{"id":1692,"date":"2017-06-11T10:14:11","date_gmt":"2017-06-11T13:14:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1692"},"modified":"2017-06-11T10:19:34","modified_gmt":"2017-06-11T13:19:34","slug":"nas-entrelinhas-para-onde-vamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-para-onde-vamos\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Para onde vamos?"},"content":{"rendered":"<p><em>Com o avan\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, Temer deslocou o eixo de sua atua\u00e7\u00e3o das reformas para a preserva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mandato<\/em><\/p>\n<p>Boa parte do que pensamos hoje sobre a rela\u00e7\u00e3o entre economia e pol\u00edtica \u00e9 fruto de um grande debate ocorrido na Europa ap\u00f3s a II Guerra Mundial, no qual alguns intelectuais analisaram profundamente as causas do colapso pol\u00edtico e econ\u00f4mico do come\u00e7o do s\u00e9culo passado e a ascens\u00e3o do fascismo. Esse debate proporcionou um per\u00edodo de grande estabilidade. Aqui no Brasil, por\u00e9m, ocorreu o contr\u00e1rio: por causa da Guerra Fria, esse per\u00edodo foi marcado por crises sucessivas, que resultaram no golpe militar de 1964, ou seja, em 20 anos de ditadura. Quem s\u00e3o esses intelectuais e quais as suas ideias b\u00e1sicas?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, os fundadores da Escola de Chicago, Ludwigh Von Mises e Friedrich Hayek, ambos austr\u00edacos, cuja defesa do liberalismo, ou seja, de uma sociedade aberta e livre, visava manter o Estado o mais longe poss\u00edvel da economia, para isolar os radicais de direita ou de esquerda e impedi-los de planejar, dirigir ou manipul\u00e1-la.<\/p>\n<p>Com as mesmas preocupa\u00e7\u00f5es quanto ao passado, em segundo lugar, o economista brit\u00e2nico John Maynard Keynes, chegou a conclus\u00f5es completamente diferentes, defendendo a interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia para garantir a seguran\u00e7a social com pol\u00edticas antic\u00edclicas e isolar os radicais. Com base nas suas ideias, governos social-democratas e neokeynesianos constru\u00edram o Estado de bem-estar social na Europa, at\u00e9 que a onda neoliberal de Margaret Tatcher, na Inglaterra, nos anos 1980, colocasse em xeque essa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Somente ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, em 1985, as ideias liberais e social-democratas que proporcionaram estabilidade e progresso \u00e0 Europa Ocidental encontraram um ambiente favor\u00e1vel ao debate aberto e livre aqui no Brasil, sem as conting\u00eancias da radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica causada pela Guerra Fria desde o governo Dutra, em 1946. Entretanto, viv\u00edamos o esgotamento do modelo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es e uma profunda crise de financiamento do Estado, o que resultou na hiperinfla\u00e7\u00e3o do governo Sarney (1985-1989). Foi a partir desse debate que conseguimos controlar a infla\u00e7\u00e3o e consolidar a democracia, o que nos proporcionou tr\u00eas in\u00e9ditas d\u00e9cadas de estabilidade pol\u00edtica, em que pese os impeachments de Collor de Mello (1992) e Dilma Rousseff (2016).<\/p>\n<p>Entretanto, esse debate foi mitigado e hegemonizado pela polariza\u00e7\u00e3o PSDB-PT, desde a elei\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Num primeiro momento, em decorr\u00eancia do sucesso do Plano Real e da estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda. As correntes neoliberais e desenvolvimentistas foram neutralizadas pelo pensamento social liberal predominante na equipe do ministro da Fazenda, Pedro Malan, al\u00e9m da forte influ\u00eancia do pensamento de Peter Ducker nas pol\u00edticas p\u00fablicas (fazer com que os servi\u00e7os p\u00fablicos adotassem m\u00e9todos e pr\u00e1ticas de gest\u00e3o das empresas privadas).<\/p>\n<p>A chegada do PT ao poder, com a elei\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, em 2002, com sua \u201cCarta aos Brasileiros\u201d, num primeiro momento, garantiu certa continuidade dessas pol\u00edticas, com \u00eanfase no \u201cfocaliza\u00e7\u00e3o\u201d dos gastos sociais nas camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, via programas compensat\u00f3rios de transfer\u00eancia de renda. Esse curso, por\u00e9m, j\u00e1 no fim do primeiro mandato de Lula, foi alterado profundamente, com a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas populistas e medidas nacionais desenvolvimentistas focadas no adensamento cartorial das cadeias produtivas.<\/p>\n<p><strong>E as reformas?<\/strong><\/p>\n<p>Tal pol\u00edtica foi exacerbada ainda mais no governo Dilma. A \u201cnova matriz\u201d, por\u00e9m, nada mais era do que a fus\u00e3o do velho \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d com um novo \u201ccapitalismo de Estado\u201d, a servi\u00e7o da forma\u00e7\u00e3o de cart\u00e9is e grandes empresas monopolistas, os chamados \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d, que garantiram, por meios ilegais, a reprodu\u00e7\u00e3o eleitoral do bloco pol\u00edtico no poder. Esse processo ampliou o patrimonialismo, a corrup\u00e7\u00e3o e o fisiologismo, que est\u00e3o sendo desnudados pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. E mergulhou o pa\u00eds na mais dura recess\u00e3o, o que provocou o impeachment de Dilma.<\/p>\n<p>Assim, chegamos ao atual governo. O velho PMDB, fisiol\u00f3gico e patrimonialista, continua o grande fiador da governabilidade e da estabilidade do sistema pol\u00edtico. O presidente Michel Temer, o vice que assumiu o poder, recebeu pleno apoio das for\u00e7as pol\u00edticas que apoiaram o impeachment, mas n\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica que se contrap\u00f4s ao governo Dilma. Seus cacifes: a forte base parlamentar e grande capacidade de articula\u00e7\u00e3o no Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Temer assumiu o governo com um programa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, recupera\u00e7\u00e3o de estatais, limita\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos e reformas da Previd\u00eancia e das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. Com o avan\u00e7o das investiga\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que chegou \u00e0s c\u00fapulas do PMDB e do PSDB, deslocou o eixo de sua atua\u00e7\u00e3o das reformas para a preserva\u00e7\u00e3o do mandato de presidente da Rep\u00fablica. Para onde vamos? Ningu\u00e9m sabe. O cen\u00e1rio \u00e9 de instabilidade pol\u00edtica, incerteza econ\u00f4mica e inquieta\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o avan\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, Temer deslocou o eixo de sua atua\u00e7\u00e3o das reformas para a preserva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mandato Boa parte do que pensamos hoje sobre a rela\u00e7\u00e3o entre economia e pol\u00edtica \u00e9 fruto de um grande debate ocorrido na Europa ap\u00f3s a II Guerra Mundial, no qual alguns intelectuais analisaram profundamente as causas do colapso pol\u00edtico e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36,4,22,7,5,8,9,3],"tags":[27,34,90],"class_list":["post-1692","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-governo","category-impeachment","category-justica","category-lava-jato","category-partidos","category-politica-2","category-politica","tag-governotemer","tag-lavajato","tag-reformas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1692"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1692\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1699,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1692\/revisions\/1699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}