{"id":1522,"date":"2017-04-23T09:30:39","date_gmt":"2017-04-23T12:30:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1522"},"modified":"2017-04-23T09:30:39","modified_gmt":"2017-04-23T12:30:39","slug":"nas-entrelinhas-literatura-de-cadeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-literatura-de-cadeia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  Literatura de cadeia"},"content":{"rendered":"<p><em>A prefer\u00eancia por <\/em>Crime e Castigo,<em> e n\u00e3o por livros de autoajuda, tem explica\u00e7\u00e3o \u00f3bvia: o sentimento de culpa do protagonista do livro, o jovem Rask\u00f3lnikov<\/em><\/p>\n<p>Nunca se leu tanto nos pres\u00eddios federais. De um lado, por causa da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de escolaridade dos detentos; de outro, porque o projeto de remi\u00e7\u00e3o de penas pela leitura do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a estimula bastante esse tipo de atividade entre os presos. O ex-presidente da C\u00e2mara Jo\u00e3o Paulo Cunha (PT-SP), por exemplo, resenhou mais de 60 livros antes de ter a pena perdoada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado, seis meses ap\u00f3s passar para o regime semiaberto. A pena foi extinta em raz\u00e3o de indulto concedido pela ex-presidente Dilma Rousseff no fim de 2015.<\/p>\n<p>Na contabilidade do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, os cinco livros mais lidos s\u00e3o cl\u00e1ssicos da literatura universal e brasileira. O campe\u00e3o, o t\u00edtulo j\u00e1 diz tudo, \u00e9 <em>Crime e Castigo<\/em>, do escritor russo Fiodor Dostoi\u00e9vski (1821-1881), seguido de <em>Incidente em Antares<\/em>, do ga\u00facho \u00c9rico Ver\u00edssimo (1905-1975); <em>Sagarana<\/em> e <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, os dois do mineiro Guimar\u00e3es Rosa (1908-1967); e <em>Dom Casmurro<\/em>, a obra mais traduzida do carioca Machado de Assis (1839-1908), considerado um cl\u00e1ssico da literatura universal. Cada livro resenhado vale por quatro dias de cadeia.<\/p>\n<p>A prefer\u00eancia por <em>Crime e Castigo<\/em>, e n\u00e3o por livros de autoajuda, tem explica\u00e7\u00e3o \u00f3bvia: o sentimento de culpa do protagonista do livro, o jovem Rask\u00f3lnikov. Ele dividia os indiv\u00edduos em ordin\u00e1rios e extraordin\u00e1rios, numa tentativa de explicar a quebra das regras em prol do avan\u00e7o humano. Seguindo esse preceito, Rask\u00f3lnikov planeja e concretiza a morte de uma velhinha agiota. Flagrado na cena do crime pela sobrinha da v\u00edtima, comete mais um assassinato. Rouba joias, mas n\u00e3o chega a se beneficiar disso; com medo de ser descoberto, as esconde.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia prende um inocente, que se intitulou culpado devido \u00e0 press\u00e3o que sofria, por\u00e9m, Rask\u00f3lnikov, tomado de remorsos, \u00e9 influenciado pela namorada S\u00f4nia e pela descri\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro no Novo Testamento, e acaba por confessar o crime. N\u00e3o suportara o peso da pr\u00f3pria consci\u00eancia e das suspeitas de parentes.<\/p>\n<p>No fundo, n\u00e3o era uma daquelas pessoas que julgava extraordin\u00e1rias, porque seriam capazes de tudo sem culpa alguma. Gra\u00e7as \u00e0 confiss\u00e3o, ao arrependimento e \u00e0 falta de antecedentes criminais, sua pena \u00e9 reduzida a oito anos em uma cadeia na Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>Delatores e delatados<\/strong><br \/>\nCuriosamente, <em>Recorda\u00e7\u00f5es da Casa dos Mortos,<\/em> o livro de Dostoi\u00e9vski que fala da cadeia, n\u00e3o faz o mesmo sucesso nos pres\u00eddios. Seria como falar de corda em casa de enforcado, embora a situa\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no Brasil s\u00f3 n\u00e3o seja t\u00e3o degradante quanto a das antigas pris\u00f5es siberianas por causa do nosso clima. Os pres\u00eddios da Papuda, em Bras\u00edlia, e de Pinhais, perto de Curitiba, onde est\u00e3o os presos da Lava-Jato, nem de longe se parecem com a masmorra descrita pelo escritor russo.<\/p>\n<p><em>Recorda\u00e7\u00f5es da Casa dos Mortos<\/em> \u00e9 um romance autobiogr\u00e1fico, que fez muito sucesso quando foi lan\u00e7ado, logo ap\u00f3s a volta do escritor a S\u00e3o Petersburgo, em 1862. Ele havia passado quatro anos encarcerado na Sib\u00e9ria, dos 10 em que esteve no ex\u00edlio. Como os prisioneiros eram proibidos de escrever mem\u00f3rias e relatos, Dostoi\u00e9vski disfar\u00e7ou a obra como fic\u00e7\u00e3o, dizendo-a ser o di\u00e1rio de um homem preso por assassinar a esposa em crise de ci\u00fames. Por isso, at\u00e9 imaginaram que autor fora preso por assassinato e n\u00e3o por raz\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Dostio\u00e9vski descreve a vida abjeta e brutal na pris\u00e3o e seus personagens. Fala da tortura e da diferen\u00e7a de comportamento entre o carrasco profissional e o torturador volunt\u00e1rio. Tamb\u00e9m destila desprezo pelos delatores: \u201cComo me repugnava aquele eterno sorriso trocista daquele quas\u00edmodo moral, daquele monstro\u201d. O que ser\u00e1 que se passa na cabe\u00e7a do ex-ministro da Fazenda Ant\u00f4nio Palocci, o mais importante l\u00edder petista depois de Lula, Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Dirceu, que negocia a sua dela\u00e7\u00e3o premiada? N\u00e3o deve estar sendo nada f\u00e1cil a conviv\u00eancia entre os delatores da Lava-Jato que ainda aguardam a pris\u00e3o domiciliar e os delatados presos na Papuda e em Pinhais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prefer\u00eancia por Crime e Castigo, e n\u00e3o por livros de autoajuda, tem explica\u00e7\u00e3o \u00f3bvia: o sentimento de culpa do protagonista do livro, o jovem Rask\u00f3lnikov Nunca se leu tanto nos pres\u00eddios federais. De um lado, por causa da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de escolaridade dos detentos; de outro, porque o projeto de remi\u00e7\u00e3o de penas pela leitura do Minist\u00e9rio da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,5,92,9,3,73],"tags":[34],"class_list":["post-1522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-justica","category-lava-jato","category-literatura","category-politica-2","category-politica","category-presidios","tag-lavajato"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1522"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1522\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1529,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1522\/revisions\/1529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}