{"id":1948,"date":"2017-09-24T09:02:08","date_gmt":"2017-09-24T12:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1948"},"modified":"2017-09-24T09:02:08","modified_gmt":"2017-09-24T12:02:08","slug":"nas-entrelinhas-o-cerco-rocinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-cerco-rocinha\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O cerco \u00e0 Rocinha"},"content":{"rendered":"<p><em>Os traficantes cariocas disp\u00f5em de uma topografia favor\u00e1vel, enraizamento social e fonte permanente de financiamento: a venda de drogas<\/em><\/p>\n<p>Quem leu Os Sert\u00f5es (1902), de Euclides da Cunha, e Abusado (2003), de Caco Barcellos, tra\u00e7a um inevit\u00e1vel paralelo entre a iniquidade social que deu origem ao povoado de Canudos, no sert\u00e3o baiano, e a do Morro Dona Marta, na encosta de Botafogo, no Rio de Janeiro. Os Sert\u00f5es conta a hist\u00f3ria de Ant\u00f4nio Conselheiro, um l\u00edder messi\u00e2nico; Abusado, a de Marcinho VP, um traficante carioca. O soldado do tr\u00e1fico \u00e9 um jagun\u00e7o urbano. Euclides de Cunha fez a cobertura da quarta campanha de Canudos (1896-1897) para o jornal O Estado de S\u00e3o Paulo. Seu livro, por\u00e9m, escandalizou a opini\u00e3o p\u00fablica. Al\u00e9m de revelar a mis\u00e9ria e o abandono dos habitantes do interior do pa\u00eds, desnudou o despreparo do Ex\u00e9rcito para lidar com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na terceira campanha contra Canudos, o coronel Moreira C\u00e9sar, que havia reprimido a Revolu\u00e7\u00e3o Federalista (1893-1895) e fora enviado pelo presidente Prudente de Moraes para acabar com a rebeli\u00e3o, liderou um desastre. Com canh\u00f5es Krupp e armas de repeti\u00e7\u00e3o, seus 1.300 soldados invadiram o arraial de 5 mil casebres com facilidade. Os jagun\u00e7os n\u00e3o ofereceram resist\u00eancia, bateram em retirada para os arredores, na caatinga, de onde fustigaram as tropas federais durante a noite. Moreira C\u00e9sar foi morto por uma bala trai\u00e7oeira e a tropa se desorientou, perdida entre palho\u00e7as incendiadas. O tenente-coronel Tamarindo, que assumira o comando, ordenou a retirada: \u201c\u00c9 tempo de murici; cada um cuide de si!\u201d. A fuga virou carnificina:<\/p>\n<p>\u201cConclu\u00eddas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e muni\u00e7\u00f5es de guerra, os jagun\u00e7os reuniram os cad\u00e1veres que jaziam esparsos em v\u00e1rios pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabe\u00e7as, regularmente espa\u00e7adas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, cal\u00e7as e d\u00f3lm\u00e3s multicores, selins, cintur\u00f5es, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas&#8230;(&#8230;) Um pormenor doloroso completou essa encena\u00e7\u00e3o cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do tenente-coronel Tamarindo.<br \/>\nEra assombroso&#8230; Como um manequim terrivelmente l\u00fagubre, o cad\u00e1ver desaprumado, bra\u00e7os e pernas pendidos, oscilando \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do vento no galho flex\u00edvel e vergado, aparecia nos ermos feito uma vis\u00e3o demon\u00edaca.\u201d<\/p>\n<p><strong>O massacre<\/strong><br \/>\nEm resposta, o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, mandou para Canudos duas colunas com mais de 4 mil homens. De janeiro a setembro, o Ex\u00e9rcito penou. O pr\u00f3prio Bittencourt foi para a regi\u00e3o organizar as linhas de suprimento e o cerco a Canudos. A morte de Ant\u00f4nio Conselheiro, possivelmente por disenteria, facilitou a vit\u00f3ria do Ex\u00e9rcito, que prometeu liberdade aos que se entregassem, mas bombardeou o arraial impiedosamente. Homens, mulheres e crian\u00e7as foram degolados, a \u201cgravata vermelha\u201d. O corpo de Ant\u00f4nio Conselheiro foi exumado, decapitado e queimado. Mais de 12 mil soldados de 17 regi\u00f5es do Brasil participaram do massacre de 25 mil pessoas. Mais tarde, as revela\u00e7\u00f5es de Euclides da Cunha levaram a jovem oficialidade a engrossar o Movimento Tenentista.<\/p>\n<p>As For\u00e7as Armadas cercaram a Rocinha na sexta-feira. T\u00eam homens treinados e equipados no Haiti para esse tipo de opera\u00e7\u00e3o, mas enfrentam uma realidade diferente da caribenha, principalmente porque n\u00e3o est\u00e3o numa ilha nem disp\u00f5em do mesmo amparo legal para intervir. Os traficantes cariocas disp\u00f5em de uma topografia favor\u00e1vel, enraizamento social e fonte permanente de financiamento: a venda de drogas.\u00a0Est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o muito melhor do que os jagun\u00e7os na caatinga. Um confronto aberto resultaria numa trag\u00e9dia. O cerco \u00e0 Rocinha \u00e9 uma miss\u00e3o dif\u00edcil, de resultados at\u00e9 agora p\u00edfios. Parece at\u00e9 ironia, mas as favelas do Rio receberam esse nome por causa dos casebres dos soldados que lutaram em Canudos e foram morar no Morro de Provid\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os traficantes cariocas disp\u00f5em de uma topografia favor\u00e1vel, enraizamento social e fonte permanente de financiamento: a venda de drogas Quem leu Os Sert\u00f5es (1902), de Euclides da Cunha, e Abusado (2003), de Caco Barcellos, tra\u00e7a um inevit\u00e1vel paralelo entre a iniquidade social que deu origem ao povoado de Canudos, no sert\u00e3o baiano, e a do Morro Dona Marta, na encosta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[113,9,3,115,80,68],"tags":[89,69],"class_list":["post-1948","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-militares","category-politica-2","category-politica","category-rio-de-janeiro","category-seguranca","category-violencia","tag-riodejaneiro","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1948"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1954,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1948\/revisions\/1954"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}