{"id":122,"date":"2016-02-20T08:12:14","date_gmt":"2016-02-20T10:12:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=122"},"modified":"2016-02-20T22:44:30","modified_gmt":"2016-02-21T00:44:30","slug":"sauva-o-mosquito-e-caixa-dagua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/sauva-o-mosquito-e-caixa-dagua\/","title":{"rendered":"A sa\u00fava, o mosquito e a caixa d&#8217;\u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p><em>M\u00e1rio de Andrade voltou ao tema em Macuna\u00edma e usou a frase \u201cPouca sa\u00fade e muita sa\u00fava, os males do Brasil s\u00e3o\u201d como met\u00e1fora, numa refer\u00eancia \u00e0 formiga, ao descaso com a sa\u00fade p\u00fablica e \u00e0 roubalheira dos pol\u00edticos<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-content\/uploads\/sites\/20\/2016\/02\/Mosquito-da-dengue.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-133 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-content\/uploads\/sites\/20\/2016\/02\/Mosquito-da-dengue-300x225.jpg\" alt=\"Mosquito da dengue\" width=\"300\" height=\"225\"><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 do naturalista franc\u00eas Auguste Saint-Hilaire (1789-1853), no livro Viagem \u00e0 Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, de 1822, a famosa frase \u201cOu o Brasil acaba com a sa\u00fava, ou a sa\u00fava acaba com o Brasil\u201d. Mais&nbsp;tarde M\u00e1rio de Andrade voltou ao tema em Macuna\u00edma e usou a frase \u201c sa\u00fade e muita sa\u00fava, os males do Brasil s\u00e3o\u201d como met\u00e1fora, numa refer\u00eancia \u00e0 formiga, ao descaso com a sa\u00fade p\u00fablica e \u00e0 roubalheira dos pol\u00edticos. Mas foi Monteiro Lobato que a notabilizou, durante o Estado Novo (1937-1945), ao liderar uma campanha contra o atraso generalizado nas zonas rurais de nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Ou o Brasil acaba com a sa\u00fava, ou a sa\u00fava acaba com o Brasil&#8221;, foi o mote&nbsp; da campanha do Minist\u00e9rio da Agricultura na d\u00e9cada de 1940. N\u00e3o aconteceu nem uma coisa nem outra, na guerra entre duas formas de vida organizadas: a dos homens e a das formigas. \u00c9 mais ou menos a mesma situa\u00e7\u00e3o que vamos enfrentar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 campanha contra o <em>Aedes aegypti<\/em>, que a presidente Dilma Rousseff transformou em t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o de seu governo, todo ele mobilizado para uma grande opera\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a ao mosquito por causa da trag\u00e9dia humana que \u00e9 a epidemia de zika virus.<em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Para que a zika ocorra, como a dengue e a chikungunya (febre origin\u00e1ria da Tanz\u00e2nia, que afeta as articula\u00e7\u00f5es), s\u00e3o necess\u00e1rios tr\u00eas componentes: o v\u00edrus que causa a doen\u00e7a, o mosquito, que transmite o v\u00edrus (chamado vetor da doen\u00e7a) e uma pessoa suscept\u00edvel (que nunca teve contato com o sorotipo de v\u00edrus que est\u00e1 sendo transmitido pelo vetor). Tudo indica, embora ainda n\u00e3o esteja plenamente comprovado, que o v\u00edrus se tornou mais agressivo e est\u00e1 provocando, ao infectar mulheres gr\u00e1vidas,&nbsp; grande n\u00famero de casos de beb\u00eas que nascem com microcefalia.<\/p>\n<p>O mosquito f\u00eamea ( apenas as f\u00eameas picam, para amadurecer seus ovos) se torna infectada quando suga o sangue de algu\u00e9m doente, no curto per\u00edodo em que esta pessoa tem v\u00e1rias part\u00edculas do v\u00edrus circulando em seu sangue.&nbsp; Entre 10 e 12 dias depois, as part\u00edculas do v\u00edrus dengue se disseminam pelo organismo do <em>A. aegypti<\/em>, se multiplicam e invadem suas gl\u00e2ndulas salivares: neste momento, o mosquito f\u00eamea se torna infectivo e, somente a partir da\u00ed, poder\u00e1 transmitir o v\u00edrus a outra pessoa.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que pica para sugar o sangue, o Aedes cospe saliva, que tem uma s\u00e9rie de subst\u00e2ncias analg\u00e9sicas e anticoagulantes, que o ajudam a n\u00e3o ser notado e a conseguir sugar o maior volume poss\u00edvel de sangue. Neste processo, as part\u00edculas de v\u00edrus s\u00e3o injetadas na corrente sangu\u00ednea da pessoa, junto com a saliva do mosquito.<\/p>\n<p>Um percentual muito pequeno de <em>A. aegypti<\/em> est\u00e1 infectado com o v\u00edrus dengue, pois nem todas as f\u00eameas picam uma pessoa com o v\u00edrus dengue ou nem todos os mosquitos que picam algu\u00e9m com o v\u00edrus da dengue conseguem sobreviver at\u00e9 o momento em que se tornam infectivos.&nbsp; O esfor\u00e7o das f\u00eameas para sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, por isso, ocorre em dois momentos: para procurar uma fonte de sangue (necess\u00e1rio para amadurecer os ovos) e para depositar seus ovos (que precisam do ambiente aqu\u00e1tico para eclodir e se desenvolver para os est\u00e1gios de larva, pupa e, finalmente, mosquito).<\/p>\n<p>Assim, quanto maior a disponibilidade de locais para que as f\u00eameas depositem seus ovos, maior a chance de ter uma popula\u00e7\u00e3o longeva de mosquitos \u2013 e maior a chance de encontrar mosquitos infectivos, capazes de transmitir a dengue. Em outras palavras, agindo para eliminar os criadouros potenciais do mosquito, estamos dando a melhor contribui\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para colaborar com a diminui\u00e7\u00e3o das epidemias de dengue.<\/p>\n<p><strong>Epidemia<\/strong><\/p>\n<p>Os sanitaristas em geral e o governo em particular sabem de tudo isso, ou seja,&nbsp; que no per\u00edodos das chuvas a infesta\u00e7\u00e3o dos mosquitos em busca da preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie \u00e9 muito maior, pois abundam os dep\u00f3sitos de \u00e1gua parada para a forma\u00e7\u00e3o de criadores dos mosquitos, que v\u00e3o se reproduzir um ano depois. Por isso mesmo, as epidemias s\u00e3o c\u00edclicas e previs\u00edveis, podendo ser combatidas de forma sistem\u00e1tica e com anteced\u00eancia. Mas a elimina\u00e7\u00e3o total dos mosquitos, como j\u00e1 se tentou duas vezes, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel. Ele tem grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, nos per\u00edodos de seca, restam as caixas e reservat\u00f3rios domiciliares d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>As contr\u00e1rio do que acontece na maioria das cidades europeias, por exemplo, &nbsp;onde o abastecimento das resid\u00eancias \u00e9 feito de forma cont\u00ednua e por declividade, a partir de reservat\u00f3rios em pontos elevados, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds da caixa d\u00b4&#8217;\u00e1gua. O sistema de abastecimento \u00e9 feito por bombeamento, de forma descont\u00ednua e obriga os cidad\u00e3os a reservar a \u00e1gua para todo tipo de consumo, o que causa grande desperd\u00edcio e favorece a prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, al\u00e9m do mosquito, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que a campanha feita pelo governo, mobilizando todos os seus recursos humanos, para conscientizar e mobilizar a popula\u00e7\u00e3o contra o mosquito, ou melhor, a mosquita, como diz a presidente Dilma, \u00e9 necess\u00e1ria e ter\u00e1 resultados muito positivos. Mas, infelizmente, n\u00e3o resolver\u00e1 o problema, embora a curva da epidemia, com o fim das chuvas, deixe essa falsa impress\u00e3o. Para isso \u00e9 preciso melhorar o saneamento e produzir vacinas contra as doen\u00e7as. A outra alternativa seria disseminar um mosquito transg\u00eanico, ou seja, geneticamente modificado, j\u00e1 produzido no Brasil e aprovado pela CNTBio, que torna infert\u00e9is as f\u00eameas. Milh\u00f5es deles j\u00e1 est\u00e3o voando em Piracicaba (SP) e Juazeiro (BA), mas h\u00e1 muitas d\u00favidas sobre as consequ\u00eancias que isso pode ter, porque o mosquito pode passar por outra muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para sobreviver. Seu sequenciamento gen\u00e9tico mostrou que o Aedes aegypti&nbsp; surgiu h\u00e1 150 milh\u00f5es de anos, de uma mosca de fruta que sofreu muta\u00e7\u00e3o. \u00c9 t\u00e3o antigo e resistente quanto as formigas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio de Andrade voltou ao tema em Macuna\u00edma e usou a frase \u201cPouca sa\u00fade e muita sa\u00fava, os males do Brasil s\u00e3o\u201d como met\u00e1fora, numa refer\u00eancia \u00e0 formiga, ao descaso com a sa\u00fade p\u00fablica e \u00e0 roubalheira dos pol\u00edticos \u00c9 do naturalista franc\u00eas Auguste Saint-Hilaire (1789-1853), no livro Viagem \u00e0 Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, de 1822, a famosa frase \u201cOu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-122","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=122"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":136,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122\/revisions\/136"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}