{"id":2290,"date":"2018-01-14T09:43:22","date_gmt":"2018-01-14T11:43:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=2290"},"modified":"2018-01-14T09:46:22","modified_gmt":"2018-01-14T11:46:22","slug":"nas-entrelinhas-o-mal-estar-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-mal-estar-eleitoral\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O mal-estar eleitoral"},"content":{"rendered":"<p><em>O ambiente \u201cl\u00edquido\u201d da disputa eleitoral fragmenta ainda mais os interesses da maioria e nenhum nome se apresenta como alternativa \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Um dos grandes fatores de incerteza na conjuntura pol\u00edtica \u00e9 a aus\u00eancia de um projeto de pa\u00eds no debate eleitoral que se inicia. Outro, o fato de que o Estado brasileiro est\u00e1 em crise, com o fracasso das pol\u00edticas p\u00fablicas e uma crise de financiamento cuja conta est\u00e1 sendo toda pendurada no sistema de Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que os pol\u00edticos e seus partidos n\u00e3o oferecem uma alternativa convincente e motivadora para a situa\u00e7\u00e3o, a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato revelou para a sociedade que o financiamento da pol\u00edtica \u2014 e o enriquecimento pessoal de seus principais operadores \u2014 era feito por meio do desvio ilegal de recursos, que deveriam ter ido para escolas, hospitais, estradas, metr\u00f4s, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel evitar o enorme mal-estar instalado na sociedade, com o agravante de que isso est\u00e1 sendo potencializado por outros fen\u00f4menos que n\u00e3o s\u00e3o uma exclusividade brasileira. No mundo inteiro, o Estado perdeu sua refer\u00eancia. O que era moderno e s\u00f3lido, organizado, produtor de justi\u00e7a e provedor da qualidade de vida das pessoas est\u00e1 se desmanchando no ar. Como assinalou o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman (O mal-estar da p\u00f3s-modernidade, Zahar), o Estado na p\u00f3s-modernidade perdeu o poder para o mercado livre, perdeu o prop\u00f3sito de sua exist\u00eancia. Quanto maior, mais atrapalha. O Estado tornou-se uma empresa ineficiente.<\/p>\n<p>Bauman utiliza a met\u00e1fora da liquidez para caracterizar a sociedade contempor\u00e2nea. A crise das ideologias da modernidade \u2014 que tinham come\u00e7o, meio e fim e uma base social estruturada na sociedade industrial \u2014 resultou numa cultura fluida, l\u00edquida, gasosa, pautada pelas incertezas e pela volatilidade. Tudo parece errado e em movimento. O que seria mais civilizado se revelou uma sociedade mais cruel e embrutecida, mais desigual e injusta. No Brasil, essa sensa\u00e7\u00e3o de fracasso da sociedade contempor\u00e2nea por n\u00e3o alcan\u00e7ar a felicidade, fruto da p\u00f3s-modernidade, \u00e9 ainda maior por causa da exclus\u00e3o e da viol\u00eancia, sem falar na corrup\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos. Sem as velhas utopias que fracassaram e com a fragmenta\u00e7\u00e3o das ideologias, a pol\u00edtica se tornou um objetivo em si mesma e um balc\u00e3o de neg\u00f3cios, perdeu o projeto de Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rios<\/strong><br \/>\n\u00c9 nesse ambiente que entramos no ano eleitoral. Os discursos s\u00e3o, no m\u00ednimo, regressivos. Uma esp\u00e9cie de pare o mundo, vamos dar marcha \u00e0-r\u00e9. O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, por exemplo, se apresenta como v\u00edtima de uma grande injusti\u00e7a, como se nada tivesse a ver com toda a roubalheira que houve durante seus dois mandatos e o colapso econ\u00f4mico do pa\u00eds no governo Dilma Rousseff, cuja elei\u00e7\u00e3o foi sua maior proeza. Quer passar uma borracha no que aconteceu entre 2011 e 2016 e retomar o fio da hist\u00f3ria l\u00e1 atr\u00e1s. Vamos supor que isso fosse poss\u00edvel. Se Lula voltar ao poder para fazer o que vem dizendo, o desastre ser\u00e1 ainda maior. Basta olhar para a Venezuela e outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Outro player do debate eleitoral \u00e9 o deputado Jair Bolsonaro (PSL). Depois da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos Estados Unidos, acredita que pode falar qualquer bobagem e nada abalar\u00e1 o seu prest\u00edgio. As bandeiras conservadoras e retr\u00f3gradas s\u00e3o agarradas com as duas m\u00e3os pelo parlamentar, que faz uma defesa incondicional do golpe militar de 1964 e dos 20 anos de regime autorit\u00e1rio que o pa\u00eds atravessou. Agora flerta com ideias liberais na economia por mera conveni\u00eancia; sua cabe\u00e7a \u00e9 nacionalista e estatizante, como a do ex-presidente Ernesto Geisel, com a diferen\u00e7a que n\u00e3o tem a mesma cultura e experi\u00eancia administrativa do general que restabeleceu a hierarquia nas For\u00e7as Armadas e promoveu a abertura pol\u00edtica. Com Bolsonaro no poder e um Congresso que lhe seja hostil, o risco de golpe militar entra em qualquer cen\u00e1rio p\u00f3s-eleitoral.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que o pa\u00eds que queremos comporta essas duas alternativas? As pesquisas mostram que n\u00e3o. A maioria da sociedade ainda defende valores essenciais para a democracia, entre os quais a busca de consensos e a constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es positivas, o respeito \u00e0 diversidade, \u00e0 igualdade de oportunidades e \u00e0 inclus\u00e3o. Entretanto, o ambiente \u201cl\u00edquido\u201d da disputa eleitoral fragmenta ainda mais os interesses da maioria e nenhum nome se apresenta como alternativa ao centro, nem mesmo aqueles que deveriam polarizar o debate eleitoral, como Marina Silva (Rede) e o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).<\/p>\n<p>Que pa\u00eds queremos? Quem responder a esse questionamento certamente ter\u00e1 possibilidade de disputar pra valer a Presid\u00eancia. Sabemos, por\u00e9m, que as refer\u00eancias dos brasileiros n\u00e3o s\u00e3o os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica ou \u00c1sia; s\u00e3o a Europa e os Estados Unidos. Sabemos tamb\u00e9m que \u00e9 preciso fazer um novo pacto entre o Estado e a sociedade e pensar um modelo de desenvolvimento mais sustent\u00e1vel, que aproveite nossos recursos naturais de forma n\u00e3o-predat\u00f3ria e aposte fortemente no conhecimento para que nos tornemos um pa\u00eds melhor para dentro e para fora dos locais de trabalho e de moradia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ambiente \u201cl\u00edquido\u201d da disputa eleitoral fragmenta ainda mais os interesses da maioria e nenhum nome se apresenta como alternativa \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o Um dos grandes fatores de incerteza na conjuntura pol\u00edtica \u00e9 a aus\u00eancia de um projeto de pa\u00eds no debate eleitoral que se inicia. 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