancia rege a vida do andar de baixo nas favelas e periferias e, de forma concentrada, nos pres\u00eddios.<\/p>\n<p>Domingo, durante 16 horas de rebeli\u00e3o no maior pres\u00eddio do Amazonas, o Complexo Penitenci\u00e1rio An\u00edsio Jobim, 56 presos foram assassinados, muitos dos quais decapitados; na tarde de segunda, na Unidade Prisional do Puraquequara, mais quatro presos morreram. Retificando: Atribui-se \u00e0 fac\u00e7\u00e3o Fam\u00edlia do Norte, que controla os pres\u00eddios, a ordem para o massacre. V\u00eddeos mostram que os integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) levaram a pior no confronto. Marcos Willians Herbas Camacho, mais conhecido como Marcola (Osasco, 13 de abril de 1968), \u00e9 o l\u00edder do PCC. Comanda com m\u00e3o de ferro uma organiza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 manda na maioria dos pres\u00eddios brasileiros, domina o tr\u00e1fico de drogas em S\u00e3o Paulo e entrou nas favelas do Rio de janeiro. Agora, tenta controlar as fronteiras brasileiras e se internacionalizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma cultura de viol\u00eancia rege a vida do andar de baixo nas favelas e periferias e, de forma concentrada, nos pres\u00eddios Cortar cabe\u00e7as e esquartejar advers\u00e1rios no Brasil foi uma pr\u00e1tica corrente nos conflitos sociais e pol\u00edticos. 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