{"id":2287,"date":"2018-01-12T09:34:20","date_gmt":"2018-01-12T11:34:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2287"},"modified":"2018-01-12T10:54:34","modified_gmt":"2018-01-12T12:54:34","slug":"nas-entrelinhas-o-par-dialetico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-par-dialetico\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O par dial\u00e9tico"},"content":{"rendered":"<p><em>A economia voltou a crescer, mas a crise de financiamento do Estado imp\u00f5e um \u201cvoo de galinha\u201d. Com a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio na economia mundial, o nosso velho desenvolvimentismo n\u00e3o tem vez<\/em><\/p>\n<p>A esquerda brasileira tem uma forte tradi\u00e7\u00e3o nacionalista, resultado da converg\u00eancia de velhas concep\u00e7\u00f5es nacional-libertadoras e do populismo. At\u00e9 o golpe de 1964, a luta contra o imperialismo era considerada mais importante do que a defesa da democracia. No governo Jo\u00e3o Goulart, por exemplo, a alian\u00e7a entre comunistas, petebistas e pessedistas que levou Juscelino Kubitschek \u00e0 Presid\u00eancia foi rompida. A esquerda considerava um retrocesso pol\u00edtico sua volta ao poder nas elei\u00e7\u00f5es marcadas para 1965, devido \u00e0 sua \u201cconcilia\u00e7\u00e3o\u201d com os Estados Unidos. Enquanto o l\u00edder petebista Leonel Brizola se lan\u00e7ava candidato a presidente (\u201ccunhado n\u00e3o \u00e9 parente\u201d), o l\u00edder comunista Lu\u00eds Carlos Prestes articulava a reelei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart. A divis\u00e3o do campo democr\u00e1tico por causa das ideias nacionalistas jogou os liberais nos bra\u00e7os dos setores conservadores liderados por Carlos Lacerda e Magalh\u00e3es Pinto, que articulavam o golpe de Estado. Entre eles estavam, por exemplo, o pr\u00f3prio Juscelino e aquele que viria a liderar a campanha das Diretas J\u00e1, Ulysses Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>Com a deposi\u00e7\u00e3o de Goulart, o ent\u00e3o presidente da C\u00e2mara dos Deputados Ranieri Mazzilli assumiu interinamente a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, mas a junta militar (general Artur da Costa e Silva, brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo e o almirante Augusto Rademaker), autodenominada \u201cComando Supremo da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, exigiu plenos poderes do Congresso para fazer cassa\u00e7\u00f5es de mandatos e demitir servidores p\u00fablicos. O historiador H\u00e9lio Silva conta que, em 8 de abril de 1964, um grupo de parlamentares, do qual fazia parte Ulysses, redigiu o ato constitucional a ser votado pelo Congresso para delegar esses poderes. No dia 9, por\u00e9m, os militares editaram o Ato Institucional n\u00ba 1 (AI-1), que conferia poderes extraordin\u00e1rios ao Executivo e estipulava a elei\u00e7\u00e3o de um novo presidente e de um vice-presidente no prazo de dois dias. Em 11 de abril, foram eleitos indiretamente para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica o general Humberto de Alencar Castelo Branco e, para a vice-presid\u00eancia, Jos\u00e9 Maria Alkmin, indicado pela maioria do Congresso. Quatro dias depois, tomaram posse. Ulysses e outros pessedistas que apoiaram o golpe de 1964 logo romperam com os militares, sendo seguidos por pol\u00edticos da antiga UDN. Juscelino e Lacerda foram cassados.<\/p>\n<p>Uma parte da esquerda aprendeu a li\u00e7\u00e3o do golpe e passou a defender a democracia, mas outra optou pela luta armada, numa perspectiva de que a tomada de poder coincidiria com uma revolu\u00e7\u00e3o, nos moldes da cubana. Tendo a guerra fria como pano de fundo, demorou para que os setores moderados da esquerda, como os antigos PCB, PTB e PSB, na ilegalidade, conseguissem convencer os demais de que o caminho da luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds passava pela disputa eleitoral e pelo apoio ao partido de oposi\u00e7\u00e3o criado pelo pr\u00f3prio regime, o MDB, j\u00e1 ent\u00e3o liderado pelo deputado Ulysses Guimar\u00e3es e outros caciques pessedistas, como Amaral Peixoto e Tancredo Neves. Essa experi\u00eancia de luta contra o regime militar levou a esquerda, na redemocratiza\u00e7\u00e3o, a inverter o chamado \u201cpar dial\u00e9tico\u201d: a luta passou a ser democr\u00e1tica e nacional. Trocando em mi\u00fados, subordinou-se o nacionalismo \u00e0 defesa da democracia.<\/p>\n<p><em>Desenvolvimentismo<\/em><br \/>\nQuando a esquerda chegou ao poder no Brasil, o mundo j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo da guerra fria. O velho colonialismo havia acabado, logo se viu o Muro de Berlim ser derrubado e a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se desintegrar, enquanto a China fazia as pazes com o capitalismo. Entretanto, o nacional desenvolvimentismo continuou sendo o eixo de sua doutrina econ\u00f4mica, principalmente porque a nossa industrializa\u00e7\u00e3o fora protagonizada pala presen\u00e7a do Estado na atividade produtiva, num acelerado processo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Era uma economia aut\u00e1rquica, que entrou em colapso ap\u00f3s a crise do petr\u00f3leo dos anos 1970. O Estado perdeu a capacidade de financiamento e o pa\u00eds passou por um longo ciclo de crises e baixo crescimento, com hiperinfla\u00e7\u00e3o no governo Sarney e recess\u00e3o no governo Dilma. Somente agora a economia voltou a crescer, mas a crise de financiamento do Estado continua impondo um \u201cvoo de galinha\u201d. Por tr\u00e1s da crise, h\u00e1 uma mudan\u00e7a de cen\u00e1rio na economia mundial, na qual o velho desenvolvimentismo n\u00e3o tem vez.<\/p>\n<p>No governo de Fernando Henrique Cardoso, o permanente choque entre desenvolvimentistas e social-liberais na equipe econ\u00f4mica j\u00e1 havia mostrado a resili\u00eancia das ideias nacionalistas; mas foi nos governos do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e de Dilma Rousseff que elas dominaram a cena e demonstraram seu anacronismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0s mudan\u00e7a tecnol\u00f3gicas que ocorrem no mundo. Quem acredita que o impeachment de Dilma Rousseff sepultou essas ideias est\u00e1 muito enganado. A recente entrevista do professor Luiz Gonzaga Beluzzo sobre a conjuntura pol\u00edtica e econ\u00f4mica do pa\u00eds mostra bem isso. Entretanto, o nacionalismo \u00e9 a bandeira das for\u00e7as mais conservadoras e retr\u00f3gradas da Europa e dos Estados Unidos. Aqui n\u00e3o \u00e9 muito diferente: a aposta na democracia e na integra\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0 economia mundial corre perigo nas elei\u00e7\u00f5es de 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economia voltou a crescer, mas a crise de financiamento do Estado imp\u00f5e um \u201cvoo de galinha\u201d. Com a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio na economia mundial, o nosso velho desenvolvimentismo n\u00e3o tem vez A esquerda brasileira tem uma forte tradi\u00e7\u00e3o nacionalista, resultado da converg\u00eancia de velhas concep\u00e7\u00f5es nacional-libertadoras e do populismo. 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