{"id":1865,"date":"2017-08-29T09:47:47","date_gmt":"2017-08-29T12:47:47","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1865"},"modified":"2017-08-29T09:47:47","modified_gmt":"2017-08-29T12:47:47","slug":"nas-entrelinhas-dispersao-de-forcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-dispersao-de-forcas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Dispers\u00e3o de for\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><em>A natureza da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial pode ser muito diferente do que aconteceu em 2010 e 2014<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 um ano a ex-presidente Dilma Rousseff subia ao cadafalso do Senado, que aprovou o seu impeachment em 31 de agosto, ap\u00f3s a longa agonia iniciada em 2 de dezembro de 2015. Tudo come\u00e7ou pelas m\u00e3os do ex-presidente da C\u00e2mara Eduardo Cunha, que foi cassado pelos colegas e condenado \u00e0 pris\u00e3o pelo juiz S\u00e9rgio Moro, de Curitiba, titular da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Dilma era passageira do fracasso do projeto nacional populista do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva; hoje, \u00e9 um espectro que ronda as caravanas petistas na pr\u00e9-campanha de seu padrinho pol\u00edtico pelos grot\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros do desgoverno Dilma n\u00e3o devem ser esquecidos: queda de 16% do PIB per capita entre 2013 e 2016, isso \u00e9, de R$ 30,5 mil para R$ 25,7 mil por ano. Aumento do desemprego de 6,4% para 11,2%, com a demiss\u00e3o de 12 milh\u00f5es de trabalhadores. A pior recess\u00e3o da hist\u00f3ria: chegou a 6%. Para se ter uma ideia do que isso significava, a grande recess\u00e3o de 1929-1933 foi de 5,3%; a de 1980 a 1983, 6,3%; e a de 1989 a1992, 3,4%. O deficit fiscal subiu de R$ 145 bilh\u00f5es para R$ 200 bilh\u00f5es. A d\u00edvida p\u00fablica chegou a 70% do PIB ao fim do ano. Esse cen\u00e1rio foi revertido pelo impeachment.<\/p>\n<p>Dilma foi julgada por causa das \u201cpedaladas fiscais\u201d. Mas j\u00e1 estava bastante enrolada nas investiga\u00e7\u00f5es sobre o caixa dois de suas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. De acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia, por\u00e9m, ser investigada por fatos anteriores ao exerc\u00edcio do mandato. O julgamento de Dilma Rousseff no Senado foi um grande mise-en-sc\u00e8ne petista para construir a narrativa do \u201cgolpe de estado\u201d e dele sair como v\u00edtima, sem assumir a responsabilidade principal pela crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e \u00e9tica da qual o pa\u00eds agora tenta emergir.<\/p>\n<p>A passagem do PT pelo poder foi um assalto ao Estado. Em dois sentidos: primeiro, o aparelhamento do governo por meio da ocupa\u00e7\u00e3o de milhares de cargos comissionados, tanto na administra\u00e7\u00e3o direta, como na indireta, inclusive estatais, de forma fisiol\u00f3gica e clientel\u00edstica; segundo, o sistem\u00e1tico desvio de recursos p\u00fablicos para financiamento eleitoral e forma\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio pessoal, via superfaturamento de obras e servi\u00e7os. Mas o PT n\u00e3o assaltou o poder sozinho, parte das for\u00e7as que hoje est\u00e3o no governo Temer, a come\u00e7ar pelo PMDB, participou de tudo isso. E n\u00e3o d\u00e1 para ignorar que setores da antiga oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se atolaram na lama da crise \u00e9tica.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um tremendo desgaste das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, dos partidos e dos seus l\u00edderes. O presidente Michel Temer, ao assumir, herdou o estrago do governo de Dilma, do qual fizera parte, e seu \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o \u00e9 baix\u00edssimo. O desprest\u00edgio do Congresso dispensa coment\u00e1rios. Pesquisa recente do instituto Ipsos sobre a percep\u00e7\u00e3o dos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o a 27 figuras p\u00fablicas mostra a decep\u00e7\u00e3o com os principais l\u00edderes pol\u00edticos do pa\u00eds. Os n\u00edveis de rejei\u00e7\u00e3o s\u00e3o um verdadeiro strike na elite pol\u00edtica: Michel Temer (93%), A\u00e9cio Neves (91%), Eduardo Cunha (91%), Renan Calheiros (84%), Jos\u00e9 Serra (82%), Fernando Henrique Cardoso (79%), Dilma Rousseff (79%), Geraldo Alckmin (73%), Rodrigo Maia (72%), Lula (66%), Marina Silva (65%), Ciro Gomes (63%), Henrique Meirelles (62%), Marcelo Crivella (60%), Jair Bolsonaro (56%), Paulo Skaf (55%), Tasso Jereissati (55%), Nelson Jobim (54%), Jo\u00e3o Doria (52%) e Luciano Huck (42%).<\/p>\n<p><strong>Onde est\u00e1 o centro?<\/strong><\/p>\n<p>Quem mira as elei\u00e7\u00f5es de 2018 v\u00ea o potencial dos poss\u00edveis candidatos com sinal trocado na mesma pesquisa. Huck tem 44% de aprova\u00e7\u00e3o; Lula, 32%; Marina, 24%; Jair Bolsonaro, 21%; Doria, 19%; Dilma, 18%; Renan, 15%; Alckmin, 14%, Ciro Gomes, 11%; FHC, 10%, para ficar nos dois d\u00edgitos. Vejam bem: n\u00e3o se trata de uma pesquisa eleitoral; \u00e9 uma pesquisa de imagem dessas personalidades, algumas das quais s\u00e3o pr\u00e9-candidatas assumidas; outras nem cogitam disputar as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como as pr\u00e9-campanhas mais agressivas s\u00e3o de Lula e Bolsonaro, quando s\u00e3o feitas as pesquisas eleitorais, ambos aparecem como protagonistas de uma radicalizada polariza\u00e7\u00e3o direita versus esquerda. Considerando-se, por\u00e9m, os \u00edndices de rejei\u00e7\u00e3o, pode ser que essa probabilidade n\u00e3o seja t\u00e3o grande assim. Ao olharmos com aten\u00e7\u00e3o a pesquisa Ipsos, veremos que a possibilidade do surgimento de alternativas de centro-direita (Huck, 44%; Doria, 19%) e centro-esquerda (Marina, 24%; Alckmin, 14%) realmente existe. Mas qual \u00e9 a dificuldade para isso? \u00c9 a rejei\u00e7\u00e3o aos partidos e pol\u00edticos que a\u00ed est\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande problema da constru\u00e7\u00e3o de uma candidatura do \u201ccentro democr\u00e1tico\u201d tem a ver com isso. E com a natureza da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o, que pode ser muito diferente do que aconteceu em 2010 e 2014, quando as estruturas de poder tiveram um peso decisivo na constru\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e no desfecho do resultado das urnas. As elei\u00e7\u00f5es municipais passadas, principalmente nas principais cidades do pa\u00eds, revelaram enorme descolamento da sociedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica tradicional. A elei\u00e7\u00e3o de domingo no Amazonas revelou \u00edndices astron\u00f4micos de absten\u00e7\u00e3o. Pode ser que essas tend\u00eancias persistam at\u00e9 o pr\u00f3ximo ano. Uma candidatura ao centro tamb\u00e9m pode surgir a partir da sociedade e n\u00e3o das estruturas de poder, como sempre acontece. Huck e Marina, muito mais do que Doria e Alckmin, est\u00e3o sinalizando isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A natureza da pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial pode ser muito diferente do que aconteceu em 2010 e 2014 H\u00e1 um ano a ex-presidente Dilma Rousseff subia ao cadafalso do Senado, que aprovou o seu impeachment em 31 de agosto, ap\u00f3s a longa agonia iniciada em 2 de dezembro de 2015. 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