{"id":1500,"date":"2017-04-16T06:47:49","date_gmt":"2017-04-16T09:47:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1500"},"modified":"2017-04-16T06:47:49","modified_gmt":"2017-04-16T09:47:49","slug":"nas-entrelinhas-peste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-peste\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A peste"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 inevit\u00e1vel uma analogia com a situa\u00e7\u00e3o que o nosso pa\u00eds est\u00e1 vivendo<\/em><\/p>\n<p>Obra prima do escritor e fil\u00f3sofo franco argelino Albert Camus, o romance A Peste, publicado em 1947, conta a hist\u00f3ria de uma epidemia que assola Oran, pequena cidade argelina, cujos habitantes levam uma vida mon\u00f3tona at\u00e9 o flagelo dizimar consider\u00e1vel porcentagem da popula\u00e7\u00e3o. O livro \u00e9 uma alegoria da ocupa\u00e7\u00e3o nazista e do colaboracionismo na Fran\u00e7a durante a guerra, que causou grande pol\u00eamica entre os intelectuais franceses na d\u00e9cada de 1940. O autor foi agraciado com Premio Nobel de Literatura em 1957. Morreu em 1960, aos 47 anos, em um desastre de autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>A peste bub\u00f4nica, uma zoonose causada pela bact\u00e9ria Yersinia pestis, \u00e9 transmitida ao ser humano pelas pulgas dos ratos pretos. A bact\u00e9ria entra por meio de invis\u00edveis quebras na integridade da pele, espalhando-se para os g\u00e2nglios linf\u00e1ticos, onde se multiplica. Em poucos dias surge febre alta, mal-estar gastrintestinal e g\u00e2nglios linf\u00e1ticos hemorr\u00e1gicos e edemaciados devido \u00e0 infec\u00e7\u00e3o. Formam manchas-se escuras na pele e as bact\u00e9rias invadem a corrente sangu\u00ednea, onde se multiplicam, causando hemorragias s\u00e9pticas em v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>\u201cNa manh\u00e3 do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux saiu do consult\u00f3rio e trope\u00e7ou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar aten\u00e7\u00e3o e desceu a escada\u201d \u2014 assim come\u00e7a a narrativa da invas\u00e3o que quebrou a monotonia da pequena cidade. \u201cFoi mais ou menos nessa \u00e9poca que nossos concidad\u00e3os come\u00e7aram a inquietar-se com o caso, pois, a partir do dia 18, as f\u00e1bricas e os dep\u00f3sitos vomitaram centenas de cad\u00e1veres de ratos. Em alguns casos, foi necess\u00e1rio acabar de matar os bichos, pois a agonia era demasiado longa. Mas, desde os bairros exteriores at\u00e9 o centro da cidade, por toda parte onde o Dr. Rieux passava, por toda parte onde nossos concidad\u00e3os se reuniam, os ratos esperavam em montes, nas lixeiras ou junto \u00e0s sarjetas, em longas filas\u201d, continua.<\/p>\n<p>\u201cA partir do quarto dia, os ratos come\u00e7aram a sair para morrer em grupos. Dos por\u00f5es, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar \u00e0 luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. \u00c0 noite, nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. De manh\u00e3, nos sub\u00farbios, encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor-de-sangue nos focinhos pontiagudos; uns, inchados e p\u00fatridos; outros, r\u00edgidos e com os bigodes ainda eri\u00e7ados (&#8230;) Vinham, tamb\u00e9m, morrer isoladamente nos vest\u00edbulos das reparti\u00e7\u00f5es, nos recreios das escolas, por vezes nos terra\u00e7os dos caf\u00e9s. Nossos concidad\u00e3os, estupefatos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade\u201d, descreve Camus.<\/p>\n<p>No livro p\u00f3stumo Quando os fatos mudam, o historiador brit\u00e2nico Tony Judt revisita a obra do escritor franc\u00eas, ao fazer resenha da tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de Robin Buss publicada pela famosa editora Penguin. Judeu, reconstitui o grande inc\u00f4modo que o livro causou aos intelectuais franceses quando foi lan\u00e7ado e atribui o fen\u00f4meno \u00e0 insist\u00eancia do escritor em \u201csituar a responsabilidade moral individual no centro de todas as escolhas p\u00fablicas\u201d. Camus \u00e9 um moralista, mas n\u00e3o \u00e9 um moralizador. Distingue claramente a diferen\u00e7a entre o bem e o mal, por\u00e9m, trata com certa compaix\u00e3o os que duvidam e aceitam fazer concess\u00f5es, pelos motivos e erros de uma humanidade imperfeita. Ao mesmo tempo, revela desprezo pelos que relativizam as situa\u00e7\u00f5es ou trocam de opini\u00e3o de acordo com as conveni\u00eancias do momento.<\/p>\n<p><strong>Zona cinzenta<\/strong><br \/>\nAutor de outros romances famosos, como O estrangeiro e O homem revoltado, Camus era um mito por causa da participa\u00e7\u00e3o na Resist\u00eancia, como editor do di\u00e1rio clandestino Combat, que continuou a circular depois da Fran\u00e7a libertada. Seus editoriais formavam a opini\u00e3o da esquerda francesa. Mas foi muito criticado por Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre por causa da \u201cmodera\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia desiludidas\u201d que revela na alegoria de A Peste. Quando o livro foi publicado, os franceses come\u00e7avam a esquecer os constrangimentos e as solu\u00e7\u00f5es de compromissos dos quatro anos de ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3. O marechal Philippe Petain havia sido julgado e preso, outros colaboracionistas haviam sido executados, e cultivava-se o mito de uma gloriosa resist\u00eancia nacional, alimentado por pol\u00edticos de todos os matizes, do marechal Charles De Gaulle ao l\u00edder comunista Maurice Thorez.<\/p>\n<p>Camus era um her\u00f3i nacional, mas n\u00e3o gostava da apologia \u00e0 Resist\u00eancia e atribu\u00eda \u00e0 in\u00e9rcia e \u00e0 ignor\u00e2ncia a incapacidade de a\u00e7\u00e3o da maioria dos franceses durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Judt destaca que, em condi\u00e7\u00f5es extremas, raramente encontramos categorias simples e reconfortantes de bem e mal, culpado e inocente. Os personagens de A Peste mostram que as pessoas \u201cpodem vir a fazer a coisa certa a partir de uma combina\u00e7\u00e3o de motivos e podem, com a mesma facilidade, cometer atos terr\u00edveis com a melhor das inten\u00e7\u00f5es \u2014 ou sem inten\u00e7\u00f5es de tipo algum\u201d. Citando Camus, Judt destaca que o bacilo da peste nunca morre ou desaparece inteiramente e pode chegar o dia em que \u201ca peste convocar\u00e1 seus ratos e os enviar\u00e1 para morrer em alguma cidade que se mostre satisfeita consigo mesmo\u201d. \u00c9 inevit\u00e1vel uma analogia com a situa\u00e7\u00e3o que o Brasil est\u00e1 vivendo. Quantos foram c\u00famplices, omissos ou prevaricaram?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00c9 inevit\u00e1vel uma analogia com a situa\u00e7\u00e3o que o nosso pa\u00eds est\u00e1 vivendo Obra prima do escritor e fil\u00f3sofo franco argelino Albert Camus, o romance A Peste, publicado em 1947, conta a hist\u00f3ria de uma epidemia que assola Oran, pequena cidade argelina, cujos habitantes levam uma vida mon\u00f3tona at\u00e9 o flagelo dizimar consider\u00e1vel porcentagem da popula\u00e7\u00e3o. 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