{"id":1565,"date":"2017-05-07T10:08:25","date_gmt":"2017-05-07T13:08:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1565"},"modified":"2017-05-07T11:08:45","modified_gmt":"2017-05-07T14:08:45","slug":"o-juiz-de-bruzundanga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-juiz-de-bruzundanga\/","title":{"rendered":"O juiz de Bruzundanga"},"content":{"rendered":"<p><strong>Afinal, o que seria de Bruzundangas se todos tivessem a mesma aposentadoria e os mesmos direitos?<\/strong><\/p>\n<p>A Rep\u00fablica de Bruzundanga, de Lima Barreto, completa 95 anos, uma efem\u00e9ride pouqu\u00edssimo lembrada, a n\u00e3o ser por alguns estudantes de Literatura. \u00c0s v\u00e9speras de Natal de 2014, ela j\u00e1 havia sido abalada por um esc\u00e2ndalo envolvendo a maior empresa estatal do pa\u00eds, uma petroleira, e os donos da na\u00e7\u00e3o, entre os quais estavam a Mandachuva \u2014 a primeira mulher a assumir a Presid\u00eancia \u2014 e seu padrinho, o Mandachuva que a antecedera. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m ainda sabia disso, a n\u00e3o ser o cronista que reconta essa hist\u00f3ria, num tributo ao escritor carioca maldito (ele era pobre, mulato e gay).<\/p>\n<p>No pa\u00eds imagin\u00e1rio de Lima Barreto, a esposa do presidente de uma grande empresa que estava preso amea\u00e7ara contar tudo o que sabia \u00e0 pol\u00edcia e \u00e0 Justi\u00e7a sobre o maior esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, se o marido passasse o ano-novo na cadeia. Estava revoltada porque os donos da empresa decidiram demitir todos os executivos e foram passar o Natal em um balne\u00e1rio do Caribe, depois de encerrar os neg\u00f3cios no ramo da constru\u00e7\u00e3o para viver de outras fontes de renda. O recado veio cifrado numa nota de coluna de jornal.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, o executivo foi solto, chegou a fazer uma dela\u00e7\u00e3o premiada, mas ela foi incinerada pelas autoridades porque houve um vazamento do conte\u00fado para jornais e revistas sensacionalistas, que insistiam em escandalizar o povo com os podres da Rep\u00fablica. O problema \u00e9 que ele n\u00e3o desistiu, negociou nova dela\u00e7\u00e3o, com mais 40 executivos da empresa. Em sua obra p\u00f3stuma, o mestre do esc\u00e1rnio j\u00e1 havia desnudado a ess\u00eancia de Bruzundanga. Quase cem anos depois, nada havia mudado quanto aos costumes pol\u00edticos. S\u00f3 as velhas patacas foram substitu\u00eddas pelo barusco, a moeda criada em homenagem ao ex-diretor da petroleira local que resolveu denunciar as falcatruas que escandalizavam o mundo naquele Natal. Mas j\u00e1 estavam inflacionadas pela enxurrada de d\u00f3lares que jorraram das plataformas da petroleira para misteriosas contas no exterior.<\/p>\n<p>O ex-mandachuva continuou a trajet\u00f3ria como aquele personagem de Todos os homens s\u00e3o mortais, de Simone de Beauvoir, o Conde Fosca, j\u00e1 citado em 2014, quando come\u00e7ou a Opera\u00e7\u00e3o Enxuga Devagar. Se voc\u00eas n\u00e3o se lembram, por ser imortal, esse personagem podia decidir o que quisesse, os outros pagavam com a pr\u00f3pria vida quando algo dava errado. Naquele Natal, a esposa de um executivo da petroleira que havia sido preso procurara o secret\u00e1rio particular do ex-mandachuva e avisara que contaria tudo se o marido continuasse em cana. Ele tamb\u00e9m foi solto a tempo de participar do amigo oculto da fam\u00edlia, gra\u00e7as \u00e0 Mandachuva, que gastou um dos cartuchos que tinha no tribunal para conseguir-lhe um habeas corpus. Coisas que ainda aconteciam em Bruzundangas.<\/p>\n<p><strong>Privil\u00e9gios<\/strong><\/p>\n<p>Mas havia um juiz ferrabr\u00e1s numa das prov\u00edncias que resolveu subverter a ordem natural das coisas e p\u00f4s em cana todos os envolvidos no esc\u00e2ndalo ao seu alcance. O ex-diretor da petroleira, convencido pela fam\u00edlia, resolveu falar o que sabia. Relatou tr\u00eas encontros com o ex-mandachuva, que tinha conhecimento de tudo o que se passava na petroleira e agora ele est\u00e1 na imin\u00eancia de ser preso. O executivo da estatal tamb\u00e9m entregou a ex-mandachuva, que meteu as m\u00e3os pelos p\u00e9s e, no passado, acabou apeada do poder. Agora, tamb\u00e9m corre o risco de ser condenada e presa.<\/p>\n<p>No meio de tanta confus\u00e3o, o vice-mandachuva assumira o poder. Nele ainda se equilibra para terminar o mandato e chegar \u00e0s elei\u00e7\u00f5es nacionais do ano que vem. A situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds continua delicada. Durante a crise mundial, o povo viveu no mundo da fantasia, gastando mais do que podia, como naquela f\u00e1bula da cigarra e da formiga. Agora, a sa\u00edda \u00e9 acabar com os privil\u00e9gios e reinventar a economia, mas a elite pol\u00edtica, os empres\u00e1rios que mamam nas tetas do governo e a alta burocracia resistem \u00e0s reformas. Afinal, o que seria de Bruzundangas se todos tivessem a mesma aposentadoria e os mesmos direitos? O esc\u00e2ndalo na petroleira virou o pa\u00eds de cabe\u00e7a pra baixo. Quem foi mandachuva em Bruzundanga jamais perde a majestade. Na quarta-feira, ele ser\u00e1 interrogado pelo juiz ferrabr\u00e1s. O problema \u00e9 que o tal magistrado veio de Curitiba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal, o que seria de Bruzundangas se todos tivessem a mesma aposentadoria e os mesmos direitos? 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