{"id":2268,"date":"2018-01-07T07:58:44","date_gmt":"2018-01-07T09:58:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2268"},"modified":"2018-01-07T09:56:26","modified_gmt":"2018-01-07T11:56:26","slug":"nas-entrelinhas-salvadores-da-patria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-salvadores-da-patria\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Salvadores da p\u00e1tria"},"content":{"rendered":"<p><em>O sebastianismo \u00e9 uma heran\u00e7a t\u00e3o forte quanto o velho patrimonialismo das oligarquias brasileiras. At\u00e9 caminham de m\u00e3os dadas, embora aparentemente se contraponham<\/em><\/p>\n<p>A face mais popular do iberismo no Brasil \u00e9 o sebastianismo, um mito messi\u00e2nico origin\u00e1rio do desaparecimento do D. Sebasti\u00e3o na batalha de Alc\u00e1cer-Quibir, no Marrocos, a 4 de agosto de 1578. Menino ainda, assumiu o trono; o rei de Portugal morreu aos \u00a024 anos e n\u00e3o deixou herdeiros. Em consequ\u00eancia, a primeira na\u00e7\u00e3o da Europa ocidental, que vinha de um exitoso ciclo de expans\u00e3o mar\u00edtima, mergulhou num per\u00edodo de frustra\u00e7\u00e3o e desgoverno, sendo anexada pela Espanha em 1580. \u00c0 \u00e9poca, o epis\u00f3dio personificou o mito do Encoberto, muito conhecido entre os crist\u00e3os-novos, por causa das profecias de Gon\u00e7alo Ant\u00f4nio Bandarra, um sapateiro de Trancoso, cujas trovas incomodavam a Inquisi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cAugurai, gentes vindouras, \/ Que o Rei que daqui h\u00e1-de-ir, \/ Vos h\u00e1-de tornar a vir\/ Passadas trinta tesouras. \/ Dar\u00e1 fruto em tudo santo, \/Ningu\u00e9m ousar\u00e1 neg\u00e1-lo;\/ O choro ser\u00e1 regalo\/ E ser\u00e1 gostoso o pranto.\u201d<\/p>\n<p>Em sua defesa, Bandarra sustentou, perante os inquisidores, que havia se inspirado na B\u00edblia, ao ler os livros de Daniel, Isa\u00edas, Jeremias e Esdras, que profetizavam a vinda de um rei que traria, finalmente, a paz e a justi\u00e7a aos povos da terra. Esse foi o ponto de partida para cria\u00e7\u00e3o do mito, que mais tarde seria acalentado nas obras de Cam\u00f5es, do padre Ant\u00f4nio Vieira e at\u00e9 mesmo de Fernando Pessoa, que invoca o velho sebastianismo para mexer com os brios dos portugueses, diante da decad\u00eancia em que se encontrava o seu pa\u00eds na primeira metade do s\u00e9culo passado, desencantado com a Rep\u00fablica e a humilha\u00e7\u00e3o perante a Inglaterra.<\/p>\n<p>Essa profecia de regresso de um salvador da p\u00e1tria acabou tendo forte influ\u00eancia no Brasil, sobretudo no Nordeste. Ariano Suassuna, em seu Romance d\u2019A Pedra do Reino e o Pr\u00edncipe do Sangue do Vai-e-Volta, reconfigura o mito: \u201cGuardai, Padre, esta espada, porque um dia hei de valer dela com os Mouros, metendo o Reino pela \u00c1frica adentro Dom Sebasti\u00e3o I \u2014 ou Dom Sebasti\u00e3o, O desejado \u2014 Rei de Portugal, do Brasil e do Sert\u00e3o\u201d. Descreve o sangrento movimento messi\u00e2nico do qual participaram os antepassados do personagem-narrador, Pedro Dinis Quaderna, por volta de 1830, na cidade de S\u00e3o Jos\u00e9 do Belmonte (PE). Depois de sonhar com dom Sebasti\u00e3o, o sertanejo Jo\u00e3o Ant\u00f4nio dos Santos fundou um movimento messi\u00e2nico que culminou na morte de 80 pessoas. Em maior escala, o messianismo ressurgiria no Brasil com o m\u00edstico Ant\u00f4nio Conselheiro, l\u00edder dos jagun\u00e7os de Canudos, no interior da Bahia.<\/p>\n<p>Alguns l\u00edderes pol\u00edticos, de certa forma, encarnaram o sebastianismo ou desejaram faz\u00ea-lo. \u00c9 o caso do l\u00edder tenentista Lu\u00eds Carlos Prestes, que se tornou um mito pol\u00edtico depois de percorrer cerca 25 mil quil\u00f4metros, em 11 estados, durante dois anos, com sua coluna que chegou a ter 1.200 rebeldes. Cerca de 200 homens cobriram todo o percurso at\u00e9 se dispersarem, uma parte na Bol\u00edvia, outra no Paraguai. A ades\u00e3o de Prestes ao comunismo, por\u00e9m, reposicionou e limitou sua lideran\u00e7a, que acabou suplantada pelo governador ga\u00facho Get\u00falio Vargas, l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, que governou o pa\u00eds por meio de uma ditadura, at\u00e9 1945.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7o vazio<\/strong><\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e o sal\u00e1rio-m\u00ednimo mantiveram inabalado o prest\u00edgio de Vargas ap\u00f3s 15 anos de ditadura, possibilitando sua volta ao poder em 1950 pelo voto, embora o legado dele fosse al\u00e9m dessa fronteira, em raz\u00e3o da reforma do Estado e do seu papel na industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Desde ent\u00e3o, amalgamado ao populismo, o messianismo no Brasil tornou-se um fen\u00f4meno muito mais pol\u00edtico do que m\u00edstico-religioso, que sobrevive apenas nas festas populares, como nas\u00a0Cavalhadas.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse leito que o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva manteve sua base eleitoral, depois de governar o pa\u00eds por oito anos, com programas compensat\u00f3rios como o Bolsa Fam\u00edlia, que facilitam a constru\u00e7\u00e3o da imagem de suposto \u201cpai dos pobres\u201d, ainda que sua estrat\u00e9gia de desenvolvimento tenha fracassado e levado o pa\u00eds ao desastre econ\u00f4mico no governo Dilma. Nem de longe se compara ao legado de Vargas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da pol\u00edtica, o sebastianismo \u00e9 uma heran\u00e7a t\u00e3o forte quanto o velho patrimonialismo das oligarquias brasileiras. At\u00e9 caminham de m\u00e3os dadas, embora aparentemente se contraponham. As alian\u00e7as de Lula no Nordeste s\u00e3o um bom exemplo disso. No Brasil meridional, por\u00e9m, o fen\u00f4meno n\u00e3o tem a mesma intensidade. O div\u00f3rcio entre a pol\u00edtica e a sociedade est\u00e1 gerando um outro tipo de lideran\u00e7a, de vi\u00e9s conservador e autorit\u00e1rio, que preenche o espa\u00e7o vazio, no caso, a candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC), mas que tamb\u00e9m se apresenta como \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d.<\/p>\n<p>Os demais candidatos a presidente da Rep\u00fablica, embora com uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica mais org\u00e2nica e institucional, enfrentam dificuldades para se colocar como real alternativa de poder. O div\u00f3rcio entre o Estado e a sociedade e a desmoraliza\u00e7\u00e3o dos partidos em raz\u00e3o do envolvimento de seus l\u00edderes com a crise \u00e9tica fazem com que, no \u00e2mbito da sociedade civil, muitos procurem um novo S\u00e3o Sebasti\u00e3o fora do mundo da pol\u00edtica. A rigor, nada impede que isso ocorra, mas ningu\u00e9m vai resolver os problemas do pa\u00eds com reza ou num passe de m\u00e1gica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sebastianismo \u00e9 uma heran\u00e7a t\u00e3o forte quanto o velho patrimonialismo das oligarquias brasileiras. At\u00e9 caminham de m\u00e3os dadas, embora aparentemente se contraponham A face mais popular do iberismo no Brasil \u00e9 o sebastianismo, um mito messi\u00e2nico origin\u00e1rio do desaparecimento do D. Sebasti\u00e3o na batalha de Alc\u00e1cer-Quibir, no Marrocos, a 4 de agosto de 1578. 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