{"id":2183,"date":"2017-12-10T13:07:20","date_gmt":"2017-12-10T15:07:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2183"},"modified":"2017-12-10T13:07:20","modified_gmt":"2017-12-10T15:07:20","slug":"o-passado-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-passado-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"O passado e o futuro"},"content":{"rendered":"<p><em>For\u00e7as que desempenharam um papel democr\u00e1tico e transformador, com as mudan\u00e7as em curso, ao se oporem a elas, acabam se colocando no papel de elementos reacion\u00e1rios e conservadores<\/em><\/p>\n<p>Os elos entre o passado e o presente no Brasil s\u00e3o cheios de surpresas e singularidades. Vejamos, por exemplo, o caso do populismo. As for\u00e7as que resistiram ao regime militar somente tiveram \u00eaxito porque recusaram a centralidade do Estado e buscaram refor\u00e7ar e organizar a autonomia da sociedade civil na luta pelo restabelecimento da democracia. Feita a transi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, mesmo ap\u00f3s a Constituinte, o patrimonialismo, o clientelismo e o fisiologismo, que sobreviveram a duas moderniza\u00e7\u00f5es autocr\u00e1ticas, continuaram firmes e fortes e o velho populismo renasceu das cinzas depois do fim da \u201cguerra fria\u201d. Tanto um quanto outro, por\u00e9m, entraram em crise com a globaliza\u00e7\u00e3o e as novas rela\u00e7\u00f5es do Brasil com o mundo em transforma\u00e7\u00e3o, que cobram uma mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es entre o Estado e a sociedade.<\/p>\n<p>Um novo ciclo est\u00e1 se fechando, mas o novo ainda n\u00e3o se abriu, seja por causa desses la\u00e7os com o passado, seja em raz\u00e3o de que a nova agenda do pa\u00eds n\u00e3o foi constru\u00edda. Por onde passa essa agenda? Em primeiro lugar, pela transnacionaliza\u00e7\u00e3o das nossas cadeias produtivas e integra\u00e7\u00e3o competitiva \u00e0 economia mundial; em segundo, por um novo pacto entre o Estado, o mercado e a sociedade, no qual a moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00ea \u00e0 custa de mais exclus\u00e3o e desigualdades regionais; terceiro, pela renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e fortalecimento da nossa democracia representativa, o que n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil diante das mudan\u00e7as em curso,\u00a0 da emerg\u00eancia das redes sociais e da crise \u00e9tica dos partidos.<\/p>\n<p>Esse novo cen\u00e1rio faz com que os sinais sejam trocados. For\u00e7as que desempenharam um papel democr\u00e1tico e transformador, com as mudan\u00e7as em curso, ao se oporem a elas, n\u00e3o no sentido da sua forma espec\u00edfica apenas, mas ao rumo geral, acabam se colocando no papel de elementos reacion\u00e1rios e conservadores, num contexto delicado da vida nacional, em que estamos saindo com \u00eaxito de uma das mais graves recess\u00f5es da nossa hist\u00f3ria, gra\u00e7as a um governo eficiente do ponto de vista da economia e das rela\u00e7\u00f5es com o Congresso, mas que opera mais uma moderniza\u00e7\u00e3o sem ser moderno e n\u00e3o goza de popularidade por causa da crise \u00e9tica.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que vamos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2018. Por circunst\u00e2ncias muito singulares, a coaliz\u00e3o que aprovou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, formada por for\u00e7as que participavam do antigo governo e da oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o consegue se reproduzir como uma alternativa unificada de poder. \u00c9 curto o prazo que resta para isso. As alternativas postas com mais vigor para a sucess\u00e3o do governo Michel Temer representam uma recidiva de tend\u00eancias populistas de direita e de esquerda, um anacronismo em rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o ao futuro pr\u00f3ximo, mas ao pr\u00f3prio presente. Tanto o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) quanto o deputado Jair Bolsonaro (que est\u00e1 de sa\u00edda do PSC para o Patriotas) defendem modelos que se baseiam no fortalecimento do capitalismo de Estado e em velhas teses nacional-desenvolvimentistas. Ambos desdenham da democracia representativa, da liberdade de imprensa e da autonomia da sociedade civil.<\/p>\n<p><strong>Diferen\u00e7as hist\u00f3ricas<\/strong><br \/>\nPor que ser\u00e1, ent\u00e3o, que propostas mais comprometidas com a democracia e as mudan\u00e7as que o pa\u00eds exige n\u00e3o conseguem se apresentar nesse processo como alternativa de poder, ainda? Por dois motivos. Um \u00e9 a crise do PSDB, que somente agora v\u00ea uma luz no fim do t\u00fanel, com a elei\u00e7\u00e3o do governador Geraldo Alckmin \u00e0 presid\u00eancia da legenda, mas que n\u00e3o conseguiu ainda se impor ao conjunto das for\u00e7as que apoiaram ao impeachment como alternativa real de poder. De certa forma, muito mais do que unir um partido fragilizado pelo envolvimento de alguns de seus l\u00edderes mais expressivos na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, com forte repercuss\u00e3o eleitoral em alguns estados, falta ao virtual candidato do PSDB \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica um projeto pol\u00edtico de moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que combata as desigualdades e a exclus\u00e3o e seja capaz de empolgar a sociedade.<\/p>\n<p>O segundo motivo \u00e9 o governo de transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somente devido ao enorme desgaste causado pelo envolvimento de alguns dos seus principais ministros na Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, mas por causa das diverg\u00eancias entre Temer e seus aliados e os tucanos paulistas, que acabam de desembarcar do governo. Por mais cordiais e cavalheirescas que sejam as rela\u00e7\u00f5es entre o presidente e o governador paulista, essas diverg\u00eancias s\u00e3o de natureza hist\u00f3rica: em princ\u00edpio, o PSDB nasceu para negar o PMDB. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 isso que impede a alian\u00e7a. \u00c9 a vontade de Temer e seus aliados de terem seu pr\u00f3prio candidato em 2018, de prefer\u00eancia o pr\u00f3prio, bafejado pelo sucesso de suas reformas, qui\u00e7\u00e1 a da Previd\u00eancia, por indicadores econ\u00f4micos como as menores taxas de infla\u00e7\u00e3o e de juros em d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>For\u00e7as que desempenharam um papel democr\u00e1tico e transformador, com as mudan\u00e7as em curso, ao se oporem a elas, acabam se colocando no papel de elementos reacion\u00e1rios e conservadores Os elos entre o passado e o presente no Brasil s\u00e3o cheios de surpresas e singularidades. Vejamos, por exemplo, o caso do populismo. 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