{"id":214,"date":"2016-03-06T08:44:22","date_gmt":"2016-03-06T11:44:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=214"},"modified":"2016-03-06T08:44:22","modified_gmt":"2016-03-06T11:44:22","slug":"nas-entrelinhas-lula-ou-moro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lula-ou-moro\/","title":{"rendered":"Nas Entrelinhas: Lula ou Moro?"},"content":{"rendered":"<p><em>Estamos assistindo um duelo de personalidades que nos remete ao mito do her\u00f3i<\/em><\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa Hannah Arendt, em A Condi\u00e7\u00e3o Humana, destaca que a coragem vai al\u00e9m da qualidade indispens\u00e1vel \u00e0quele que tenha travado grandes batalhas, tem a ver com \u201cdisposi\u00e7\u00e3o de agir e falar e inserir-se no mundo e come\u00e7ar uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria\u201d. Nesse contexto, o her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 necessariamente o homem de grandes feitos, equivalente a um semideus; trata-se de um indiv\u00edduo comum que se insere e se destaca no mundo por meio do discurso e da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mito do her\u00f3i remonta \u00e0 Antiguidade na Gr\u00e9cia, \u00e9 l\u00e1 que est\u00e3o os seus arqu\u00e9tipos. O her\u00f3i hom\u00e9rico da Il\u00edada sustenta-se em dois pilares: a grandiosidade e a singularidade. Ele aspira \u00e0 imortalidade. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que \u00e9 um semideus. Mas ele precisa ter uma exist\u00eancia humana verdadeira. Sua constru\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e tamb\u00e9m a volta para casa, a vida normal \u2014 at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o exija outro ato glorioso e individual, de grande bravura. A imortalidade, por\u00e9m, s\u00f3 vem com a morte. O her\u00f3i semideus faz coisas sobre-humanas, mas n\u00e3o \u00e9 imortal.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existe uma esp\u00e9cie de her\u00f3i noir, por exemplo. \u00c9 o cara comum, cheio de defeitos, que faz coisas incomuns. O alco\u00f3latra desempregado que pula na linha do metr\u00f4 para salvar uma crian\u00e7a arriscando a pr\u00f3pria vida. O morador de rua que morre ao tentar salvar uma senhorinha na porta da catedral. Na sociedade, o hero\u00edsmo \u00e9 o ant\u00eddoto para o mal. As crian\u00e7as s\u00e3o educadas para serem her\u00f3is \u00e0 espera de uma oportunidade de demonstrar sua bravura.<\/p>\n<p>Quase todos t\u00eam oportunidade de ser her\u00f3i na vida, mas deixam passar. Isso n\u00e3o significa que sejam covardes. Todo covarde tamb\u00e9m pode se tornar um her\u00f3i por acaso. O cara \u201cdo bem\u201d vive \u00e9 \u00e0 espera da oportunidade de provar seu hero\u00edsmo. Se n\u00e3o pode faz\u00ea-lo, aposta suas fichas em algu\u00e9m que esteja cumprindo esse papel. O her\u00f3i \u00e9 sempre aquele que entra em a\u00e7\u00e3o quando os outros est\u00e3o paralisados. Precisa fazer aquilo que outro poderia ter feito, mas n\u00e3o fez; ou melhor, o que n\u00f3s deixamos de fazer.<\/p>\n<p>Hannah tamb\u00e9m nos remete \u00e0 ant\u00edtese do her\u00f3i na sua obra mais famosa e controvertida, Eichmann em Jerusal\u00e9m. Nesse livro cunhou a express\u00e3o: \u201cA banalidade do mal\u201d. Ao acompanhar o julgamento do criminoso nazista, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a natureza humana n\u00e3o fora transformada pelo mal totalit\u00e1rio como imaginava: \u201cN\u00e3o se pode extrair qualquer profundidade diab\u00f3lica ou demon\u00edaca de Eichmann\u201d. Ele era um burocrata med\u00edocre que cumpria ordens, no caso, mandar \u00e0s c\u00e2meras de g\u00e1s milhares de seres humanos, principalmente judeus.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o filos\u00f3fica nos ajuda a examinar a conjuntura. Desde sexta-feira estamos assistindo a um duelo de personalidades que nos remete ao mito do her\u00f3i. Trata-se, \u00e9 \u00f3bvio, do embate entre o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, o mais carism\u00e1tico l\u00edder pol\u00edtico do pa\u00eds desde Getulio Vargas, e o circunspecto juiz federal S\u00e9rgio Moro, de Curitiba, respons\u00e1vel pelas investiga\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. No s\u00e1bado retrasado, Lula atacou publicamente o juiz na festa de anivers\u00e1rio do PT, acusando-o de exorbitar nas suas fun\u00e7\u00f5es. O petista sabia que havia um pedido de busca e apreens\u00e3o na sua resid\u00eancia e de condu\u00e7\u00e3o coercitiva para depor sobre as suspeitas de seu envolvimento no esc\u00e2ndalo da Petrobras. O juiz aceitou o pedido e, na sexta-feira, teve in\u00edcio a opera\u00e7\u00e3o Alethea, a 24\u00aa fase da Lava-Jato. Lula foi levado a depor num posto da Pol\u00edcia Federal do Aeroporto de Congonhas.<\/p>\n<p>O ex-presidente da Rep\u00fablica virou uma jararaca. Tr\u00eas horas depois de liberado, antecipou sua candidatura a presidente da Rep\u00fablica em 2018, politizou o processo criminal que o investiga e conclamou seus militantes, simpatizantes e aliados \u00e0 luta pol\u00edtica nas ruas, contra as investiga\u00e7\u00f5es da Lava-Jato e a cassa\u00e7\u00e3o de mandato ou o impeachment da presidente Dilma Rousseff em decorr\u00eancia dos malfeitos sob investiga\u00e7\u00e3o. Todos os que defendem a sa\u00edda da presidente da Rep\u00fablica do cargo ou as decis\u00f5es de Moro s\u00e3o considerados golpistas de direita, reacion\u00e1rios que conspiram contra a democracia.<\/p>\n<p>Moro s\u00f3 se pronuncia nos autos ou eventos de natureza jur\u00eddica, mas se tornou uma personalidade nacional. \u00c9 aplaudido e cumprimentado nas ruas. Representa os \u00f3rg\u00e3os de controle do Estado e a \u00e9tica da responsabilidade, que zelam pela legitimidade dos meios empregados na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Lula \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o da \u00e9tica das convic\u00e7\u00f5es, se move pelos seus objetivos pol\u00edticos, n\u00e3o importa os meios. Seu discurso, por\u00e9m, banaliza o fisiologismo, o patrimonialismo, a corrup\u00e7\u00e3o e o desvio de recursos p\u00fablicos. Ocorre que a sociedade j\u00e1 n\u00e3o tolera \u201co todo mundo faz\u201c, principalmente em raz\u00e3o da recess\u00e3o, do desemprego e da infla\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o abomine no dia a dia o \u201cjeitinho brasileiro\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos assistindo um duelo de personalidades que nos remete ao mito do her\u00f3i A fil\u00f3sofa Hannah Arendt, em A Condi\u00e7\u00e3o Humana, destaca que a coragem vai al\u00e9m da qualidade indispens\u00e1vel \u00e0quele que tenha travado grandes batalhas, tem a ver com \u201cdisposi\u00e7\u00e3o de agir e falar e inserir-se no mundo e come\u00e7ar uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria\u201d. 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