{"id":1266,"date":"2017-01-31T09:23:29","date_gmt":"2017-01-31T11:23:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1266"},"modified":"2017-01-31T09:23:29","modified_gmt":"2017-01-31T11:23:29","slug":"nas-entrelinhas-cabeleira-do-zeze","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-cabeleira-do-zeze\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A cabeleira do Zez\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><em>Pode ser t\u00e3o preconceituoso como a velha marchinha de carnaval, mas n\u00e3o d\u00e1 para ignorar a foto sem \u201caplique\u201d do ex-megaempres\u00e1rio Eike Batista<\/em><\/p>\n<p>Um dos maiores sucessos de carnaval de todos os tempos, a marchinha Cabeleira do Zez\u00e9, de Jo\u00e3o Roberto Kelly e Roberto Faissal, \u00e9 uma cr\u00f4nica do seu tempo. Bombou no Baile do Municipal de 1964, no qual a elite carioca se divertia enquanto o pa\u00eds rumava para o golpe militar de 31 de mar\u00e7o, naquele mesmo ano. Nove mil foli\u00f5es se apinhavam no sal\u00e3o, nos camarotes e nas galerias do teatro. O camarote presidencial havia sido cedido para venda pela primeira-dama Tereza Goulart, com renda destinada a caridade.<\/p>\n<p>Nele brilhavam os convidados de Mario Wallace Simonsen, o dono da antiga TV Excelsior: a atriz Elza Martinelli e o ator Alberto Sordi, ambos italianos, e o playboy Porf\u00edrio Rubirosa, o diplomata e jogador de polo dominicano que namorou nove entre as 10 mais famosas atrizes de Hollywood: Dolores del R\u00edo, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Rita Hayworth, Judy Garland, Veronica Lake, Kim Novak, Eva Peron e Zsa Zsa Gabor, sem falar na francesa Danielle Darrieux, bel\u00edssima, com quem se casou.<\/p>\n<p>Isabel Valen\u00e7a, a maior destaque do Salgueiro de todos tempos, mulher do banqueiro de bicho Osmar Valen\u00e7a, vencia o concurso de fantasias mais uma vez, interpretando a Rainha Rita de Vila Rica. No ano anterior, havia deslumbrado a avenida Presidente Vargas com Chica da Silva, personagem principal do enredo de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona que revolucionou os desfiles de escolas de samba.<\/p>\n<p>Mas, no sal\u00e3o, entre os foli\u00f5es, quem brilhava mesmo era a marchinha de Kelly e Faissal: \u201cOlha a cabeleira do Zez\u00e9\/Ser\u00e1 que ele \u00e9?\/Ser\u00e1 que ele \u00e9?\/Ser\u00e1 que ele \u00e9 bossa nova?\/Ser\u00e1 que ele \u00e9 Maom\u00e9?\/Parece que \u00e9 transviado\/Mas isso eu n\u00e3o sei se ele \u00e9.\/Corta o cabelo dele!\/Corta o cabelo dele!\/Corta o cabelo dele!\/Corta o cabelo dele!\u201d. A m\u00fasica havia estourado nas r\u00e1dios, na voz de Jorge Goulart. At\u00e9 o carnaval passado, mais de 50 anos depois, continuava sendo uma das mais tocadas. Neste ano, por\u00e9m, entrou na lista das m\u00fasicas politicamente incorretas dos blocos cariocas, por sua evidente conota\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica.<\/p>\n<p>Como toda marchinha de carnaval, a hist\u00f3ria da m\u00fasica \u00e9 uma cr\u00f4nica do cotidiano. Kelly era frequentador do bar S\u00e3o Jorge, em Copacabana, perto do T\u00fanel Novo. Fez a primeira parte batucando no balc\u00e3o, de goza\u00e7\u00e3o com um gar\u00e7om chamado Z\u00e9 Ant\u00f4nio, que se parecia com um dos Beatles e deixara o cabelo crescer \u00e0 moda da banda inglesa, como muitos jovens daquela \u00e9poca. A letra refletia o choque de comportamentos de ent\u00e3o, em plena revolu\u00e7\u00e3o dos costumes.<\/p>\n<p>A m\u00fasica n\u00e3o tratava de uma cabeleira posti\u00e7a, embora o uso de peruca pelos homens fosse muito mais comum do que se imagina, como at\u00e9 hoje; o chap\u00e9u j\u00e1 estava em desuso. Pode ser t\u00e3o preconceituoso como a velha marchinha de carnaval, mas n\u00e3o d\u00e1 para ignorar a foto sem \u201caplique\u201d do ex-megaempres\u00e1rio Eike Batista, que se entregou \u00e0 Pol\u00edcia Federal. Sua \u00faltima imagem em liberdade foi embarcando de volta ao Brasil, com os cabelos em ordem. A foto no qual aparece com a cabe\u00e7a raspada, por\u00e9m, mostra claramente uma calv\u00edcie acentuada.<\/p>\n<p><strong>Faxina<\/strong><br \/>\nFoi inevit\u00e1vel que o assunto tomasse as redes sociais. O \u201caplique\u201d que usava era quase impercept\u00edvel. Coisa muito fina, que lhe dava a apar\u00eancia de mais jovem e din\u00e2mico, como convinha \u00e0 imagem de empres\u00e1rio audacioso e bem-sucedido, at\u00e9 os neg\u00f3cios entrarem em colapso. A foto \u00e9 o gran finale de uma megafarsa empresarial, na qual Eike Batista chegou a ser relacionado na lista dos 10 maiores bilion\u00e1rios do planeta, gra\u00e7as \u00e0 pol\u00edtica de \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d dos governos Lula e Dilma, financiadas pelo BNDES. Eike foi preso porque omitiu de sua \u201cdela\u00e7\u00e3o premiada\u201d na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato a parceria no caixa dois bilion\u00e1rio do ex-governador fluminense S\u00e9rgio Cabral, flagrado pela Opera\u00e7\u00e3o Efici\u00eancia.<br \/>\nDepois de ser considerado foragido e entrar na lista da Interpol, Eike resolveu voltar ao Brasil e se entregar \u00e0s autoridades, com o claro prop\u00f3sito de \u201cpassar a limpo\u201d suas atividades il\u00edcitas, ou seja, vai contar tudo o que fez, disposto a entregar quem ainda n\u00e3o foi preso. De cabe\u00e7a raspada e uniforme de detento, o ex-magnata foi levado para o Complexo Penitenci\u00e1rio de Bangu 9, como \u00e9 mais conhecida a Cadeia P\u00fablica Bandeira Stampa, na Zona Oeste do Rio. Por n\u00e3o ter curso superior, n\u00e3o pode ir para Bangu 8, onde est\u00e3o os outros envolvidos. Ali n\u00e3o h\u00e1, por\u00e9m, dom\u00ednio de fac\u00e7\u00f5es criminosas, e as celas s\u00e3o ocupadas por apenas seis presos, que trabalham na \u201cfaxina\u201d, ou seja, na limpeza das unidades prisionais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode ser t\u00e3o preconceituoso como a velha marchinha de carnaval, mas n\u00e3o d\u00e1 para ignorar a foto sem \u201caplique\u201d do ex-megaempres\u00e1rio Eike Batista Um dos maiores sucessos de carnaval de todos os tempos, a marchinha Cabeleira do Zez\u00e9, de Jo\u00e3o Roberto Kelly e Roberto Faissal, \u00e9 uma cr\u00f4nica do seu tempo. 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