{"id":1386,"date":"2017-03-10T09:10:38","date_gmt":"2017-03-10T12:10:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1386"},"modified":"2017-03-10T09:10:38","modified_gmt":"2017-03-10T12:10:38","slug":"nas-entrelinhas-ruim-com-ele-pior-sem-ele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-ruim-com-ele-pior-sem-ele\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Ruim com ele, pior sem ele"},"content":{"rendered":"<p><em>Cedo ou tarde, por\u00e9m, ter\u00e1 que haver uma &#8220;concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221; no \u00e2mbito do Congresso<\/em><\/p>\n<p>A fleuma do presidente Michel Temer, num momento em que os pol\u00edticos est\u00e3o \u00e0 beira de um ataque de nervos, inclusive alguns ex-presidentes da Rep\u00fablica, talvez seja a sua maior virtude em meio \u00e0 crise \u00e9tica que atravessa o pa\u00eds. Est\u00e1 convencido de que sua miss\u00e3o \u00e9 aprovar as reformas da Previd\u00eancia e trabalhista, ainda neste ano, e uma simplifica\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria que ponha a economia nos trilhos, al\u00e9m de garantir a governabilidade do pa\u00eds. Temer assimilou a pr\u00f3pria impopularidade, uma heran\u00e7a do governo Dilma, e d\u00e1 mais import\u00e2ncia \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ampla base parlamentar que lhe garante sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, al\u00e9m de uma boa rela\u00e7\u00e3o com o Judici\u00e1rio, do que \u00e0 conquista anabolizada de apoio popular.<\/p>\n<p>O presidente trata a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato como uma conting\u00eancia adversa, com a qual precisa conviver da melhor forma poss\u00edvel, ou seja, cuidando para que o governo funcione em meio aos raios e trovoadas, como um timoneiro amarrado ao leme do barco em plena \u00a0borrasca. \u00c9 a melhor imagem de sua resili\u00eancia para enfrentar a crise \u00e9tica. Al\u00e9m do anteparo constitucional \u2014 como todos os antecessores, n\u00e3o pode ser investigado por fatos anteriores ao exerc\u00edcio do mandato \u2014, confia no casco e arvoredo da embarca\u00e7\u00e3o para chegar ao porto seguro, em 2018.<\/p>\n<p>Faz sentido: para gregos e baianos, mesmo aqueles que gritam \u201cFora, Temer!\u201d e \u201cDiretas J\u00e1\u201d, a verdade nua e crua \u00e9 que o pa\u00eds ingressou num mar proceloso, no qual \u00e9 melhor manter a caravela em capa do que lan\u00e7ar ao mar pequenos botes salva-vidas.<\/p>\n<p>\u00c9 famosa a compara\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica com as nuvens, que mudam de forma cada vez que voc\u00ea olha para elas, cuja autoria \u00e9 atribu\u00edda ao ex-governador mineiro Magalh\u00e3es Pinto, que n\u00e3o era nenhuma raposa pessedista. Era cacique da UDN. \u00c9 mais ou menos o que come\u00e7a a acontecer por causa da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato no Congresso.<\/p>\n<p>O melhor sintoma de que alguma coisa come\u00e7a a ocorrer no ambiente pol\u00edtico \u00e9 a conversa \u201cpoliticamente incorreta\u201d no Piantella entre o presidente do PSDB, A\u00e9cio Neves (MG), e o deputado Chico Alencar (PSol), que chegaram ao consenso, mantendo as velhas diverg\u00eancias, de que \u00e9 preciso uma sa\u00edda pol\u00edtica para a crise que passe pelo Congresso, sem afrontar o Judici\u00e1rio. Mediadores de conflitos chamam a isso de concord\u00e2ncia secund\u00e1ria. No caso, por\u00e9m, trata-se de uma converg\u00eancia essencial. Chico fez autocr\u00edtica pressionado pelas bases de seu partido, mas houve mais sinceridade sua na conversa com o advers\u00e1rio cordial.<\/p>\n<p>Veterano observador da cena pol\u00edtica, o soci\u00f3logo Luiz Werneck Vianna, na semana passada, fez um artigo dos mais argutos sobre os sinais de mudan\u00e7a de clima em meio \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o do debate entre coxinhas e mortadelas nas redes sociais. Destacou a entrevista do senador Humberto Costa (PT-PE) publicada nas p\u00e1ginas amarelas da Veja. Ambos t\u00eam antigas ra\u00edzes pol\u00edticas no antigo Partid\u00e3o. \u201cHoje, o imobilismo imperante na reflex\u00e3o sobre a pol\u00edtica entre os quadros dirigentes do PT, boa parte deles prisioneiros do slogan vazio do \u2018fora Temer\u2019, come\u00e7a a ser contestado, tal como na importante entrevista do senador petista (&#8230;)\u201d<\/p>\n<p>Para Werneck, \u201ca reanima\u00e7\u00e3o do campo reflexivo entre os intelectuais e pol\u00edticos \u00e9 tamb\u00e9m animadora na comunidade dos economistas, envolvida na controv\u00e9rsia suscitada por um dos seus not\u00e1veis, Andr\u00e9 Lara Resende, sobre as complexas rela\u00e7\u00f5es entre pol\u00edticas fiscais e infla\u00e7\u00e3o, em que um dos temas de fundo versa sobre o papel maior ou menor do Estado na economia, uma quest\u00e3o ainda em aberto n\u00e3o apenas entre os especialistas\u201d. O soci\u00f3logo aposta na unidade dos contr\u00e1rios, uma velha lei da dial\u00e9tica, para manter a estabilidade do quadro institucional em meio ao caos pol\u00edtico: \u201cEnquanto esses movimentos n\u00e3o ganham maior vigor, o que importa \u00e9 manter os antagonismos em equil\u00edbrio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sinais contradit\u00f3rios<\/strong><br \/>\nOs sinais subterr\u00e2neos de que o equil\u00edbrio existe v\u00eam dos mais diversos atores, seja a nota de Fernando Henrique Cardoso em defesa de A\u00e9cio Neves ou a arriscada visita de Temer e seus ministros ao Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas, quando dona Marisa Let\u00edcia estava em coma. A prop\u00f3sito, Lula manda sinais contradit\u00f3rios: ao mesmo tempo em que se disp\u00f5e a conversar com ambos, antecipa a pr\u00f3pria candidatura como uma esp\u00e9cie de escudo contra a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>Cedo ou tarde, por\u00e9m, ter\u00e1 que haver uma \u201cconcerta\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edtica no \u00e2mbito do Congresso, porque tanto a situa\u00e7\u00e3o quanto a oposi\u00e7\u00e3o correm o risco de serem tragadas pelas urnas por novos atores pol\u00edticos. As elei\u00e7\u00f5es municipais passadas foram um sinal de alerta de que a sobreviv\u00eancia eleitoral est\u00e1 amea\u00e7ada para os \u201cmalvados\u201d e \u201cbonzinhos\u201d. No di\u00e1logo de A\u00e9cio e Alencar, ambos reivindicam o papel de mocinhos, mas nada acontecer\u00e1 na C\u00e2mara ou no Senado se n\u00e3o houver certo n\u00edvel de acordo com os \u201cbandidos\u201d. Ser\u00e1 assim em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma pol\u00edtica, principalmente quanto ao financiamento eleitoral e ao regime partid\u00e1rio, que est\u00e1 sendo implodido pela Lava-Jato.<\/p>\n<p>Presidente da C\u00e2mara por tr\u00eas mandatos e maior equilibrista da hist\u00f3ria do PMDB, Temer espera a tempestade passar para corrigir o curso for\u00e7ado de quem tem uma s\u00f3 op\u00e7\u00e3o: salvar o barco. O balan\u00e7o de perdas e danos dir\u00e1 o n\u00famero de mortos e feridos e o rumo a tomar em 2018. Isso vale para todos os embarcados. At\u00e9 l\u00e1, Temer espera aprovar as reformas e passar \u00e0 Hist\u00f3ria como um presidente que salvou o pa\u00eds da desordem social e da ruptura institucional. Pode n\u00e3o conseguir, mas ser\u00e1 muito pior se isso n\u00e3o acontecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cedo ou tarde, por\u00e9m, ter\u00e1 que haver uma &#8220;concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221; no \u00e2mbito do Congresso A fleuma do presidente Michel Temer, num momento em que os pol\u00edticos est\u00e3o \u00e0 beira de um ataque de nervos, inclusive alguns ex-presidentes da Rep\u00fablica, talvez seja a sua maior virtude em meio \u00e0 crise \u00e9tica que atravessa o pa\u00eds. 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