{"id":1408,"date":"2017-03-16T09:12:15","date_gmt":"2017-03-16T12:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1408"},"modified":"2017-03-16T09:12:15","modified_gmt":"2017-03-16T12:12:15","slug":"nas-entrelinhas-e-nos-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-e-nos-de-novo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: \u201c\u00c9 n\u00f3s\u201d de novo"},"content":{"rendered":"<p><em>Depois da narrativa do golpe, o PT quer consolidar o discurso da perda dos direitos sociais. \u00c9 uma estrat\u00e9gia para n\u00e3o fazer autocr\u00edtica do pr\u00f3prio fracasso<\/em><\/p>\n<p>O PT voltou \u00e0s ruas ontem contra as reformas da Previd\u00eancia e trabalhista, em manifesta\u00e7\u00f5es organizadas pelas centrais sindicais e outros movimentos sociais. O ponto alto foi a presen\u00e7a do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no palanque armado pela Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) na Avenida Paulista, no centro de S\u00e3o Paulo, para onde conflu\u00edram professores em greve, banc\u00e1rios, metal\u00fargicos e integrantes do movimento dos sem-teto. No Rio de Janeiro, servidores p\u00fablicos estaduais com sal\u00e1rios em atraso e servidores federais encorparam os protestos na Avenida Presidente Vargas, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Central do Brasil.<\/p>\n<p>As duas reformas est\u00e3o sendo exploradas pela c\u00fapula do PT como plataformas de lan\u00e7amento da candidatura do ex-presidente da Rep\u00fablica \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2018, num momento em que a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, com as dela\u00e7\u00f5es premiadas da Odebrecht, jogam na vala comum do esc\u00e2ndalo da Petrobras toda a elite pol\u00edtica do pa\u00eds. O discurso de que todo mundo usava \u201ccaixa dois\u201d ganha foro de verdade absoluta e Lula nada de bra\u00e7ada, fazendo-se de v\u00edtima. A impopularidade de Temer e a fraqueza do governo, com cinco ministros j\u00e1 identificados como arrolados nos pedidos de inqu\u00e9rito, fragilizam o Pal\u00e1cio do Planalto na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>O principal art\u00edfice da reforma da Previd\u00eancia \u00e9 o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que voltou ao governo, apesar de enrolad\u00edssimo na Lava-Jato. Seu \u201cestoicismo\u201d ao reassumir o cargo como quem vai para o sacrif\u00edcio (convalescia de uma cirurgia na pr\u00f3stata) pode estar sendo levado em alta conta no Pal\u00e1cio do Planalto, mas sinaliza para a opini\u00e3o p\u00fablica aquilo que \u00e9 verbalizado pelos sindicalistas que organizam os protestos: os trabalhadores pagar\u00e3o o pato pelos desmantelos dos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 verdade, Padilha conhece o caminho das pedras das vota\u00e7\u00f5es no Congresso e pode ser que realmente consiga manter coesa a base do governo para aprovar as reformas; ao mesmo tempo, por\u00e9m, \u00e9 um alvo fixo para os advers\u00e1rios das mudan\u00e7as no regime de Previd\u00eancia e nas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. O que ter\u00e1 mais peso nas vota\u00e7\u00f5es do Congresso: as verbas e cargos federais ou protestos sindicais? Qualquer observador atento sabe que as reformas ser\u00e3o mitigadas de alguma forma pelo Congresso, que haver\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as no projeto original, para estabelecer o teto das aposentadorias e pens\u00f5es, o tempo de contribui\u00e7\u00e3o e a idade m\u00ednima para aposentadorias do setor p\u00fablico e do setor privado.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a primeira fileira de \u00e1rvores da floresta, que \u00e9 um emaranhado mais complexo, com muita diversidade. Em primeiro lugar, a reforma da Previd\u00eancia \u00e9 uma necessidade. O sistema est\u00e1 \u00e0 beira do colapso, como aconteceu no Rio de Janeiro, por causa das desonera\u00e7\u00f5es fiscais, da roubalheira, da m\u00e1 gest\u00e3o, dos privil\u00e9gios e, principalmente, por causa da mudan\u00e7a de perfil demogr\u00e1fico da popula\u00e7\u00e3o (o xis da quest\u00e3o). Sem desonera\u00e7\u00f5es, roubos e m\u00e1 gest\u00e3o, ainda que se consiga receber o que os sonegadores devem, a Previd\u00eancia n\u00e3o suportar\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o na qual cresce o n\u00famero de aposentados e pensionistas e diminui o n\u00famero dos que contribuem. Ou seja, o sistema perdeu sustentabilidade.<\/p>\n<p><strong>Narrativas<\/strong><br \/>\nOs mesmos sindicatos que fecharam os olhos para a roubalheira na Petrobras e nos fundos de pens\u00e3o (Previ, Petros, Fundef, etc) lideram as mobiliza\u00e7\u00f5es ao lado de sindicatos de professores e servidores p\u00fablicos que obtiveram sucessivos aumentos reais de sal\u00e1rios e ajudaram a quebrar as contas p\u00fablicas em v\u00e1rios estados. Alguns representam pequeno n\u00famero de servidores com grande poder de barganha, por ocuparem posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Todos voltaram \u00e0s ruas para impedir as reformas, gra\u00e7as \u00e0 montanha de dinheiro que arrecadam com o imposto sindical.<\/p>\n<p>Os trabalhadores do setor privado, por\u00e9m, que s\u00e3o a esmagadora maioria, n\u00e3o aderiram ao movimento. Algumas categorias est\u00e3o definhando. Vivem uma realidade completamente diferente. Haja vista os metal\u00fargicos do setor automotivo, cujas f\u00e1bricas est\u00e3o sendo completamente robotizadas. O desemprego afasta qualquer possibilidade de greve; o pe\u00e3o n\u00e3o tem a mamata de ficar dias e dias parado e receber os sal\u00e1rios sem desconto. Vive no andar de baixo e n\u00e3o frequentam a casa grande.<\/p>\n<p>Depois da narrativa do golpe, o PT quer consolidar o discurso da perda dos direitos sociais. \u00c9 uma estrat\u00e9gia para n\u00e3o fazer autocr\u00edtica ao pr\u00f3prio fracasso. Um grande biombo para n\u00e3o reconhecer a forma como se beneficiou do status quo durante 12 anos. E n\u00e3o fazer autocr\u00edtica do seu pr\u00f3prio transformismo, ao se alinhar \u00e0s for\u00e7as que agora s\u00e3o hegem\u00f4nicas no poder, nas elei\u00e7\u00f5es de 2010 e 2014. \u00c9 uma estrat\u00e9gia inteligente, mas falsa. Porque aposta num projeto historicamente derrotado, cujo eixo \u2014 a antiglobaliza\u00e7\u00e3o e o nacional desenvolvimentismo \u2014, ironicamente, coincide com a pol\u00edtica esdr\u00faxula do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da direita xen\u00f3foba da Europa.<\/p>\n<p>O grande problema do Brasil \u00e9 chegar a 2018. \u00c9 o que fazer depois, quando o pa\u00eds precisar\u00e1 encontrar o caminho de desenvolvimento sustent\u00e1vel e da renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Os protestos de ontem \u00a0reproduzem dogmas e palavras de ordem dos anos 1960. Ideias mortas h\u00e1 mais de 50 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois da narrativa do golpe, o PT quer consolidar o discurso da perda dos direitos sociais. \u00c9 uma estrat\u00e9gia para n\u00e3o fazer autocr\u00edtica do pr\u00f3prio fracasso O PT voltou \u00e0s ruas ontem contra as reformas da Previd\u00eancia e trabalhista, em manifesta\u00e7\u00f5es organizadas pelas centrais sindicais e outros movimentos sociais. 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