{"id":1779,"date":"2017-08-01T06:36:28","date_gmt":"2017-08-01T09:36:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1779"},"modified":"2017-08-01T06:36:28","modified_gmt":"2017-08-01T09:36:28","slug":"nas-entrelinhas-o-eleitor-espreita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-eleitor-espreita\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O eleitor espreita"},"content":{"rendered":"<p><em>A mais de um ano das elei\u00e7\u00f5es, os pol\u00edticos n\u00e3o querem ficar no sereno. Precisam da m\u00e1quina estatal para fazer pol\u00edtica nos seus estados e munic\u00edpios<\/em><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas da pol\u00edtica brasileira \u00e9 o fato de que somos uma democracia de massas, do ponto de vista da escala de eleitores e do voto direto, secreto e universal; ao mesmo tempo, temos um sistema eleitoral e partid\u00e1rio que bloqueia o seu desenvolvimento no sentido da renova\u00e7\u00e3o de costumes pol\u00edticos, o que nos faz presas f\u00e1ceis do patrimonialismo e do clientelismo. Esse tipo de contradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos levou a algumas rupturas institucionais e, neste momento, submete a duro teste de resist\u00eancia o regime constitucional vigente desde 1988, pois as v\u00edsceras da nossa pol\u00edtica est\u00e3o expostas pela Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 um velho dilema nacional: de um lado, a pol\u00edtica controlada pelas elites; de outro, a sociedade civil, na qual os cidad\u00e3os t\u00eam um caminh\u00e3o de direitos, mas permanecem na arquibancada. \u00c9 a\u00ed que surge um fen\u00f4meno que marca o nosso desenvolvimento: a busca de espa\u00e7os na estrutura do Estado para influir nos destinos do pa\u00eds, uma vez que os partidos pol\u00edticos mant\u00eam a sociedade \u00e0 margem da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A crise na base do governo Temer reflete isso. Em circunst\u00e2ncias normais, um governo com 5% de aprova\u00e7\u00e3o popular n\u00e3o teria a menor chance de sobreviver, mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece. A mais de um ano das elei\u00e7\u00f5es, os pol\u00edticos n\u00e3o querem ficar no sereno. Precisam da m\u00e1quina estatal para fazer pol\u00edtica nos seus estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Muito provavelmente, o Pal\u00e1cio do Planalto conseguir\u00e1 barrar a den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) contra o presidente da Rep\u00fablica, cuja admissibilidade est\u00e1 na pauta do Congresso para ser votada, qui\u00e7\u00e1 amanh\u00e3 mesmo. Se houver qu\u00f3rum para vota\u00e7\u00e3o, bastar\u00e1 Temer ter um de 342 votos para os governistas rejeitarem a proposta. Por essa raz\u00e3o, setores da oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretendem dar qu\u00f3rum para vota\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o estiverem em n\u00famero superior a isso, o que \u00e9 improv\u00e1vel. Previs\u00f5es conservadoras do Pal\u00e1cio do Planalto garantem que h\u00e1 pelo menos 250 deputados federais fi\u00e9is a Temer.<\/p>\n<p>O imponder\u00e1vel<\/p>\n<p>Historicamente, no Brasil, o liberalismo tem duas vertentes: uma conservadora, que evoluiu do escravagismo para o neoliberalismo; e outra radical-democr\u00e1tica, que evoluiu do abolicionismo republicano para o nacional-desenvolvimentismo. Mas \u00e9 o positivismo castilhista que acabou levando a melhor na configura\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro, gra\u00e7as \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e ao golpe de 1964. Por causa disso, a forte presen\u00e7a na m\u00e1quina p\u00fablica, desde a Rep\u00fablica Velha, \u00e9 o principal instrumento de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para as camadas \u201cmais esclarecidas\u201d da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Positivistas reconhecem os direitos civis e sociais da grande massa trabalhadora, mas n\u00e3o valorizam e prestigiam a democracia representativa. Preferem atuar como poderosas corpora\u00e7\u00f5es na m\u00e1quina administrativa ou como \u201ctecnocratas sem partido\u201d. Apostam no paternalismo e na interven\u00e7\u00e3o do Estado para resolver os problemas da sociedade. H\u00e1 que se considerar tamb\u00e9m o fato de que o positivismo no Brasil desaguou no nacional-populismo. Sua recidiva mais recente ocorreu nos governos Lula e Dilma, nos quais o jacobinismo foi abduzido pelo \u201ctransformismo\u201d petista.<\/p>\n<p>A redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com a Constitui\u00e7\u00e3o \u201cCidad\u00e3\u201d de 1988, ampliou tremendamente os direitos sociais \u2014 desenhou um Estado de bem-estar social que s\u00f3 existe no papel \u2014, mas n\u00e3o resolveu o problema do exerc\u00edcio democr\u00e1tico da cidadania. E ainda \u201cestatizou\u201d os partidos pol\u00edticos, seja pela via dos meios de funcionamento regulados pela Justi\u00e7a Eleitoral, seja pela forte presen\u00e7a de seus militantes e quadros na m\u00e1quina do Estado, que \u00e9 partidarizada.<\/p>\n<p>Resultado: \u00e9 muito f\u00e1cil cooptar os partidos e seus quadros para o governo, mesmo impopular; e muito dif\u00edcil fazer pol\u00edtica e conseguir uma vaga no parlamento estando fora da m\u00e1quina p\u00fablica, seja federal, estadual ou municipal. Mesmo partidos robustos, com uma proposta pol\u00edtica moderna, t\u00eam dificuldade para fazer pol\u00edtica fora da estrutura do Estado.<\/p>\n<p>Em contrapartida, devido ao nosso sistema eleitoral e partid\u00e1rio, que privilegia os grandes partidos e o controle dos seus caciques sobre as legendas, cada vez mais o chamado voto de opini\u00e3o tem dificuldade para se fazer representar no Congresso. Mas isso \u00e9 agora uma contradi\u00e7\u00e3o tremenda, haja vista o peso e a influ\u00eancia crescente das redes sociais.<\/p>\n<p>Dois momentos s\u00e3o significativos quanto a isso: as manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas de 2013 e a campanha do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais passadas, o imponder\u00e1vel rondou o status quo e um tsunami varreu da cena pol\u00edtica prefeitos candidatos \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o e seus candidatos; o imponder\u00e1vel de 2018 \u00e9 um fen\u00f4meno parecido. Na verdade, o eleitor \u201castucia coisas\u201d e espreita a pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mais de um ano das elei\u00e7\u00f5es, os pol\u00edticos n\u00e3o querem ficar no sereno. 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