{"id":2088,"date":"2017-11-07T08:31:03","date_gmt":"2017-11-07T10:31:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2088"},"modified":"2017-11-07T08:31:03","modified_gmt":"2017-11-07T10:31:03","slug":"nas-entrelinhas-100-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-100-anos-depois\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas:  100 anos depois"},"content":{"rendered":"<p>O centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, por causa da ado\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio gregoriano pelos russos, um legado dos bolcheviques, comemora-se hoje. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa, que come\u00e7ou em fevereiro, com a destitui\u00e7\u00e3o do czar Nicolau II, provocou grande entusiasmo entre os intelectuais brasileiros antenados no mundo. J\u00e1 naquela \u00e9poca, havia socialistas de diversos matizes nos nossos meios intelectuais, mas o que predominava no movimento oper\u00e1rio e sindical, que promoveu uma onda de greves por todo o pa\u00eds naquele mesmo ano, eram as ideias anarquistas.<\/p>\n<p>Foi nesse meio que surgiu o Partido Comunista, sob a lideran\u00e7a de Astrojildo Pereira, em 1922, o mesmo ano da Semana de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo. A mesma divis\u00e3o que ocorrera na R\u00fassia entre social-democratas e comunistas, a partir da tomada do poder pelos bolcheviques, se reproduziu em todo o mundo. No Brasil, n\u00e3o foi muito diferente. Num per\u00edodo conturbado da Rep\u00fablica, que estava sob comando das oligarquias, muitas das quais remanescentes do regime escravocrata, o antigo Partido Comunista (PCB) era uma se\u00e7\u00e3o da III Internacional, refletia a doutrina e seguia as orienta\u00e7\u00f5es de Moscou, em confronto aberto com os social-democratas e outras tend\u00eancias socialistas.<\/p>\n<p>As ideias comunistas no Brasil eram consideradas muito ex\u00f3ticas e pouca influ\u00eancia tinham na vida nacional, at\u00e9 que Astrojildo Pereira viajou para Bol\u00edvia com uma mala de livros marxistas, entre os quais O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, de L\u00eanin, para um encontro com Luiz Carlos Prestes. O l\u00edder tenentista havia se exilado, depois de percorrer 25 mil quil\u00f4metros, em 11 estados, a maioria a p\u00e9, \u00e0 frente de 1.500 homens, a chamada Coluna Prestes. Tornara-se um mito. Foi assim que Prestes aderiu ao comunismo, se recusou a comandar a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que considerava burguesa, e agregou o seu prest\u00edgio popular e militar ao min\u00fasculo PCB.<\/p>\n<p>De Moscou, Prestes articulou a cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL), em 1934, da qual foi presidente de honra. Reuniu, entre outras personalidades, Herculino Cascardo (presidente), Amoreti Os\u00f3rio (vice-presidente), Francisco Mangabeira, Roberto Sisson, Benjamim Soares Cabello e Manuel Ven\u00e2ncio Campos da Paz, Mo\u00e9sia Rolim, Carlos da Costa Leite, Greg\u00f3rio Louren\u00e7o Bezerra, Caio Prado J\u00fanior, Apar\u00edcio Torelly, Miguel Costa, Maur\u00edcio de Lacerda, Abguar Bastos, os ex-interventores como Filipe Moreira Lima (Cear\u00e1) e Magalh\u00e3es Barata (Par\u00e1), o deputado federal Domingos Velasco e o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto.<\/p>\n<p>O programa da ALN foi lido no lan\u00e7amento pelo jovem Carlos Lacerda. Seguia as orienta\u00e7\u00f5es do VII Congresso da Internacional Comunista, para cujo bur\u00f4 (o Comintern) Prestes havia sido eleito. Na ess\u00eancia, era um programa anti-imperialista e antifascista, que expressava o c\u00e9lebre \u201cinforme\u201d do b\u00falgaro George Dimitrof, seu secret\u00e1rio-geral, sobre unidade das for\u00e7as populares na luta contra o fascismo. Mas traduzia tamb\u00e9m a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em curso no pa\u00eds, com crescimento do integralismo e, sobretudo, a simpatias de Vargas e de parte do governo pelo Eixo (a alian\u00e7a Alemanha-It\u00e1lia-Jap\u00e3o).<\/p>\n<p>Paradigmas<\/p>\n<p>Sentindo-se amea\u00e7ado, Vargas resolveu fechar a ALN, que j\u00e1 reunia um milh\u00e3o de militantes. \u00c9 a\u00ed que Prestes retorna ao pa\u00eds com a miss\u00e3o de organizar uma insurrei\u00e7\u00e3o nos moldes sovi\u00e9ticos, como se tentara na Alemanha e na China, sem sucesso, o que aconteceu de forma precipitada em 27 de novembro de 1935, nos quart\u00e9is do Rio, Recife e Natal. O resto da hist\u00f3ria \u00e9 mais conhecida. Foi nesse processo que se consolidou um pensamento hegem\u00f4nico na esquerda brasileira, que parece renascer das cinzas sempre que surge uma oportunidade, apesar de ter se tornado anacr\u00f4nico, principalmente depois da guerra fria. S\u00e3o ideias que n\u00e3o morreram completamente, mesmo depois do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da queda do muro de Berlim, quando nada porque alguns de seus paradigmas est\u00e3o viv\u00edssimos.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 a ditadura do partido como for\u00e7a capaz de promover a moderniza\u00e7\u00e3o e combater as desigualdades sociais (China e Vietn\u00e3, na \u00c1sia). Outro velho dogma \u00e9 a tese de que um pa\u00eds perif\u00e9rico n\u00e3o pode se tornar uma na\u00e7\u00e3o desenvolvida sem romper as cadeias de domina\u00e7\u00e3o (Cuba, na Am\u00e9rica Latina). Finalmente, a tese de L\u00eanin de que o capitalismo de Estado \u00e9 a antessala do socialismo, que legitima governos autorit\u00e1rios em Angola, Mo\u00e7ambique e Venezuela. J\u00e1 a Coreia do Norte \u00e9 um caso \u00e0 parte: ainda vive uma monarquia no \u201ccomunismo de guerra\u201d.<\/p>\n<p>Historicamente, o capitalismo de Estado foi uma via de industrializa\u00e7\u00e3o, tanto para os regimes fascistas que tomaram conta da Europa, como para os regimes comunistas do Leste europeu. H\u00e1 uma certa simbiose entre o modelo econ\u00f4mico e o regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio. No livro A Quarta Revolu\u00e7\u00e3o, Adrian Wooldridge e John Micklethwait, seus autores, advertem que existe uma corrida mundial para reinventar o Estado, na qual regimes autorit\u00e1rios do Oriente est\u00e3o levando certa vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s democracias do Ocidente. Esse \u00e9 o perigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, por causa da ado\u00e7\u00e3o do calend\u00e1rio gregoriano pelos russos, um legado dos bolcheviques, comemora-se hoje. 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