{"id":1878,"date":"2017-09-01T13:06:37","date_gmt":"2017-09-01T16:06:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1878"},"modified":"2017-09-01T13:06:37","modified_gmt":"2017-09-01T16:06:37","slug":"nas-entrelinhas-violencia-e-desemprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-violencia-e-desemprego\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Viol\u00eancia e desemprego"},"content":{"rendered":"<p><em>Grosso modo, os indicadores de viol\u00eancia est\u00e3o associados ao desemprego e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Por isso, a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o d\u00e1 conta do problema sozinha<\/em><\/p>\n<p>O referendo sobre a proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de armas de fogo e muni\u00e7\u00e3o no Brasil, rejeitada por quase dois ter\u00e7os dos eleitores, em 23 de outubro de 2005, \u00e9 um dos fen\u00f4menos mal estudados da pol\u00edtica nacional. A derrota da proibi\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de armas e muni\u00e7\u00f5es foi resultado de uma reviravolta na opini\u00e3o p\u00fablica, ocorrida num prazo de 20 dias. No come\u00e7o, 80% dos cidad\u00e3os apoiavam a proibi\u00e7\u00e3o; quando foram apurados os votos, 63% (59,1 milh\u00f5es de eleitores) votaram n\u00e3o; 36,6% (33 milh\u00f5es de eleitores), sim. A frente parlamentar vitoriosa foi coordenada pelo ex-governador de S\u00e3o Paulo Luiz Ant\u00f4nio Fleury (PTB), um pol\u00edtico em decad\u00eancia, e pelo pol\u00eamico deputado Alberto Fraga (ent\u00e3o PFL-DF), coronel reformado da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>A chamada \u201cbancada da bala\u201d derrotou toda a elite pol\u00edtica do pa\u00eds, ou seja, os l\u00edderes do Executivo, do Legislativo e do Judici\u00e1rio, o alto clero e os mais importantes representantes da sociedade civil, como a OAB, por exemplo, sem falar nos artistas e intelectuais que aderiram \u00e0 campanha. O \u201cn\u00e3o\u201d venceu em todos os estados, com destaque para Rio Grande do Sul, Acre e Roraima, onde a op\u00e7\u00e3o recebeu cerca de 87% dos votos. O melhor desempenho do \u201csim\u201d foi em Pernambuco e no Cear\u00e1, com pouco mais de 45% dos votos.<\/p>\n<p>De acordo com o TSE, a absten\u00e7\u00e3o foi de pouco mais de 21% dos 123 milh\u00f5es de eleitores registrados. Os n\u00fameros se mostraram semelhantes ao resultado do segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2002, quando o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, um dos derrotados na consulta popular, se elegeu pela primeira vez. Somente 20,45% dos eleitores deixaram de votar. O direito \u00e0 autodefesa e a fragilidade da seguran\u00e7a p\u00fablica fizeram a cabe\u00e7a dos cidad\u00e3os, num pa\u00eds em que eram assassinadas a tiros 108 pessoas por dia.<\/p>\n<p>Na verdade, o cotidiano violento da popula\u00e7\u00e3o falou mais alto, num pa\u00eds no qual se estimava a exist\u00eancia de 17 milh\u00f5es de armas em poder de civis. Estat\u00edsticas do governo de S\u00e3o Paulo, no ano anterior, revelaram que 5% das v\u00edtimas de homic\u00eddios ocorridos no estado foram casos de latroc\u00ednio (morte seguida de roubo); os demais, execu\u00e7\u00f5es. Uma d\u00e9cada depois do plebiscito, a viol\u00eancia aumentou: o Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 homic\u00eddios em 2014, uma alta de 21,9% em compara\u00e7\u00e3o aos 48.909 \u00f3bitos registrados em 2003.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia de 29,1 para cada grupo de 100 mil habitantes tamb\u00e9m \u00e9 das maiores j\u00e1 registradas na hist\u00f3ria do pa\u00eds, e representava uma alta de 10% em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia de 26,5 de 2004. Os n\u00fameros s\u00e3o do Atlas da Viol\u00eancia 2016, estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica aplicada (Ipea) e o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FPSP). A pesquisa confirmou que jovens negros e com baixa escolaridade s\u00e3o as principais v\u00edtimas. Os homic\u00eddios representam cerca de 10% de todas as mortes no mundo, e, em n\u00fameros absolutos, o Brasil lidera a lista desse tipo de crime, mesmo considerando pa\u00edses em guerra civil, como Afeganist\u00e3o, Iraque e S\u00edria.<\/p>\n<p><strong>Humores<\/strong><\/p>\n<p>Grosso modo, os indicadores de viol\u00eancia est\u00e3o associados ao desemprego e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Por isso, a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o d\u00e1 conta do problema sozinha, embora seja fundamental para reduzir os indicadores de viol\u00eancia, haja vista, por exemplo, a situa\u00e7\u00e3o da crise de seguran\u00e7a no Rio de Janeiro, onde os indicadores vinham melhorando (redu\u00e7\u00e3o de 33,3% de mortes por homic\u00eddio, de 48,1 para 32,1 por mil habitantes), at\u00e9 que o governo fluminense entrou em colapso.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tem 13,3 milh\u00f5es de desempregados, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios) Cont\u00ednua, divulgada ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica). A redu\u00e7\u00e3o foi de 0,8 ponto percentual em compara\u00e7\u00e3o ao trimestre de fevereiro a abril (13,6%), mas \u00e9 irris\u00f3ria, diante do fato de que a melhora foi proporcionada pela informalidade e n\u00e3o pela cria\u00e7\u00e3o de vagas de carteira assinada, como era esperado. Ao comparar com o mesmo trimestre de 2016, 1,5 milh\u00e3o de trabalhadores ficaram desempregados.O n\u00famero de trabalhadores com carteira assinada manteve-se est\u00e1vel em 33,3 milh\u00f5es frente ao trimestre anterior. Na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo trimestre de 2016, a queda foi de 1 milh\u00e3o de pessoas (2,9%).<\/p>\n<p>O volume de empregados na informalidade, ou seja, sem carteira assinada, cresceu 4,6%, para 10,7 milh\u00f5es de pessoas. Isso significa que 468 mil pessoas ingressaram no mercado de trabalho na informalidade (em um ano, a alta ficou em 5,6%, com 566 mil pessoas inseridas). O contingente de trabalhadores por conta pr\u00f3pria aumentou em 351 mil, para 22,6 milh\u00f5es de pessoas (1,6%), na compara\u00e7\u00e3o trimestral.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre os \u00edndices de desemprego e os indicadores de viol\u00eancia, embora n\u00e3o seja a \u00fanica. H\u00e1 que se considerar, por exemplo, o fator educa\u00e7\u00e3o; sem falar na quest\u00e3o da legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, cujo impacto nos indicadores de viol\u00eancia s\u00e3o comprovados. Desemprego e viol\u00eancia mexem com os humores do eleitor. Nesse aspecto, \u00e9 bom lembrar o que houve no referendo das armas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grosso modo, os indicadores de viol\u00eancia est\u00e3o associados ao desemprego e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. 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