{"id":1416,"date":"2017-03-19T07:25:31","date_gmt":"2017-03-19T10:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1416"},"modified":"2017-03-19T07:29:28","modified_gmt":"2017-03-19T10:29:28","slug":"nas-entrelinhas-esquinas-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-esquinas-do-brasil\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Esquinas do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o h\u00e1 como retomar o crescimento com infla\u00e7\u00e3o controlada e justi\u00e7a social sem enfrentar os problemas do gasto p\u00fablico e da Previd\u00eancia<\/em><\/p>\n<p>Cidade parque, conceito adotado por L\u00facio Costa, cujo projeto urban\u00edstico completou 60 anos, Bras\u00edlia n\u00e3o tem esquinas, queixam-se os forasteiros que chegam por aqui. Em compensa\u00e7\u00e3o, na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, n\u00e3o faltam encruzilhadas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do pa\u00eds. Tem a esquina da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato (anistia ou n\u00e3o para o caixa dois eleitoral), da reforma pol\u00edtica (voto uninominal ou voto em lista), do julgamento da chapa Dilma Rousseff- Michel Temer (separa ou n\u00e3o separa as contas de campanha), das reformas da Previd\u00eancia e trabalhista (faz agora ou deixa pra depois) e da taxa juros (reduz devagar ou acelera), s\u00f3 para citar as mais pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Todas est\u00e3o associadas a escolhas estrat\u00e9gicas dos governantes, tanto \u00e0quelas que j\u00e1 foram feitas ou quanto \u00e0s que foram empurradas com a barriga. No primeiro caso, por exemplo, est\u00e3o o caixa dois eleitoral, o julgamento das contas de campanha e a redu\u00e7\u00e3o da taxa de juros; no segundo, as reformas pol\u00edtica, trabalhista e da Previd\u00eancia. Escolhas sempre representam perdas, porque \u00e9 preciso abrir m\u00e3o de alguma coisa para obter algo em troca. A escolha errada \u00e9 resultado da rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio. O pa\u00eds est\u00e1 pagando alto pre\u00e7o pelas escolhas feitas pelos governos Lula e Dilma. Muitos dir\u00e3o que nossos problemas s\u00e3o seculares; por que, ent\u00e3o, culpam o governo Temer? Realmente, h\u00e1 muitas maneiras de olhar o passado.<\/p>\n<p>Um diagn\u00f3stico preciso ajuda a acertar nas decis\u00f5es estrat\u00e9gicas. Via de regra, por\u00e9m, nas situa\u00e7\u00f5es novas, a intui\u00e7\u00e3o, o bom senso e as solu\u00e7\u00f5es criativas colhem resultados melhores do que se imagina, mesmo com diagn\u00f3stico prec\u00e1rio. Os economistas brasileiros est\u00e3o se digladiando nos diagn\u00f3sticos, em busca de solu\u00e7\u00f5es para velhos problemas. O ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, por exemplo, avalia que o Brasil n\u00e3o tem como retomar o crescimento com infla\u00e7\u00e3o controlada e justi\u00e7a social sem enfrentar os problemas da conten\u00e7\u00e3o do gasto p\u00fablico e da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo ele, o pa\u00eds passou por tr\u00eas grandes transforma\u00e7\u00f5es que pressionam os gastos p\u00fablicos. A primeira foi a urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada (incha\u00e7o das cidades) e a mudan\u00e7a de perfil demogr\u00e1fico (redu\u00e7\u00e3o da taxa de natalidade e aumento da longevidade); a segunda, a car\u00eancia de infraestrutura f\u00edsica (transporte, energia, portos, saneamento); a terceira, a falta de \u201cinfraestrutura humana\u201d (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a) e a desigualdade (distribui\u00e7\u00e3o de renda e de oportunidades). Governos democr\u00e1ticos (de 1946-1964 e de 1985 ao presente) ou centralizadores e autorit\u00e1rios (de 1937-1945 e 1964-1985) foram contingenciados por essas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 a terceira maior democracia de massas do mundo, ap\u00f3s a \u00cdndia e os EUA; o quinto pa\u00eds em popula\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o territorial; e o terceiro em aumento da popula\u00e7\u00e3o urbana. Destaca Malan: \u201cEnquanto nossa popula\u00e7\u00e3o total aumentou cerca de quatro vezes entre 1950 e 2017 (de 51,9 milh\u00f5es para 207,6 milh\u00f5es estimados), a nossa popula\u00e7\u00e3o urbana passou de 36% do total em 1950, para cerca de 86% em 2017 (isto \u00e9, de 18,7 milh\u00f5es para 178 milh\u00f5es, um aumento de 9,5 vezes). Nem nos EUA o aumento absoluto da popula\u00e7\u00e3o urbana no per\u00edodo chegou aos nossos 160 milh\u00f5es no per\u00edodo. Nem as popula\u00e7\u00f5es urbanas da China e da \u00cdndia no per\u00edodo se multiplicaram 9,5 vezes.\u201d<\/p>\n<p><strong>Velhice<\/strong><br \/>\nEm contrapartida, no espa\u00e7o de uma gera\u00e7\u00e3o, a taxa de natalidade caiu abruptamente e a expectativa de vida aumentou: \u201cDe taxas de crescimento que chegaram a superar os 3% ao ano nos anos 50 e 60 (m\u00e9dia de 2,8% ao ano entre 1950 e 1980) passamos hoje, em 2017, a uma taxa de crescimento populacional da ordem de 0,77% e declinar\u00e1 para menos de 0,4% na segunda metade da pr\u00f3xima d\u00e9cada\u201d. Com 207,6 milh\u00f5es de habitantes, o Brasil chegar\u00e1 aos 218 milh\u00f5es por volta de 2025, alcan\u00e7ar\u00e1 seu ponto m\u00e1ximo de pouco mais de 228 milh\u00f5es no in\u00edcio dos anos 2040 e come\u00e7ar\u00e1 a declinar, voltando aos 218 milh\u00f5es em 2060. A partir de 2050, s\u00f3 a faixa et\u00e1ria dos 60 anos de idade ou mais crescer\u00e1.<\/p>\n<p>Malan faz proje\u00e7\u00f5es: A expectativa de vida ao nascer de um brasileiro em meados na d\u00e9cada dos 1940 era da ordem de 45 anos. Hoje, ao nascer, \u00e9 de mais de 75 anos (79 para mulheres e 72 para homens). Mas para quem chega aos 55 anos (pr\u00f3ximo da idade m\u00e9dia de quem se aposenta por tempo de contribui\u00e7\u00e3o), a expectativa de vida \u00e9 de 81 anos, ou seja, 26 anos a mais. Para quem chega aos 65 anos, a expectativa \u00e9 de 82 anos para homens e 85 para mulheres. Hoje, os idosos s\u00e3o 12 entre cada 100 trabalhadores. Na pr\u00f3xima d\u00e9cada, 18 para cada 100; em 2050, ser\u00e3o 30% da popula\u00e7\u00e3o. Em 2060, os idosos representar\u00e3o cerca de 45% do total. Quem ser\u00e3o? Os que hoje t\u00eam mais de 12 anos, se considerarmos a idade m\u00ednima para aposentadoria proposta pela reforma de Previd\u00eancia. Esse \u00e9 apenas um dos grandes problemas estruturais do pa\u00eds, que envelheceu sem enriquecer.<\/p>\n<p>Malan \u00e9 um economista, digamos, social liberal. \u00c9 acusado de ser neoliberal por economistas que se consideram herdeiros de Celso Furtado e In\u00e1cio Rangel, que viam a infla\u00e7\u00e3o com certa benevol\u00eancia, como Bresser Pereira, e querem for\u00e7ar a retomada do crescimento a taxas elevadas. Essa foi a l\u00f3gica do Plano Cruzado, no governo Sarney. A revista The Economist mostra o Brasil na capa de sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o como um dos bal\u00f5es que sobem na economia mundial em recupera\u00e7\u00e3o, ao lado dos Estados Unidos, Uni\u00e3o Europeia, China, Reino Unido, Jap\u00e3o e \u00cdndia. \u201cMesmo em lugares afeitos \u00e0 recess\u00e3o (nosso caso), o pior j\u00e1 passou\u201d, avalia. Tem gente que acha pouco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 como retomar o crescimento com infla\u00e7\u00e3o controlada e justi\u00e7a social sem enfrentar os problemas do gasto p\u00fablico e da Previd\u00eancia Cidade parque, conceito adotado por L\u00facio Costa, cujo projeto urban\u00edstico completou 60 anos, Bras\u00edlia n\u00e3o tem esquinas, queixam-se os forasteiros que chegam por aqui. 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