{"id":203,"date":"2016-03-03T06:44:00","date_gmt":"2016-03-03T09:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=203"},"modified":"2016-03-03T06:47:35","modified_gmt":"2016-03-03T09:47:35","slug":"o-bom-burgues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-bom-burgues\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: O \u201cBom Burgu\u00eas\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>De todos os executivos presos, L\u00e9o Pinheiro era considerado pelos pol\u00edticos o mais \u201cboa pra\u00e7a\u201d no trato. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se relacionava pessoalmente com o ex-presidente Lula<\/em><\/p>\n<p>Jorge Medeiros Valle, banc\u00e1rio carioca, \u00e9 um dos personagens mais controvertidos da esquerda que optou pela luta armada durante o regime militar. Sua hist\u00f3ria virou filme, cujo nome intitula a coluna, estrelado pelo falecido ator Jos\u00e9 Wilker, uma vers\u00e3o glamourizada de sua vida, que mais tarde foi desnudada na disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da professora Valesca de Souza Almeida. Funcion\u00e1rio do Banco do Brasil, Valle foi preso em julho de 1969, quando os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a do regime militar descobriram que ele havia desviado 2 milh\u00f5es de cruzeiros novos da ag\u00eancia em que trabalhava, para financiar organiza\u00e7\u00f5es clandestinas dedicadas \u00e0 luta armada contra a ditadura militar.<\/p>\n<p>O \u201cBom Burgu\u00eas\u201d, como ficaria conhecido, cumpriu pena de seis anos na Ilha das Flores. Foi condenado novamente em 1975, mas exilou-se no M\u00e9xico com a sua fam\u00edlia, a fim de escapar de uma nova temporada no c\u00e1rcere. Embora a sua trajet\u00f3ria tenha pontos em comum com a de outros militantes da luta armada, tinha um perfil completamente distinto dos jovens que haviam optado por pegar em armas na clandestinidade. Manteve a apar\u00eancia de vida normal para um burocrata. A partir da sua entrada para o Banco do Brasil, em 1952, atuou como sindicalista, chegando a pensar em se candidatar a presidente do Sindicato. Depois do golpe militar de 1964, por\u00e9m, afastou-se do sindicato e ligou-se ao PCBR, uma dissid\u00eancia do antigo PCB liderada pelos dirigentes comunistas Mario Alves, assassinado na pris\u00e3o em janeiro de 1970, e Apol\u00f4nio de Carvalho, que mais tarde viria a ser um dos fundadores do PT.<\/p>\n<p>Como exercia uma fun\u00e7\u00e3o subalterna no banco, mas de confian\u00e7a dos gerentes na compensa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria, arquitetou um plano simples para desviar dinheiro para a guerrilha urbana. Abria contas em pequenos bancos e emitia cheques na ag\u00eancia em que trabalhava para essas contas. Quando o cheque chegava na compensa\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o debitava a ag\u00eancia, mas trocava o cheque falso, que destru\u00eda, por uma ordem de pagamento, que ele mesmo recebia. Ou seja, atrav\u00e9s da ordem de pagamento que substitu\u00eda o cheque falso, fornecia um cr\u00e9dito a ele mesmo, recebido em outro banco, fazendo com que a opera\u00e7\u00e3o gerasse uma d\u00edvida para o Banco do Brasil.<\/p>\n<p>O \u201cBom Burgu\u00eas\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia para analisar o caso de outro personagem, o empres\u00e1rio Jos\u00e9 Adelm\u00e1rio Pinheiro, o L\u00e9o Pinheiro, dono da OAS, que negocia dela\u00e7\u00e3o premiada com investigadores da Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica (PGR) respons\u00e1veis pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Um dos empres\u00e1rios mais pr\u00f3ximos do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, ele deve contar detalhes sobre o esquema de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras e sobre as obras feitas pela empreiteira em im\u00f3veis de Atibaia e do Guaruj\u00e1 para a fam\u00edlia do petista. Ou seja, \u00e9 um homem-bomba.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Federal apreendeu mensagens de celular trocadas por L\u00e9o Pinheiro com outros executivos e dezenas de pol\u00edticos. Condenado a 16 anos e quatro meses de pris\u00e3o por envolvimento no esquema de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, Pinheiro aguarda decis\u00e3o do Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o (TRF-4) a respeito. A Corte tem confirmado decis\u00f5es tomadas pelo juiz S\u00e9rgio Moro no primeiro grau. Preso preventivamente na Lava-Jato em novembro de 2014, com outros empreiteiros do pa\u00eds, foi solto no ano passado, por ordem do Supremo Tribunal Federal, sem concretizar a colabora\u00e7\u00e3o, mas agora corre o risco de voltar para a cadeia ap\u00f3s a decis\u00e3o do TRF-4.<\/p>\n<p>De todos os executivos presos, L\u00e9o Pinheiro era considerado pelos pol\u00edticos o mais \u201cboa pra\u00e7a\u201d no trato. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se relacionava pessoalmente com o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva de maneira diferenciada. Ao lado de Marcelo Odebrecht, Ot\u00e1vio Andrade e Ricardo Pessoa, era um dos comandantes do cartel de empreiteiras que desviava recursos da Petrobras por meio de contratos superfaturados, em troca de polpudas doa\u00e7\u00f5es eleitorais para o PT e outros partidos da base do governo. Mas o que tem a ver a hist\u00f3ria de Jorge Medeiro do Valle, que amargou pris\u00e3o e ex\u00edlio, com a de L\u00e9o Pinheiro, que fez carreira \u00e0 sombra do regime militar? Pessoalmente, nada. A concep\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas envolvidas nos dois casos, por\u00e9m, \u00e9 a mesma. O desvio de recursos do Banco do Brasil para a luta armada foi considerado t\u00e3o leg\u00edtimo quando as doa\u00e7\u00f5es eleitorais alimentadas pela corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras. Em ambos os casos, por\u00e9m, trata-se do desvio de dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o xis da quest\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que agora investiga o financiamento das campanhas eleitorais de 2006, quando Lula se reelegeu, e de 2010 e 2014, que levaram Dilma Rousseff ao Pal\u00e1cio do Planalto. Ot\u00e1vio Azevedo, ex-presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, por exemplo, afirmou \u00e0 Lava-Jato que negociou com o ex-ministro Ant\u00f4nio Palocci o pagamento de R$ 6 milh\u00f5es para o caixa dois da campanha de Dilma em 2010. No acordo de dela\u00e7\u00e3o, Azevedo disse que o repasse foi feito via contrato fict\u00edcio com uma ag\u00eancia de comunica\u00e7\u00e3o que atendia ao PT. Mais cedo ou mais tarde, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) ter\u00e3o que se pronunciar sobre a verdadeira natureza das doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De todos os executivos presos, L\u00e9o Pinheiro era considerado pelos pol\u00edticos o mais \u201cboa pra\u00e7a\u201d no trato. 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