{"id":1443,"date":"2017-03-29T08:24:46","date_gmt":"2017-03-29T11:24:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1443"},"modified":"2017-03-29T08:24:46","modified_gmt":"2017-03-29T11:24:46","slug":"nas-entrelinhas-um-teste-de-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-um-teste-de-forca\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Um teste de for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>Somente um governo eleito com esse programa poderia fazer reformas profundas. Temer ter\u00e1 que faz\u00ea-las de forma mitigada, legitimado apenas pela recess\u00e3o e pelo desemprego<\/em><\/p>\n<p>O governo Temer \u00e9 liberal e reformista, mas vive a contradi\u00e7\u00e3o de ser de transi\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0 maior recess\u00e3o da hist\u00f3ria republicana, uma crise \u00e9tica que amea\u00e7a lev\u00e1-lo de rold\u00e3o com a elite pol\u00edtica do pa\u00eds e o colapso do capitalismo de Estado brasileiro, cujo \u00faltimo lance foi esse esc\u00e2ndalo da carne. Quis a Fortuna que o Brasil n\u00e3o tivesse at\u00e9 agora um governo liberal. Houve duas oportunidades hist\u00f3ricas, mas ambas foram abortadas.<\/p>\n<p>A primeira foi o governo de Sarney, vice como Temer, que n\u00e3o fez o que faria Tancredo Neves, que morreu \u00e0s v\u00e9speras da posse. Foi contingenciado por Ulysses Guimar\u00e3es \u00e0 frente da Constituinte. Do entulho autorit\u00e1rio do regime militar, ainda restaram a estrutura vertical do nosso Estado positivista, a forte presen\u00e7a estatal no setor produtivo e corpora\u00e7\u00f5es poderosas na administra\u00e7\u00e3o federal, que se reproduzem nos estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>A segunda oportunidade perdida foi o brev\u00edssimo governo Collor, eleito com o forte discurso liberal, mas que se embriagou com o poder e trope\u00e7ou nas pr\u00f3prias pernas, em meio a um esc\u00e2ndalo envolvendo o tesoureiro de campanha e um caixa dois que, resguardada as propor\u00e7\u00f5es, parece at\u00e9 cofre de porquinho diante do petrol\u00e3o e outros esc\u00e2ndalos sob investiga\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Legou ao pa\u00eds, por\u00e9m, a abertura da economia para a globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo de Fernando Henrique Cardoso, um social-democrata, foi reformista, com uma equipe econ\u00f4mica social-liberal, em permanente conflito com a ala desenvolvimentista do PSDB. Todo seu esfor\u00e7o foi focado no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, no equil\u00edbrio fiscal, na reforma patrimonial do Estado em crise de financiamento e no desmonte de um setor produtivo estatal que havia se tornado anacr\u00f4nico e deficit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para a esquerda brasileira, liberal \u00e9 sin\u00f4nimo de tudo o que pode haver de ruim na pol\u00edtica. Para a opini\u00e3o p\u00fablica, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a esquerda que virou palavr\u00e3o, tamanho o desastre causado pelos governos Lula e, principalmente, Dilma. Esse ambiente \u00e9 prop\u00edcio \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de medidas reformistas, para reduzir o tamanho do Estado, como as concess\u00f5es de aeroportos, portos, ferrovias etc. E tamb\u00e9m de austeridade, como a nova regra do teto dos gastos p\u00fablicos aprovada pelo Congresso.<\/p>\n<p>O atual governo ousou pouco do ponto de vista do enxugamento da m\u00e1quina administrativa. Por duas raz\u00f5es: de um lado, foi loteado entre os partidos da antiga base governista que haviam se descolado do governo Dilma, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio PMDB, e os partidos de oposi\u00e7\u00e3o, principalmente PSDB, DEM, PSB e PPS, que lideraram a luta pelo impeachment de Dilma; de outro, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, em raz\u00e3o da recess\u00e3o, temia que um ajuste forte nos gastos p\u00fablicos levasse a economia ao colapso e decidiu faz\u00ea-lo a m\u00e9dio e longo prazos, o que n\u00e3o foi suficiente para evitar o rombo atual nas contas p\u00fablicas em raz\u00e3o da queda de arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo agora est\u00e1 diante de uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, na qual tem que fazer cortes nos gastos p\u00fablicos, com impacto nas pol\u00edticas sociais, e aumentar impostos, agravando atividades produtivas, para manter o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas. Ao mesmo tempo, precisa realizar reformas na Previd\u00eancia, na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e no sistema tribut\u00e1rio. Somente um governo eleito com esse programa poderia fazer reformas profundas. Temer ter\u00e1 que faz\u00ea-las de forma mitigada, legitimado apenas pela necessidade de salvar o pa\u00eds de mais recess\u00e3o e desemprego.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o basta a vontade do presidente da Rep\u00fablica de passar \u00e0 Hist\u00f3ria como grande reformista. H\u00e1 que se ter uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel tanto no Congresso quanto na sociedade. Em ano pr\u00e9-eleitoral, nada passa no parlamento sem apoio da opini\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o se trata da popularidade de Temer, mas do apoio social ao que est\u00e1 sendo feito para o bem comum. O primeiro teste do governo quanto a isso foi a aprova\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o pela C\u00e2mara, que vai \u00e0 san\u00e7\u00e3o presidencial. Parece um assunto resolvido, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Greve geral<\/strong><br \/>\nA vota\u00e7\u00e3o dividiu a base do governo, inclusive o PMDB, e colocou em xeque as demais reformas, principalmente a reforma da Previd\u00eancia, que enfrenta uma ampla coaliz\u00e3o contr\u00e1ria. Temer pode sancionar sem emendas o projeto, como querem os representantes do empresariado que apoiam o governo, mas a contrapartida \u00e9 a unifica\u00e7\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento sindical e sua instrumentaliza\u00e7\u00e3o pelo ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Essa \u00e9 a praia do PT.<\/p>\n<p>Uma greve geral est\u00e1 sendo organizada para 28 de abril, o que pode ser um teste de for\u00e7a. Com o desemprego em massa, dificilmente uma greve geral, mesmo que por tempo determinado, ter\u00e1 ades\u00e3o maci\u00e7a dos trabalhadores empregados no setor privado, mas h\u00e1 os funcion\u00e1rios p\u00fablicos e os empregados de estatais, e uma massa de desempregados, sem-teto e sem-terra que est\u00e3o sendo mobilizados. O PT parece renascer das cinzas da Lava-Jato. De volta \u00e0s ruas, agita as velhas bandeiras vermelhas contra as reformas.<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o desregulamenta a velha CLT da Era Vargas. Discute-se a aprova\u00e7\u00e3o de uma nova lei, complementar, no Senado, para garantir alguns dos direitos trabalhistas e evitar a \u201cprecariza\u00e7\u00e3o\u201d do trabalho assalariado. O governo n\u00e3o deve vetar o projeto aprovado na C\u00e2mara, mas na \u00e1rea econ\u00f4mica a \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 vista como um tiro no p\u00e9 da arrecada\u00e7\u00e3o, com impacto direto na Previd\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser um governo de transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somente um governo eleito com esse programa poderia fazer reformas profundas. 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