{"id":2247,"date":"2018-01-02T21:02:49","date_gmt":"2018-01-02T23:02:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2247"},"modified":"2018-01-02T21:03:31","modified_gmt":"2018-01-02T23:03:31","slug":"o-futuro-em-fragmentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-futuro-em-fragmentos\/","title":{"rendered":"O futuro em fragmentos"},"content":{"rendered":"<p><em>Precisamos decidir se vamos \u201ctransnacionalizar\u201d nossa cadeia produtiva ou voltar ao modelo nacional-desenvolvimentista<\/em><\/p>\n<p>O mundo p\u00f3s-moderno quase n\u00e3o tem lugar para as chamadas \u201cmeta narrativas\u201d. Surgiu com a queda do muro de Berlim e o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, embora os primeiros sinais de colapso e de fragmenta\u00e7\u00e3o das ideias totalizantes (n\u00e3o confundir necessariamente com totalitaristas), tenham surgido h\u00e1 50 anos, a partir das manifesta\u00e7\u00f5es de maio de 1968 na Fran\u00e7a, que se espalharam pelo mundo e eclodiram tamb\u00e9m no Brasil, at\u00e9 um pouco antes, como destacou Zuenir Ventura, o autor de O ano que terminou (Saraiva), em sua entrevista recente na Folha de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nAs an\u00e1lises sobre os fen\u00f4menos deram lugar \u00e0s narrativas pol\u00edticas. Para n\u00e3o falar nas fake news, as not\u00edcias mentirosas que \u201cviralizam\u201d nas redes sociais e podem decidir o destino do mundo, como aconteceu nas elei\u00e7\u00f5es americanas. As chamadas \u201ccondi\u00e7\u00f5es objetivas\u201d favoreceram a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, para usar um fragmento de an\u00e1lise totalizante, mas j\u00e1 est\u00e1 cada vez mais claro para o mundo que o presidente do EUA recebeu um empurr\u00e3ozinho com m\u00e3o de gato de seu colega da R\u00fassia, Vladimir Putin, por meio de jovens hacker da Maced\u00f4nia. O que ser\u00e1 que vai acontecer aqui no Brasil nas elei\u00e7\u00f5es de 2018?<br \/>\nDevemos ao soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, um dos te\u00f3ricos do p\u00f3s-moderno, uma abordagem \u201ctotalizante\u201d desse mundo fragmentado: vivemos numa sociedade l\u00edquida, cuja realidade \u00e9 amb\u00edgua, multiforme, na qual tudo o que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar, como na prof\u00e9tica frase de Karl Marx no Manifesto Comunista de 1848 (a prop\u00f3sito, entrou no circuito o filme sobre a juventude do autor d\u2019O Capital). Vejamos seu cortejo de individualismo, consumismo, hedonismo e mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas inimagin\u00e1veis, no qual ideias conservadoras, velhas e retr\u00f3gradas, emergem como uma esp\u00e9cie de Contrarreforma, para varrer de vez a Raz\u00e3o iluminista. N\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 do Brasil, \u00e9 um fen\u00f4meno mundial. Mas que ser\u00e1 de n\u00f3s na pr\u00f3xima campanha eleitoral?<br \/>\nAntes de mais nada, precisamos decidir se vamos \u201ctransnacionalizar\u201d nossa cadeia produtiva ou dar marcha \u00e0 r\u00e9, voltar ao velho capitalismo de estado e ao modelo nacional-desenvolvimentista. Estamos entre dois polos econ\u00f4micos que disputam o controle do com\u00e9rcio mundial \u00e0s nossas costas; sim, porque o eixo da economia mundial se deslocou do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico. Se nada acontecer nos Estados Unidos ou na China, o cen\u00e1rio estar\u00e1 aberto para o Brasil se recuperar economicamente e avan\u00e7ar, n\u00e3o importa o que venha a acontecer com a Europa. A \u00c1frica n\u00e3o conta, porque j\u00e1 est\u00e1 mesmo ferrada; e s\u00f3 o colapso do equil\u00edbrio armado do Oriente M\u00e9dio, onde impera ao \u201cgrande jogo\u201d das pot\u00eancias na Eur\u00e1sia, faria diferen\u00e7a. Ou uma loucura nuclear at\u00e9 bem pouco tempo impens\u00e1vel na pen\u00ednsula coreana.<\/p>\n<p><strong>Incertezas<\/strong><br \/>\nEntretanto, se os juros nos EUA forem puxados para cima ou o expansionismo comercial da China der errado, o sinal verde pode fechar. A nossa vulnerabilidade externa ficaria desnuda e pintada de vermelho. E a\u00ed nossas incertezas ser\u00e3o maiores. N\u00e3o nos iludamos com os fogos do ano-novo: os pensamentos imperfeitos est\u00e3o pautando a sociedade e certamente nos levar\u00e3o a grandes emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que temos muitas raz\u00f5es para ser otimistas, num cen\u00e1rio externo favor\u00e1vel, porque a economia entrou nos trilhos. Mas \u00e9 bom n\u00e3o confundir nossa maria-fuma\u00e7a com um trem-bala. H\u00e1 dois cen\u00e1rios econ\u00f4micos poss\u00edveis com o ambiente externo est\u00e1vel: um \u00e9 o devagar e sempre da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica gradativa, com infla\u00e7\u00e3o baixa, juros reduzidos e um pouco de investimentos externos, sem reforma da Previd\u00eancia. O outro, menos prov\u00e1vel, por\u00e9m, mais favor\u00e1vel, \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da mesma pol\u00edtica econ\u00f4mica se a reforma da Previd\u00eancia for feita e d\u00e9ficit p\u00fablico reduzido. Zero ju\u00edzo de valor sobre essa mudan\u00e7a em si na vida dos aposentados; estamos falando de contas p\u00fablicas e da rea\u00e7\u00e3o do mercado.<br \/>\nEsse tipo de incerteza econ\u00f4mica fica entre o bom e o \u00f3timo, respectivamente; por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o caso da pol\u00edtica. Nesse campo, o cen\u00e1rio atual est\u00e1 entre o ruim e o pior; o regular \u00e9 apenas uma possibilidade. O bom e o \u00f3timo, por enquanto, n\u00e3o existem. A polariza\u00e7\u00e3o entre o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) \u00e9 uma esp\u00e9cie de unidade dos contr\u00e1rios, para usar a velha dial\u00e9tica. S\u00e3o dois projetos nacionalistas, que se excluem politicamente, mas s\u00e3o solid\u00e1rios eleitoralmente, porque se retroalimentam. O moderno na sociedade, mesmo o \u201camericanismo\u201d emergente na pol\u00edtica em rede, est\u00e1 sendo engolido pela ret\u00f3rica populista e\/ou reacion\u00e1ria, e fragmentado por aus\u00eancia de um polo aglutinador que consiga se impor \u00e0s narrativas p\u00f3s-modernas como um projeto novo, robusto, exequ\u00edvel. As narrativas p\u00f3s-modernas, por enquanto, mais desagregam do que contribuem para reposicionar o Brasil no mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Precisamos decidir se vamos \u201ctransnacionalizar\u201d nossa cadeia produtiva ou voltar ao modelo nacional-desenvolvimentista O mundo p\u00f3s-moderno quase n\u00e3o tem lugar para as chamadas \u201cmeta narrativas\u201d. 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