{"id":2243,"date":"2017-12-31T08:34:49","date_gmt":"2017-12-31T10:34:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2243"},"modified":"2017-12-31T10:24:19","modified_gmt":"2017-12-31T12:24:19","slug":"nas-entrelinhas-o-pior-ja-passou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-pior-ja-passou\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O pior j\u00e1 passou"},"content":{"rendered":"<p><em>O pa\u00eds tem estabilidade monet\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o crescente, o que favorece os investimentos. Quanto \u00e0 reforma da Previd\u00eancia, melhor analisar sob a \u00f3tica do Bar\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Appar\u00edcio Torelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, era um eterno otimista, para quem tudo acabaria bem quando a situa\u00e7\u00e3o parecia a pior poss\u00edvel. Vem da\u00ed uma conversa impag\u00e1vel do pr\u00f3prio Apporely (como tamb\u00e9m assinava) com o romancista Graciliano Ramos, um dos grandes de nossa literatura, relatada em Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere (Record), na qual sustentava sua teoria das duas hip\u00f3teses. Fundava-se na demonstra\u00e7\u00e3o de que todo fato gera duas alternativas; exclu\u00eda-se uma, desdobrava-se a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por diante, numa cadeia comprida. \u00c9 o autor de Vidas Secas, o revolucion\u00e1rio ex-prefeito de Palmeira dos \u00cdndios, que nos conta a tese do Bar\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cQue nos poderia acontecer? Ser\u00edamos postos em liberdade ou continuar\u00edamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desej\u00e1vamos. Se fic\u00e1ssemos na pris\u00e3o, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se n\u00e3o nos processassem, bem: \u00e0 falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam embora. Se, nos processassem, ser\u00edamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esper\u00e1vamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve, muito bem: descansar\u00edamos algum tempo sustentados pelo governo, depois ir\u00edamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, ser\u00edamos anistiados, ou n\u00e3o ser\u00edamos. Se f\u00f4ssemos anistiados, excelente: era como se n\u00e3o houvesse condena\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o nos anistiassem, cumprir\u00edamos a senten\u00e7a ou morrer\u00edamos. Se cumpr\u00edssemos a senten\u00e7a, magn\u00edfico: voltar\u00edamos para casa. Se morr\u00eassemos, ir\u00edamos para o c\u00e9u ou para o inferno. Se f\u00f4ssemos para o c\u00e9u, \u00f3timo: era a suprema aspira\u00e7\u00e3o de cada um. E se f\u00f4ssemos para o inferno? A cadeia findaria a\u00ed. Realmente. Realmente ignor\u00e1vamos o que nos sucederia se f\u00f4ssemos para o inferno. Mas ainda assim n\u00e3o convinha alarmar-nos, pois essa desgra\u00e7a poderia chegar a qualquer pessoa, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o ou fora dela.\u201d<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia dela\u00e7\u00e3o premiada, nem tornozeleira eletr\u00f4nica, mas a tese de Bar\u00e3o n\u00e3o deixa de ter serventia para quem hoje est\u00e1 em cana por causa da Lava-Jato, mesmo os que foram frustrados pelo indulto de Natal concedido pelo presidente Michel Temer e suspenso pela presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra C\u00e1rmen L\u00facia. Vale tamb\u00e9m para quem foi condenado ou est\u00e1 em pris\u00e3o preventiva, ou mesmo no caso de uma condu\u00e7\u00e3o coercitiva. E para os que aguardam julgamento em segunda inst\u00e2ncia em liberdade, como o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que ainda pode entrar em cana se for condenado em segunda inst\u00e2ncia, logo depois do ano-novo, pelo Tribunal Federal de Recursos da 4\u00aa Regi\u00e3o, com sede em Porto Alegre. Ressalva importante: Graciliano e o Bar\u00e3o foram presos por fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura de Get\u00falio Vargas, n\u00e3o por crime comum.<\/p>\n<p><strong>Otimismo<\/strong><\/p>\n<p>Mas, deixando esse assunto de lado, o pior j\u00e1 passou para a maioria da popula\u00e7\u00e3o por v\u00e1rias raz\u00f5es objetivas, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com essa teoria do Bar\u00e3o. Primeiro, do ponto de vista pol\u00edtico, por mais confusa que seja a situa\u00e7\u00e3o, ainda temos a certeza de que o calend\u00e1rio eleitoral est\u00e1 mantido e haver\u00e1 elei\u00e7\u00f5es gerais em 2018. Assim, deputados estaduais e federais, senadores, governadores e o presidente da Rep\u00fablica ser\u00e3o eleitos ou reeleitos, o que depende da vontade popular. Ou seja, nossa democracia sobreviveu \u00e0 crise do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff com galhardia, o que faz da narrativa do golpe, cada vez mais, uma simples ret\u00f3rica de quem perdeu o poder por v\u00e1rias raz\u00f5es, por\u00e9m, a principal foi incompet\u00eancia pol\u00edtica mesmo.<\/p>\n<p>Segundo, a Lava-Jato continua firme e forte, mas sem exageros. \u00c9 o que podemos deduzir da aparente barafunda jur\u00eddica no Supremo Tribunal Federal (STF), que \u00e0s vezes se comporta como biruta de aeroporto. Gradativamente, seja em raz\u00e3o da troca de guarda no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, seja por causa da mudan\u00e7a de composi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Corte, o equil\u00edbrio entre os poderes e o respeito \u00e0s prerrogativas dos r\u00e9us est\u00e3o sendo observados, apesar de muitas vezes certas decis\u00f5es darem a impress\u00e3o de que v\u00e3o sepultar a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o caso. A atua\u00e7\u00e3o de Raquel Dodge \u00e0 frente da PGR est\u00e1 mostrando isso. Com os julgamentos dos pol\u00edticos, surgir\u00e1 uma luz no fim do t\u00fanel da crise \u00e9tica.<\/p>\n<p>Terceiro, a economia reage positivamente, num ritmo ainda lento, mas firme. A infla\u00e7\u00e3o caiu abaixo de 3%, os juros est\u00e3o baixos e a atividade econ\u00f4mica voltou a crescer. Apesar da queda do n\u00edvel de emprego de novembro, o saldo da gera\u00e7\u00e3o de empregos em 2017 \u00e9 positivo e as expectativas s\u00e3o de que o pa\u00eds tem um horizonte de estabilidade monet\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o crescente, o que deve favorecer os investimentos. Quanto \u00e0 reforma da Previd\u00eancia, melhor analisar sob a \u00f3tica do Bar\u00e3o. Feliz ano-novo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pa\u00eds tem estabilidade monet\u00e1ria e produ\u00e7\u00e3o crescente, o que favorece os investimentos. Quanto \u00e0 reforma da Previd\u00eancia, melhor analisar sob a \u00f3tica do Bar\u00e3o Appar\u00edcio Torelly, o Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, era um eterno otimista, para quem tudo acabaria bem quando a situa\u00e7\u00e3o parecia a pior poss\u00edvel. 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