{"id":1758,"date":"2017-07-25T08:55:09","date_gmt":"2017-07-25T11:55:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1758"},"modified":"2017-07-25T08:55:09","modified_gmt":"2017-07-25T11:55:09","slug":"nas-entrelinhas-o-busilis-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-busilis-e-politica\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O bus\u00edlis \u00e9 a pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><em>As for\u00e7as que hoje d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao governo Temer n\u00e3o t\u00eam um discurso para enfrentar o populismo, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, porque a ret\u00f3rica economicista \u00e9 um haraquiri eleitoral<\/em><\/p>\n<p>Deve-se ao marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, a frase que virou case de marketing eleitoral: \u201c\u00c9 a economia, est\u00fapido!\u201d. Em 1991, o presidente dos Estados Unidos, George Bush, havia vencido a Guerra do Golfo e resgatado a autoestima dos americanos ap\u00f3s a dolorosa derrota no Vietn\u00e3. Assim, era o favorito absoluto nas elei\u00e7\u00f5es de 1992 ao enfrentar o ent\u00e3o desconhecido governador de Arkansas. Clinton apostou que Bush n\u00e3o era invenc\u00edvel com o pa\u00eds em recess\u00e3o e a frase de Carville virou a cabe\u00e7a do eleitor.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, virou uma esp\u00e9cie de varinha de cond\u00e3o para governantes e candidatos em apuros, que apostam tudo na economia para enfrentar seus desafios eleitorais. Foi assim nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, quando a oposi\u00e7\u00e3o achava que ganharia a elei\u00e7\u00e3o por causa da m\u00e1xima de Carville. Logo no come\u00e7o do segundo turno, A\u00e9cio Neves (PSDB) estava \u00e0 frente de Dilma e os dados da economia eram muito negativos. As proje\u00e7\u00f5es do PIB em 2014 n\u00e3o passavam de 0,3%, mesmo com as pedaladas. A infla\u00e7\u00e3o chegava a 6,75% nos \u00faltimos 12 meses, com a taxa de juros (Selic) na casa dos 11% e do congelamento dos pre\u00e7os administrados, principalmente o pre\u00e7o da gasolina. Dos 48.747 empreendimentos da segunda vers\u00e3o do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento, apenas 15,8% estavam conclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Mas a oposi\u00e7\u00e3o perdeu. N\u00e3o apenas porque houve abuso de poder econ\u00f4mico (eis uma discuss\u00e3o vencida, que ironia, porque o TSE, em julgamento in\u00e9dito, absolveu a chapa dessa acusa\u00e7\u00e3o), mas porque Dilma, Lula e o PT politizaram a elei\u00e7\u00e3o na base do \u201cn\u00f3s contra eles\u201d. Acusaram a oposi\u00e7\u00e3o de querer acabar com os programas sociais petistas para favorecer os interesses dos mais ricos. Era m\u00fasica para 14 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia, ou seja, 56 milh\u00f5es de pessoas. Al\u00e9m disso, havia 1,5 milh\u00e3o de beneficiados no Minha Casa, Minha Vida e um ex\u00e9rcito de 97 mil ocupantes de cargos comissionados defendendo o governo com unhas e dentes, temerosos de perderem o que tinham. O tempo da pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 o da economia, a recess\u00e3o s\u00f3 veio depois, para embalar a campanha do impeachment.<\/p>\n<p>O economicismo \u00e9 uma praga na an\u00e1lise pol\u00edtica, cuja origem \u00e9 atribu\u00edda ao determinismo econ\u00f4mico marxista. \u00c9 uma injusti\u00e7a com Marx, embora essa responsabilidade seja dos te\u00f3ricos social-democratas do come\u00e7o do s\u00e9culo, principalmente do te\u00f3rico alem\u00e3o Eduard Bernstein, para quem o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas pelo capitalismo levaria ao socialismo. Outros te\u00f3ricos marxistas criticaram essas interpreta\u00e7\u00f5es. O economicismo sobrevaloriza os fatores considerados econ\u00f4micos na evolu\u00e7\u00e3o dos processos sociais e pol\u00edticos, por\u00e9m, a pol\u00edtica \u00e9 a economia concentrada.<\/p>\n<p>Quem tiver oportunidade de ler o 18 Brum\u00e1rio, de Lu\u00eds Bonaparte, que trata da restaura\u00e7\u00e3o da monarquia na Fran\u00e7a ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o burguesa \u2014 na verdade, uma grande reportagem sobre os acontecimentos da \u00e9poca \u2014 , ver\u00e1 ali a centralidade da pol\u00edtica na vis\u00e3o do autor d\u2019O Capital. Na d\u00e9cada de 1930, por exemplo, a ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia foi vista como uma via de industrializa\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds economicamente atrasado. Pois bem, n\u00e3o era um fen\u00f4meno determinado pela economia, mas pela pol\u00edtica. Tanto que assombrou o mundo quando a Alemanha, um dos pa\u00edses mais desenvolvidos da Europa, sucumbiu \u00e0 loucura nazista. No p\u00f3s-guerra, o economicismo tornou-se uma presa f\u00e1cil do nacionalismo e do populismo, que nos rondam novamente, inclusive na Europa.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a agenda?<\/strong><\/p>\n<p>Temos um governo que assumiu o poder e herdou o desgaste de Dilma Rousseff \u2014 at\u00e9 porque Michel Temer era o vice-presidente da Rep\u00fablica e o PMDB, o aliado principal do PT \u2014, com o pa\u00eds em recess\u00e3o e o desemprego em massa, al\u00e9m de ser assediado por den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o contra o pr\u00f3prio presidente da Rep\u00fablica. O governo adotou uma pol\u00edtica de ajuste fiscal de longo prazo \u2014 a meta fiscal \u00e9 um deficit de 139 bilh\u00f5es \u2014 e promoveu reformas de cima para baixo, necess\u00e1rias para enfrentar a crise e reorganizar a economia, mas sem apoio popular. Al\u00e9m disso, n\u00e3o cortou na pr\u00f3pria carne como deveria: a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida\/PIB se aproximar\u00e1 de 80% no final do pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p>As for\u00e7as do impeachment de Dilma, que hoje d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao governo Temer, n\u00e3o t\u00eam um discurso para enfrentar o populismo, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, porque a ret\u00f3rica economicista \u00e9 um haraquiri eleitoral. As reformas n\u00e3o garantir\u00e3o um crescimento espetacular, capaz de resgatar os empregos perdidos na escala necess\u00e1ria. N\u00e3o haver\u00e1 sequer um voo de galinha da economia, embora possa haver um ganho real com a redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, espinafrar a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato n\u00e3o resolve o problema da crise \u00e9tica, pode at\u00e9 agrav\u00e1-la. No m\u00e1ximo, nivela na lama a disputa entre governo e oposi\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds precisa de um novo projeto pol\u00edtico, que reinvente o Estado e a economia, a partir dos interesses da sociedade, e combata a corrup\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia e os privil\u00e9gios. Esse \u00e9 o desafio principal para tirar o pa\u00eds do atraso e garantir o futuro das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As for\u00e7as que hoje d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao governo Temer n\u00e3o t\u00eam um discurso para enfrentar o populismo, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, porque a ret\u00f3rica economicista \u00e9 um haraquiri eleitoral Deve-se ao marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, a frase que virou case de marketing eleitoral: \u201c\u00c9 a economia, est\u00fapido!\u201d. 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