{"id":1544,"date":"2017-04-30T11:21:11","date_gmt":"2017-04-30T14:21:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1544"},"modified":"2017-04-30T13:22:08","modified_gmt":"2017-04-30T16:22:08","slug":"nas-entrelinhas-greve-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-greve-geral\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A greve geral"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cN\u00e3o houve greve geral, houve paralisa\u00e7\u00f5es de servidores e nos transportes, muita agita\u00e7\u00e3o e vandalismo\u201d, disparou o Sueco<\/em><\/p>\n<p>\u201cNo meu tempo, Saldanha, essa greve seria considerada um fracasso; cad\u00ea a classe oper\u00e1ria? Greve foi a de 1953, em S\u00e3o Paulo. O que voc\u00ea acha, Chamorro?\u201d, indagou o Sueco, como era conhecido Geraldo Rodrigues dos Santos, o Gerald\u00e3o, um negro alto, de fala mansa e sorriso f\u00e1cil. Santista, Gerald\u00e3o era portu\u00e1rio e participou intensamente da greve que parou S\u00e3o Paulo e o Porto de Santos na d\u00e9cada de 1950. Durante o regime militar, dirigiu o PCB na antiga Guanabara, na mais rigorosa clandestinidade, onde reencontrou os dois camaradas.<\/p>\n<p>Seu amigo Jo\u00e3o Saldanha, o Souza, ficou famoso como comentarista esportivo e t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, mas, na d\u00e9cada de 1950, era dirigente do PCB no bairro paulista da Mo\u00f3ca, onde a greve come\u00e7ou. Fazia a liga\u00e7\u00e3o entre o l\u00edder comunista Carlos Marighella e o comando de greve. Durante a ditadura, deu cobertura para o velho amigo Geraldo, que andava com uma c\u00e1psula de cianureto no bolso para ingerir caso fosse preso. O Sueco havia jurado n\u00e3o delatar nenhum companheiro na tortura; preferiria morrer se fosse preso.<\/p>\n<p>Gerald\u00e3o vivia num \u201caparelho\u201d na Favela da Mar\u00e9, que somente alguns familiares e o motorista Ded\u00e9, que tinha um t\u00e1xi, conheciam. O terceiro camarada na conversa vivia clandestino em Niter\u00f3i, com o nome de Paulinho, onde organizava os trabalhadores t\u00eaxteis e oper\u00e1rios navais. Era ningu\u00e9m menos do que Ant\u00f4nio Chamorro, um dos l\u00edderes da greve geral, ao lado da tamb\u00e9m tecel\u00e3 Maria Sallas e do metal\u00fargico Eug\u00eanio Chemp.<\/p>\n<p>\u201cO Marighella chegou na reda\u00e7\u00e3o do Not\u00edcias de Hoje, reuniu todo mundo e apresentou o plano de parar a capital, a ferrovia e o porto de Santos. Depois, pretendia abrir as sedes do partido na marra\u201d, relata Saldanha, que j\u00e1 era jornalista. O PCB vinha de uma derrota eleitoral fragorosa para J\u00e2nio Quadros, que obtivera 285 mil votos na disputa pela Prefeitura da capital, na capital paulista, enquanto Andr\u00e9 Nunes J\u00fanior, apoiado pelos comunistas, n\u00e3o chegara a 17 mil votos. A elei\u00e7\u00e3o havia acontecido tr\u00eas dias antes, em 22 de mar\u00e7o. A tese parecia uma loucura do l\u00edder comunista, que, na d\u00e9cada de 1970, viria a aderir \u00e0 luta armada e acabou morto pelo delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, durante a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes.<\/p>\n<p>Naquele 25 de mar\u00e7o, o PCB completava 31 anos. Chamorro e Maria Sallas lideravam uma assembleia de trabalhadores da ind\u00fastria t\u00eaxtil no Sal\u00e3o Piratininga, na rua da Mo\u00f3ca, na qual reivindicavam 60% de aumento salarial. Por causa da infla\u00e7\u00e3o, o apoio \u00e0 greve foi quase un\u00e2nime. No dia seguinte, encabe\u00e7ados por Eug\u00eanio Chemp, os metal\u00fargicos aderiram \u00e0 greve, lutavam por 800 cruzeiros a mais nos sal\u00e1rios. No terceiro dia de greve, eram 70 mil oper\u00e1rios concentrados no antigo hip\u00f3dromo da Mo\u00f3ca. Piquetes de mil trabalhadores sa\u00edram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s demais f\u00e1bricas de S\u00e3o Paulo, parando 70 empresas no dia seguinte. Houve repress\u00e3o, mais de duas mil pessoas foram presas, Chemp quase levou um tiro. Uma tecel\u00e3 e um metal\u00fargico foram feridos \u00e0 bala. Mesmo assim, marceneiros, carpinteiros, padeiros, sapateiros, vidreiros, gr\u00e1ficos e at\u00e9 os trabalhadores da cervejaria Brahma pararam. Eram 300 mil oper\u00e1rios de bra\u00e7os cruzados.<\/p>\n<p>Chemp encerrava ali sua carreira paralela de craque do S\u00e3o Paulo Futebol Clube, onde at\u00e9 hoje figura na lista dos estrangeiros que mais brilharam no clube: 14 gols em 19 jogos, em oito vit\u00f3rias, seis empates e cinco derrotas. Nasceu em Kiev, na Ucr\u00e2nia, mas tinha nacionalidade uruguaia. Chamorro era brasileiro, descendente de espanh\u00f3is. O Brasil transitava do rural para o urbano com a industrializa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, cuja capital passara a ser a maior cidade do pa\u00eds. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1950, mais de 1 milh\u00e3o de trabalhadores fizeram greves, que traziam a novidade de lutar contra a carestia, ou seja, contra a infla\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas por aumentos salariais.<\/p>\n<p><strong>Paraquedas<\/strong><br \/>\nO Pacto de Unidade Intersindical (PUI), que resultou dessas greves, foi uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 CLT de Vargas e ao atrelamento dos sindicatos ao Minist\u00e9rio do Trabalho, que hoje as centrais sindicais est\u00e3o defendendo, num per\u00edodo de expans\u00e3o da ind\u00fastria e do trabalho assalariado no campo; em contrapartida, havia infla\u00e7\u00e3o alta e superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. Com o fortalecimento dos sindicatos, o movimento desaguou na greve geral de julho de 1962, quase dez anos depois, que resultou na conquista da lei do 13\u00ba sal\u00e1rio, sancionada pelo presidente Jo\u00e3o Goulart. Mas voltemos \u00e0 conversa entre os tr\u00eas amigos, sentados na beira de uma nuvem bem alta, l\u00e1 no c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u201cO que voc\u00ea achou da greve, Geraldo?\u201d, perguntou Saldanha. \u201cN\u00e3o houve greve geral, houve paralisa\u00e7\u00f5es de servidores e nos transportes, muita agita\u00e7\u00e3o e vandalismo\u201d, disparou o Sueco. \u201cS\u00f3 espero que ningu\u00e9m morra\u201d, completou Chamorro. Foi uma alus\u00e3o ao Primeiro de Maio de 1953, comemorado no antigo hip\u00f3dromo da Mo\u00f3ca, ap\u00f3s a conquista de 32% de aumento salarial para praticamente todas as categorias grevistas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte: Um anarquista italiano, para abrilhantar a festa, resolveu saltar de paraquedas. Acontece que o equipamento n\u00e3o abriu e a festa virou trag\u00e9dia. Revoltada, a fam\u00edlia n\u00e3o queria um enterro de her\u00f3i da classe oper\u00e1ria. Os grevistas, por\u00e9m, insistiram e fizeram, na marra, um funeral de gala. Bradavam: \u201cO cad\u00e1ver \u00e9 nosso!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o houve greve geral, houve paralisa\u00e7\u00f5es de servidores e nos transportes, muita agita\u00e7\u00e3o e vandalismo\u201d, disparou o Sueco \u201cNo meu tempo, Saldanha, essa greve seria considerada um fracasso; cad\u00ea a classe oper\u00e1ria? Greve foi a de 1953, em S\u00e3o Paulo. 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