{"id":2143,"date":"2017-11-26T10:23:12","date_gmt":"2017-11-26T12:23:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2143"},"modified":"2017-11-26T10:44:09","modified_gmt":"2017-11-26T12:44:09","slug":"nas-entrelinhas-americanismo-ou-iberismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-americanismo-ou-iberismo\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Americanismo ou iberismo"},"content":{"rendered":"<p><em>A redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds n\u00e3o modificou as caracter\u00edsticas ib\u00e9ricas da nossa pol\u00edtica, embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tenha criado mecanismos para erradicar as suas principais mazelas<\/em><\/p>\n<p>A pol\u00edtica brasileira tem tr\u00eas caracter\u00edsticas dominantes: o clientelismo, o fisiologismo e o patrimonialismo. Autores que estudaram o fen\u00f4meno, como Victor Nunes Leal, S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, as atribuem ao colonialismo ib\u00e9rico, que organizou o Estado brasileiro muito antes da forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Essas caracter\u00edsticas antecedem a forma\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos brasileiros, que surgiram com ideias mitigadas para que o atraso pudesse pegar carona no moderno e manter-se.<\/p>\n<p>Para dar um exemplo, voltemos \u00e0 Independ\u00eancia, que est\u00e1 \u00e0s v\u00e9speras do bicenten\u00e1rio. O Brasil tornou-se um Imp\u00e9rio em 1822, e n\u00e3o uma Rep\u00fablica, em raz\u00e3o do projeto de reunifica\u00e7\u00e3o da Coroa portuguesa e dos interesses dos senhores de escravos em manter o tr\u00e1fico negreiro, s\u00f3 n\u00e3o anexando Angola porque a Inglaterra n\u00e3o deixou. Mas Dom Pedro I outorgou a Constitui\u00e7\u00e3o de 1824, ou seja, de cima para baixo, com um vi\u00e9s liberal. A introdu\u00e7\u00e3o no texto constitucional do princ\u00edpio da propriedade privada \u2014 uma conquista das revolu\u00e7\u00f5es burguesas \u2014 foi feita com o objetivo de proteger o regime escravocrata. Conseguiu: a escravid\u00e3o somente foi abolida em 1888. Um ano depois, as oligarquias regionais que haviam se amalgamado \u00e0 pol\u00edtica do Gabinete de Concilia\u00e7\u00e3o do Marqu\u00eas de Paran\u00e1, contendo revoltas e revolu\u00e7\u00f5es separatistas e\/ou republicanas, derivaram para o regime republicano sob influ\u00eancia positivista da Escola Militar da Praia Vermelha. O povo assistiu \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica \u201cbestificado\u201d.<\/p>\n<p>Mas o velho iberismo domou a Rep\u00fablica agrarista com seu atavismo, por meio das fraudes eleitorais dos \u201ccoron\u00e9is\u201d para se manter no poder, contra a emerg\u00eancia das camadas m\u00e9dias e trabalhadores urbanos. Acabou levando o regime caf\u00e9 com leite ao colapso. A revolu\u00e7\u00e3o burguesa se completou pela via das armas, com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e, depois, em 1937, com o Estado Novo. O ditador que representava a pol\u00edtica castilhista do Brasil meridional, Get\u00falio Vargas, manteve-se no poder e derrotou as elites paulistas gra\u00e7as \u00e0 alian\u00e7a com as oligarquias do Norte e Nordeste, que novamente emergiram como a for\u00e7a pol\u00edtica decisiva na Segunda Rep\u00fablica. O velho iberismo manteve-se firme e forte, ou seja: o clientelismo eleitoral, o fisiologismo pol\u00edtico e o patrimonialismo como via de enriquecimento e preserva\u00e7\u00e3o do poder. O populismo de Vargas, a for\u00e7a pol\u00edtica e eleitoral dominante nos grandes centros urbanos, tamb\u00e9m assimilou as mesmas pr\u00e1ticas, levando-as para os meios urbanos.<\/p>\n<p><strong>A lanterna<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 que a crise de financiamento do Estado e a necessidade de avan\u00e7ar no processo de moderniza\u00e7\u00e3o, em plena guerra fria, levaram \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Entre dois projetos de desenvolvimento distintos, a democracia brasileira tamb\u00e9m se foi de rold\u00e3o. Os militares protagonizaram novo projeto de moderniza\u00e7\u00e3o; para legitim\u00e1-lo e se manter no poder, reconstitu\u00edram o velho pacto com as oligarquias conservadoras. O clientelismo, o fisiologismo e o patrimonialismo sobreviveram num regime bipartid\u00e1rio cujo objetivo era institucionalizar o regime autorit\u00e1rio via \u201cmexicaniza\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A redemocratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o modificou as caracter\u00edsticas ib\u00e9ricas da nossa pol\u00edtica, embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tenha criado mecanismos para erradicar as principais mazelas, como aconteceu com o nepotismo nas carreiras de estado, de \u00f3rg\u00e3os e de empresas p\u00fablicas. O colapso do modelo de financiamento da pol\u00edtica e dos partidos, via desvio de recursos p\u00fablicos e caixa dois, com a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, \u00e9 resultante disso, num contexto de novo ciclo de moderniza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira com caracter\u00edsticas hegemonicamente ex\u00f3genas, decorrentes da globaliza\u00e7\u00e3o e de aceleradas mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que nos deparamos com um novo projeto de \u201cfuga para frente\u201d, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cutopias regressivas\u201d \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, do deputado Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que ainda apostam no Estado como via de moderniza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Sob a \u00e9gide da \u00e9tica na pol\u00edtica, essa tend\u00eancia busca um canal de express\u00e3o na pol\u00edtica tradicional para participar da sucess\u00e3o de 2018 e romper as muralhas do iberismo. Com ideias liberais p\u00f3s-modernas, o novo americanismo se expressa pelas redes sociais, busca um candidato competitivo e um partido para chamar de seu. Lembra um pouco o aristocr\u00e1tico Carlos Maia e histri\u00f4nico Jo\u00e3o da Ega, personagens de E\u00e7a de Queiroz, que seguem apressadamente, e s\u00f4fregos, a luz vermelha da lanterna do americano na escurid\u00e3o da noite de Lisboa: \u201cAinda o apanhamos! Ainda o apanhamos!\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds n\u00e3o modificou as caracter\u00edsticas ib\u00e9ricas da nossa pol\u00edtica, embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 tenha criado mecanismos para erradicar as suas principais mazelas A pol\u00edtica brasileira tem tr\u00eas caracter\u00edsticas dominantes: o clientelismo, o fisiologismo e o patrimonialismo. 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