{"id":1476,"date":"2017-04-09T08:34:40","date_gmt":"2017-04-09T11:34:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1476"},"modified":"2017-04-09T09:38:32","modified_gmt":"2017-04-09T12:38:32","slug":"nas-entrelinhas-quem-perdeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-quem-perdeu\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Quem perdeu?"},"content":{"rendered":"<p><em>O governo e a oposi\u00e7\u00e3o, o Congresso e os partidos pol\u00edticos, talvez boa parte dos governos estaduais, ca\u00edram no descr\u00e9dito popular<\/em><\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos formada na Segunda Rep\u00fablica (1945-1964) foi derrotada pela radicaliza\u00e7\u00e3o que a Guerra Fria fomentou numa sucess\u00e3o de crises antecedentes ao golpe militar de 1964, que dep\u00f4s o presidente Jo\u00e3o Goulart. As principais ocorreram em 1954 (suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas), 1956 (posse de Juscelino Kubitschek) e 1961(ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros). Sucumbiram no processo quase todos os protagonistas, com exce\u00e7\u00e3o de Leonel Brizola, o incendi\u00e1rio, que ap\u00f3s a anistia elegeu-se governador do Rio de Janeiro, em 1982, e Tancredo Neves, o bombeiro, que elegeu-se presidente em 1985, mas n\u00e3o chegou a tomar posse. Jos\u00e9 Sarney, o vice que assumiu a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, e Ulysses Guimar\u00e3es, o grande l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o que presidiu a Constituinte eleita em 1986, eram pol\u00edticos coadjuvantes no pr\u00e9-64.<\/p>\n<p>Do legado da gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos que emergiu do regime militar, quase tudo foi volatilizado pela crise atual. Individualmente, \u00e9 dif\u00edcil reconhecer o pr\u00f3prio fracasso, mas, diante das revela\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e do buraco em que nos metemos, fica evidente o fracasso de uma gera\u00e7\u00e3o. O governo e a oposi\u00e7\u00e3o, o Congresso e os partidos pol\u00edticos, talvez boa parte dos governos estaduais, ca\u00edram no descr\u00e9dito popular. Como negar esse fracasso a 13 milh\u00f5es de desempregados, outros tantos que vivem da economia informal, aos milh\u00f5es de jovens sem perspectiva de emprego futuro \u2014 boa parte j\u00e1 fora da escola. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, uma gera\u00e7\u00e3o entregar\u00e1 o pa\u00eds em condi\u00e7\u00f5es piores do que o recebeu.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa a situa\u00e7\u00e3o de esgar\u00e7amento social existente, que favorece a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A Guerra Fria j\u00e1 n\u00e3o existe, mas o clima \u00e9 de guerra quente por causa da crise na S\u00edria. O pa\u00eds perdeu o consenso em torno de algumas ideias que balizaram a transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia. Durante a Constituinte, havia grandes consensos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica externa, ao modelo industrial, ao acesso universal \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, ao regime tribut\u00e1rio, ao sistema partid\u00e1rio, ao sistema eleitoral, \u00e0s quest\u00f5es agr\u00e1ria e ind\u00edgena etc.<\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es extremas em rela\u00e7\u00e3o a tudo isso estavam isoladas.Trinta anos depois, n\u00e3o h\u00e1 mais consenso sobre nada. O nosso Estado de direito democr\u00e1tico sustenta-se no que est\u00e1 escrito na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e n\u00e3o no amplo entendimento sobre a realidade social, para onde e como o pa\u00eds deve caminhar. Os indicadores de viol\u00eancia s\u00e3o um fator perturbador de que a conviv\u00eancia social \u00e9 muito fr\u00e1gil, basta tirar a pol\u00edcia da rua \u2014 ou dos est\u00e1dios \u2014 para emergir a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Quando se ouve a voz da maioria dos pol\u00edticos, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que est\u00e3o repetindo os mesmos discursos h\u00e1 30 anos. O que predomina no debate pol\u00edtico s\u00e3o vis\u00f5es ideol\u00f3gicas, incapazes de abrir caminhos para o enfrentamento da crise atual, porque refletem de forma distorcida as reais contradi\u00e7\u00f5es da sociedade. Ou, simplesmente, s\u00e3o carapa\u00e7as pol\u00edticas nas quais se escondem, sem acreditar nas pr\u00f3prias palavras. \u00c9 imposs\u00edvel construir novos consensos quando n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo e abertura para dar vaz\u00e3o ao novo.<\/p>\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><br \/>\nUm dos efeitos colaterais da reelei\u00e7\u00e3o de presidentes, governadores e prefeitos foi empurrar a fila para tr\u00e1s. Quando se compara nossas lideran\u00e7as com as de outras na\u00e7\u00f5es \u2014 basta assistir aos telejornais \u2014, \u00e9 flagrante a diferen\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se formou ainda uma nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes. Nossos principais pol\u00edticos s\u00e3o os mesmos desde a Constituinte, com raras exce\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o foram capaze at\u00e9 agora de construir novos consensos em torno de ideias b\u00e1sicas que promovam o crescimento, combatam os privil\u00e9gios, reduzam as desigualdades, enfrentem seculares iniquidades sociais, como o analfabetismo, a falta de moradia e a discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Essa dificuldade \u00e9 maior porque muitas das ideias da nossa elite pol\u00edtica est\u00e3o sendo atropeladas pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a economia do conhecimento. O mais dram\u00e1tico nesse aspecto \u00e9 que a nova gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos est\u00e1 numa gesta\u00e7\u00e3o de risco, muitos dos quais j\u00e1 condenados \u00e0s ideias anacr\u00f4nicas. Assim como ficamos de fora das tr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es industriais, fomos exclu\u00eddos da quarta. O lugar cativo do Brasil na nova divis\u00e3o internacional do trabalho \u00e9 exportar alimentos in natura e granulados de min\u00e9rio. Se quisermos realmente ser mais do que isso, utilizando o potencial que temos, o pa\u00eds ter\u00e1 que se reinventar sob v\u00e1rios aspectos, a come\u00e7ar pelo Estado. \u00c9 a\u00ed que est\u00e1 instalado o maior conflito.<\/p>\n<p>O Estado no Brasil \u00e9 anterior \u00e0 na\u00e7\u00e3o. Foi o guardi\u00e3o da escravatura at\u00e9 1888. A partir de 1930, transformou-se na alavanca da industrializa\u00e7\u00e3o. A forma mais r\u00e1pida e lucrativa de reprodu\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de capital no Brasil \u00e9 a transfer\u00eancia de renda do Estado para o setor privado, desde sempre. Sua reforma pressup\u00f5e a reinven\u00e7\u00e3o do capitalismo no pa\u00eds. Esse talvez seja o grande bus\u00edlis do novo consenso a ser constru\u00eddo. J\u00e1 existe uma opini\u00e3o p\u00fablica majoritariamente engajada na ideia de que os grandes interesses privados precisam ser apartados dos mecanismos de decis\u00e3o do Estado, mas como traduzir isso na pol\u00edtica? Sem os pol\u00edticos e o Congresso, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo e a oposi\u00e7\u00e3o, o Congresso e os partidos pol\u00edticos, talvez boa parte dos governos estaduais, ca\u00edram no descr\u00e9dito popular A gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos formada na Segunda Rep\u00fablica (1945-1964) foi derrotada pela radicaliza\u00e7\u00e3o que a Guerra Fria fomentou numa sucess\u00e3o de crises antecedentes ao golpe militar de 1964, que dep\u00f4s o presidente Jo\u00e3o Goulart. 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